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A República de sempre: Lima Barreto e a crônica das ruas

11.08.2009
 
Pages: 123
A República de sempre: Lima Barreto e a crônica das ruas

Adelto Gonçalves (*)

I

Quem está assustado com o nível de sentina a que chegou a politicalha nacional por estes dias não deveria deixar de ler os dois volumes de Toda Crônica (Rio de Janeiro: Agir, 2004), que trazem as colaborações de Lima Barreto (1881-1922) na imprensa do Rio de Janeiro de 1890 a 1922. Vai descobrir que, há um século, o cronista já via a política como “um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes”.

Se fosse hoje, provavelmente, Lima Barreto teria substituído a condescendente maneira como se referiu aos “mais ou menos diplomados”, tal o número de semialfabetizados diplomados nas artes da esperteza e da enganação que pululam nos altos cargos da nação. Pelo menos nesse quesito para alguma coisa serviu a democracia de fancaria em que caímos.

Na crônica em que descreve a política da república de então – publicada em 19/10/1918 na revista A.B.C. –, o escritor, a quem não se pode chamar de monarquista, confessa ter saudade do império, embora tivesse vivido apenas os oito primeiros anos de sua vida de pobre sob aquele regime político. Dizia que pelo menos, na época do imperador, “os homens tinham elevação moral e mesmo, em alguns, havia desinteresse”.

Para quem colocasse em dúvida o que escrevia, talvez imaginando que estivesse idealizando o passado, o cronista garantia que não era mentira que a política ao tempo do império tivera alguma grandeza e beleza. “As fórmulas eram mais ou menos respeitadas”, dizia para, logo em seguida, assegurar que o que movia os políticos daqueles tempos não era a ambição do dinheiro, mas a de glória e de nome. “Tanto assim que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu”, dizia. Quem conhece hoje algum ex-ministro ou ex-deputado que esteja em má situação financeira?

Para Lima Barreto, a república, trazendo à tona dos poderes públicos a borra do Brasil, transformara completamente os nossos costumes administrativos e todos os “arrivistas” se fizeram políticos para enriquecer. “A república do Brasil é o regime da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e para que não haja divergências, há a “verba secreta”, os reservados deste ou daquele ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência”, escrevia.

Se o leitor vê nessas palavras alguma semelhança com os “atos secretos” do Senado brasileiro denunciados nos últimos dias, não há, portanto, do que se espantar se há senadores e altos funcionários públicos que “esquecem” de declarar no formulário do imposto de renda residências suntuosas de milhões de reais e o fisco, ao que se saiba, nada fiscaliza, embora seja implacável com os assalariados que, por sua vez, só pagam porque, nestes tempos de informática, já não há como escapar. Ao menos, para estes coitados.

II

Apesar do que diz o justamente indignado Lima Barreto, esse estado de coisas não é invenção republicana – porque, ao tempo do Brasil colonial, já era “o pobre porque era pobre” que tudo pagava, como se pode ler nas “Cartas Chilenas”, de Critilo, alter ego do ouvidor e poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). E quem conhece a verdadeira história da conjuração mineira de 1789 sabe que quem arquitetou a revolta que não eclodiu foram ex-arrematantes de contratos de entradas que haviam colocado na algibeira a arrecadação dos tributos que faziam em nome da coroa, obviamente, com a conivência (bem remunerada) do capitão-general e outros graúdos do governo da capitania.

Por isso, apesar da advertência de Lima Barreto, há que se dar um pouco de desconto à idealização que ele fazia do império, mero prolongamento do regime colonial. Porque, afinal, a “comilança” de que o cronista se queixava vem de tempos imemoriais. Dizia o cronista: “Comem” os juristas, “comem” os filósofos, “comem” os médicos, “comem” os advogados, “comem” os poetas, “comem” os romancistas, “comem” os engenheiros, “comem” os jornalistas: o Brasil é uma vasta “comilança”.

Era a política da corrupção, quando não a do arrocho, constatava Lima Barreto. “Não se admite mais a independência de pensamento ou de espírito. Quando não se consegue, por dinheiro, abafa-se”, acrescentava, sem deixar de assinalar, em outra crônica, publicada em 24/6/1911 na revista A Estação Teatral, que essa rapinagem não se dava apenas no campo rasteiro da política, mas também nas relações literárias que, como hoje, também passavam pelo compadrio, pelas “panelinhas”, enfim, um regime de débitos e créditos afetivos (às vezes, também pecuniários) de que o acadêmico Coelho Neto (1864-1934) seria o principal representante.

Bem situado na república das letras, o beletrista Coelho Neto, “o último dos helenos”, era tudo o que Lima Barreto odiava. Diretor do Teatro Municipal e conselheiro de editores, fazia da literatura caminho para arranjar empregos rendosos ou lugares na representação nacional para si e para seus amigos. Para piorar, Coelho Neto era ainda o grande promotor do futebol – torcedor do Fluminense e pai dos jogadores Mano e Preguinho –, esporte bretão que o cronista Lima Barreto considerava a degradação da cultura brasileira, além de difusor do racismo, já que, por aqueles tempos, só brancos entravam em campo.

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