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Gassan Kanafani: Há 42 anos calaram a sua voz... mas suas ideais não morreram

12.07.2014
 
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Gassan Kanafani

Há 42 anos, Gassan Kanafani, um dos mais brilhantes escritores palestinos, foi assassinado por agentes do serviço secreto sionista que colocaram explosivos no seu carro no dia sábado 08 julho de 1972, em Beirute. Neste atentado terrorista faleceu, junto ao grande escritor palestino, sua sobrinha Lamis de 17 anos.

  

Fonte: Palestinalibre.org
Tradução Oriente Mídia

  

Gassan Kanafani, o maior escritor palestino, multifacetado, foi historiador, pintor, designer, escritor e jornalista de destaque. Só conseguiu viver até os 36 anos, embora nunca tenha usado armas de fogo para defender o seu povo, a sua melhor arma foi a palavra, foi mais eficaz, algo que o fascismo não suporta e por isso acabaram com a sua vida.

Ao longo da história os "bárbaros" queimaram bibliotecas (Alexandria, Babilônia, Bagdá, Chile, Palestina), cortaram os dedos de canta autores (Victor Jara) e mataram Gassan Kanafani, mas esqueceram, mais uma vez, que as pessoas podem morrer mas "a ideia", "o pensamento" e "a esperança" crescem, se fortalecem e multiplicam e são o pão do qual os amantes da humanidade e da liberdade se alimentam.

Gassan Kanafani foi um dos mais destacados valores da literatura contemporânea palestina. Se Mahmoud Darwish representa a poesia, Kanafani representa a narrativa, e especificamente a narrativa do exílio.

Kanafani, como quase todos os escritores palestinos, é um intelectual profundamente comprometido com a causa de seu povo. A partir dos 15 anos, ele tem estado ativamente envolvido na Resistência, filiando-se em 1953, ao Movimento dos Nacionalistas Árabes, e a partir de 1967, à Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP). Em 1956, emigrou para o Kuwait e em 1960 mudou-se para Beirute, onde se destacou como jornalista combativo, tornando-se diretor do jornal "Al-Muharrir" e fundando do semanário "Al-Hadaf", órgão oficial da FPLP.

Em 8 de julho de 1972 aos 36 anos de idade, foi morto junto com sua sobrinha, pelos serviços secretos israelenses, já que "a sua voz era mais eficaz do que as armas".

Além de sua intensa atividade jornalística, Kanafani deixou uma narrativa considerável (contos e romances), que tem como tema central o sofrimento e o exílio do povo palestino. Sua obra ficou conhecida ao longo dos anos 60 e 70 e são um testemunho impressionante, tanto por seu realismo gritante e boa descrição de situações e personagens, como pela indiscutível qualidade literária que ganhou o reconhecimento da crítica especializada. A toda esta dimensão criativa é preciso acrescentar seus ensaios literários e seu trabalho sobre questões políticas, que revelam um temperamento preocupado com as definições ideológicas e o destino de seu povo.

Em 1988, a Editoria Arte e Literatura de Cuba, especializada em traduções de literatura estrangeira, publicou um dos trabalhos mais importantes de Kanafani, a obra que provavelmente tem lhe dado mais prestígio: Homem ao sol, publicada em Beirute (refúgio tradicional da inteligência palestina) em 1963, com ilustrações de Muna Al Saudi. Esta novela ou romance curto aborda diretamente a questão do exílio, a necessidade imperiosa de emigrar que tem os palestinos pobres, oprimidos e humilhados. A história gira em torno de três palestinos pertencentes a três gerações que lutam desesperadamente para chegar ao Kuwait, uma espécie de miragem da "terra prometida ", um país que, supostamente, irá lhes oferecer bem-estar e fazê-los esquecer suas inúmeras dores.

Através de uma série de acontecimentos e imagens que definem a estrutura da obra, Kanafani consegue prender a atenção do leitor, introduzindo diretamente na tragédia de um povo cuja sobrevivência é um desafio para toda a humanidade, sem distinção de partidos, credos ou nações. Seguindo o caminho da estrada para o Kuwait, Kanafani irá delinear cuidadosamente a psicologia destes personagens populares: Abu Kais, um idoso que representa a geração derrotada; Assad e Marwan, representantes da nova geração, personagens atormentados pela miséria física e social com uma lembrança em comum: a experiência nos campos de refugiados. Homens da Palestina eterna que fogem de si mesmos, de sua sombra, do seu passado, mas são incapazes, pelo seu individualismo extremo, de vislumbrar uma alternativa libertadora. A morte dos três personagens em um caminhão cisterna é o símbolo dessa impotência.

É evidente na narrativa de Kanafani a presença elementos líricos que operam na história como recursos dramáticos ou emocionais: a mesma dispersão da escrita, estruturação em base de episódios, cenas instantâneas e lembranças propiciam um clima eminentemente poético à dura temática realista e a inocultável realidade social​​.

"Los ojos se le llenaron de lágrimas. Las sentía brotar, ardientes, como un manantial que desde las entrañas le fluyera hasta anegarle en llanto. Hubiera querido decir algo, pero no podía. Se volvió y salió a la calle. A su alrededor todo flotaba tras un velo de lágrimas contenidas.

"Seus olhos encheram-se de lágrimas. As sentia brotar, ardentes, como um manancial que desde as entranhas fluía até trasbordar em choro. Ele queria dizer algo, mas não podia. Se virou e saiu à rua. Ao seu redor tudo flutuava trás um véu de lágrimas não derramadas. Outra vez o presente: o rio que fundia-se com o céu no horizonte."

Fragmento como este nos dá uma ideia do temperamento estético Kanafani e sua capacidade de transmitir imagens da realidade.

Obras

Apesar de ter morrido aos 36 anos, Kanafani foi um autor prolífico. Ele escreveu quatro romances completos (e três inacabados), cinquenta e sete contos (coletados em quatro compilações) três obras de teatro completas (e uma incompleta), três ensaios literários e uma infinidade de artigos jornalísticos. A temática do trabalho de Kanafani  expõe (e tentar responder) questões como a identidade palestina, a pátria (e terra) perdida, a situação dos refugiados e a tomada de consciência individual e coletiva. No entanto, o trabalho de Kanafani excede os limites da situação palestina apresentando temas universais como a felicidade passada, o drama da imigração ou a relação entre o tempo e a memória.Mas, se há um tema que se destaca acima de todos os outros, este é a construção da nação palestina através da narrativa. O trabalho de Kanafani não é apenas uma crônica de seu tempo ou uma maneira de informar a situação do povo palestino, o trabalho de Kanafani responde à necessidade de construção de (literalmente) uma nação que, até o desastre de 1948, não tinha sentido essa necessidade. Em seu trabalho, a nação palestina é uma narrativa que é construída por diferentes ferramentas textuais (a ideia de nação-narração é amplamente definida na obra de Homi K. Bhabha, Nation and Narration). Kanafani utiliza diferentes recursos estilísticos, tais como o simbolismo, o diálogo interno a memória ou impressões sensoriais para, assim como Yahya Omar Hassan e Noritah sugerem, criar uma terra, uma nação e criar um espaço para ele e para o seu povo.

Novelas

Homens ao sol. Beirute, 1963.

O que nos resta. Beirute, 1966.

Umm Saad. Beirute, 1969.

Voltar para Haifa. Beirute, 1970.

Romances em espanhol

Kanafani, Ghassan.Hombres en el sol; Lo que os queda; Un Saad.Madariaga, M. Rosa de (trad). Ediciones Libertarias-Prodhufi, 1988. 176 p. ISBN: 84-404-2758-1

Kanafani, Gassan. Un mundo que no es nuestro. Prieto González, María Luisa (trad). Huerga y Fierro Editores, 1995. 224 p. ISBN: 84-88564-66-X

Kanafani, Gassan. Umm sa'd. Abdallah El-Geadi, Mohamed (trad). Elgeadi Abdallah-Brahim, Mohamed, 1998. 96 p. ISBN: 84-404-2758-1

Obras de teatro

A porta. Beirute, 1964.

Um mundo que não é nosso. Beirute, 1965.

O chapéu e o profeta. Beirute, 1973. Incompleta

Ponte para a eternidade. 1978.

Coletâneas de contos

Morte na cama número 12. Beirute, 1961.

A terra de laranjas tristes. Beirute de 1963

Sobre homens e rifles. Beirute, 1968.

A camisa roubada e outras histórias. 1982

Ensaios

Literatura da Resistência na Palestina Ocupada 1948-1966.

Sobre a Literatura Sionista. 1967.

Literatura Palestina de Resistência sob a Ocupação 1948-1968. 1968

Baixar obras em espanhol:

- El Gato

- Hombres en el Sol

- Muros de Fierro

- Visión de Ramallah

 

Fonte: Palestinalibre.org
Tradução Oriente Mídia

 


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