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Cabral e o Ovo de Colombo

12.09.2019
 
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Cabral e o Ovo de Colombo


por  Fernando Soares Campos

 

A metafórica expressão "Ovo de Colombo" refere-se a soluções que encontramos para certos problemas, agindo de uma maneira que nos parece simples, comum, até natural, mas que na verdade houve época em que ninguém havia pensado naquilo, até que alguém planejou e resolveu agir daquela forma. Daí em diante, aquele método se tornou corriqueiro, solução óbvia, mas que nem sempre teria sido assim.

 

Depois do descobrimento da América, Cristóvão Colombo passou a desfrutar uma fama de dar inveja a Galileu, Gagarin ou aos Beatles. Os institutos castelhanos de pesquisa registravam homéricos índices de popularidade colombina, percentuais que, desde então, só são menores que os da popularidade de Lula, coisa nunca antes alcançada na história.

 

Certo dia, Colombo foi convidado para mais um banquete em que lhe prestariam honrosa homenagem. Um dos convidados, enciumado com a badalação em torno do nome de Colombo, lhe fez a seguinte pergunta:

 

─ Você descobriu o Novo Mundo, certamente merece reconhecimento, mas, por acaso, acredita que não existem outros homens na Espanha que poderiam ter realizado esse mesmo empreendimento?

 

Colombo, mantendo a fleugma, não respondeu diretamente à pergunta, mas propôs um desafio aos presentes. Pegou um ovo de galinha e desafiou todos os que ali se encontravam a colocar o tal ovo em pé, apoiando-o sobre uma de suas extremidades.

 

Muitos foram os que decidiram tentar vencer o desafio. Debalde (palavra que, à época, estava em voga, assim como "em voga" era naquele momento uma expressão em voga).

 

Todos fracassaram.

 

Depois de muitas tentativas, os desafiados voltaram-se para Colombo e declararam a impossibilidade de realizar aquela façanha.

Colombo pegou uma pitada de sal, colocou-a num canto da mesa, assentou o ovo sobre os cristalinos grãos (há quem diga que ele fez de outra forma: bateu cuidadosamente o ovo contra a mesa até que a casca se quebrasse levemente na parte mais arredondada) e com isso foi simples colocá-lo em pé.

 

O homem que o havia provocado inicialmente protestou:

 

─ Assim qualquer um pode fazê-lo!

 

Colombo respondeu:

 

─ Sim, qualquer um! Mas precisa ser qualquer um que tivesse tido a ideia de fazê-lo. - E concluiu: Uma vez que eu mostrei o caminho do Novo Mundo, "qualquer um" poderá segui-lo. Mas, antes, alguém teve a ideia. E, depois, alguém teve que se decidir a colocá-la em prática. Portanto, agora, para todos aqui presentes, é fácil colocar o ovo em pé.

 

Dizem ainda que entre os convidados para o banquete estava o navegador português Pedro Álvares Cabral, que, diante da lição dada por Colombo, acreditou ter aprendido a realizar grandes navegações. Cabral estava convicto de que poderia até fazer um pouco mais, chegar um tanto mais longe que seu colega espanhol. E foi assim pensando que o comandante português se lançou ao mar.

 

Dias depois de iniciar a aventura que o traria a estas terras tupiniquins, Cabral aportou nas Ilhas Canárias e postou uma carta a Colombo, através da qual fazia a seguinte observação:

 

"Você nos mostrou o caminho para as índias e nos ensinou a colocar o ovo em pé, fator considerado imprescindível para realizar grandes navegações, mas, já nestas primeiras milhas navegadas, posso lhe garantir que mantê-lo nessa posição com o mar agitado é praticamente impossível."

 

Os historiadores não registram esta particularidade sobre o episódio do descobrimento, mas podemos deduzir que Cabral só conseguiu chegar aqui, em Pindorama, em vista das calmarias equatoriais, pois, quando o mar serenou, ele pôde manter o ovo em pé durante a travessia. 

 

(*) Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade - contos para meditar e rir... ou chorar", Chiado Editora, Portugal, 2018. 

 

 


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