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Espetáculo de dança reflete sobre 68

12.06.2008
 
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Espetáculo de dança reflete sobre 68

Tatiane Leal

Há 40 anos, uma onda de insatisfação e desejo de mudança varreu o mundo, fazendo com que jovens organizassem protestos e inovações por toda a parte. Foi o ano de 1968, em que, enquanto na França os jovens lutavam por um acesso mais amplo à universidade, no Brasil lutava-se contra a ditadura militar. Inserido nesse contexto, um espetáculo de dança idealizado pela professora Marta Peres, do curso de Bacharelado em Dança da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD) da UFRJ, homenageará Vera Silvia Magalhães, que participou ativamente da resistência contra a ditadura no movimento de luta armada. Vera faleceu em dezembro de 2007.


A idéia foi de alunos da turma do 7° período do bacharelado em Dança que assistiram a uma palestra de Vera Silvia Magalhães, que veio à Escola a convite da professora Marta. “Achei que seria importante que os alunos ouvissem sobre esse período ainda obscuro da história do Brasil. Eles ficaram muito impressionados com a figura dela e perceberam que realmente se tratava de uma personagem histórica. Uma aluna chorou, emocionada com a força da Vera. Após a palestra, surgiu a idéia de fazer uma dança em que ela fosse a protagonista, como um presente para ela”, relata a professora Marta Peres, que faz parte do Departamento de Arte Corporal (DAC) do Bacharelado em Dança da EEFD.


Vera Silvia Magalhães entrou para o movimento de luta armada contra a ditadura aos 20 anos, quando cursava a faculdade de Economia na UFRJ. Como integrante do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), foi a única mulher a participar do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, cuja liberdade foi trocada pela de presos políticos. Mais tarde, Vera foi presa e barbaramente torturada pelos militares, até ser solta após o seqüestro de um embaixador alemão. “A Vera é uma personagem emblemática, pois representa as duas grandes lutas da geração que não quis viver como seus pais: as do plano político e do comportamento. Apesar de não ter sido hippie, ela rompeu tabus de sua época, além de ter tido cinco maridos”, afirma Marta.


A professora Marta Peres destaca a importância de que a arte trate de temas como esse e revela detalhes do espetáculo, que tem como título, a princípio, “68 à Vera”. “A vida da Vera será o possível recorte de uma protagonista. O pano de fundo é a história do Brasil recente, aproveitando o conjunto das celebrações de 68. E é importante que através da arte, de algo que também é entretenimento, transmitir uma informação histórica, mas sem cair em uma proposta didática. Não vai ser uma aula de história”, explica Marta. Além disso, os alunos da disciplina “Estágios em Roteirização e Montagem”, que assistiram a palestra de Vera, estão montando um espetáculo próprio também sobre 68. A professora Marta manifesta a intenção de promover um intercâmbio entre os dois espetáculos.


Apesar de ter como pano de fundo um acontecimento histórico, Marta ressalta que o espetáculo levanta questões atuais. “A idéia não é reviver 68, mas refletir sobre esse outro tempo e usar essa percepção pra refletir sobre o tempo agora. A expectativa de um artista é que a obra de arte atinja o público e toque de alguma maneira. Nesse caso, que toque para, quem sabe gerar um estalo, mexer com o individualismo estimulado pela sociedade contemporânea. Todo mundo tem que ser vencedor e chegar lá. E aí, a gente se pergunta: chegar lá aonde e por quê? Então, se uma obra de arte fala um pouco dessas questões do marasmo, do individualismo, do egoísmo, da competição, faz com que as pessoas se questionem e perguntem se é esse mundo que elas querem”, afirma a professora.


Marta reflete que poder realizar esse espetáculo já é uma vitória de Vera e seus companheiros. “Há 40 anos, quando vigia uma ditadura militar, não seria possível encenar um espetáculo como esse. É importante também para conhecermos nossa história, nos tornarmos mais conscientes. Se hoje podemos votar, realizar um ato que muitas vezes consideramos banal de apertar botões em uma urna eletrônica, é porque pessoas morreram e foram torturadas”, ressalta a professora que emenda dizendo que “temos que parar para pensar que certas liberdades que temos hoje foram conquistadas por essas lutas, tanto as políticas quanto as do plano do comportamento. Hoje os namorados dormem na casa um do outro. É importante ter essa noção do processo histórico”.


O elenco do espetáculo será composto não só por alunos da Dança e da Educação Física, mas por alunos de outras faculdades que queiram participar. Além disso, a professora Marta convida colaboradores para, além do elenco de atores-dançarinos, as áreas de figurino, cenário, iluminação, audiovisual e pesquisa histórica, propondo intercâmbios com outras unidades como a EBA (Escola de Belas Artes), a ECO (Escola de Comunicação) e unidades do IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais).


O espetáculo será encenado no segundo semestre, para fazer parte das celebrações de 68 e também por uma questão pessoal: Vera Silvia Magalhães era tia do marido da professora Marta Peres. “Ela sempre foi vista como uma heroína em nossa família. O que seria um presente para ela, é agora uma homenagem póstuma. Agora ela é, realmente, uma figura histórica”. Marta está em busca de patrocínio para conseguir recursos para a realização do espetáculo, bem como a sua encenação em teatros convencionais. Mas, de qualquer forma, Marta pretende apresentá-lo nos campi da UFRJ.

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