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Frye e as raízes da cultura judaico-cristã

11.08.2006
 
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Frye e as raízes da cultura judaico-cristã

Adelto Gonçalves (*)

O canadense Northrop Frye (1913-1991) foi um dos críticos literários mais criativos do século XX e sua obra, enfeixada em quinze livros, ensaios e capítulos em outros seis livros e mais de uma centena de artigos e entrevistas, não pára de ser reeditada em vários países, ao contrário do que ocorre com a maioria dos estudiosos da literatura que, depois da morte, costumam ficar relegados ao limbo.

Flávio Aguiar, professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, entusiasta e divulgador da obra de Frye no Brasil por meio de cursos e palestras desde os anos 80, traduziu há pouco tempo The Great Code (Código dos Códigos: a Bíblia e a Literatura), empreitada difícil em que se saiu muito bem, como era de se esperar. Em 2000, saíra à luz a edição brasileira de Fables of Identity (Fábulas de Identidade), com tradução de Sandra Vasconcelos, publicada pela Nova Alexandria, de São Paulo.

Para se ter uma idéia de como a discussão cultural custa a chegar ao Brasil, basta lembrar que The Great Code é obra de 1981, que já em 1988 obteve tradução em espanhol (El Gran Código), de Elizabeth Casals, publicada pela Gedisa, de Barcelona, enquanto Fables of Identity é trabalho mais antigo, de 1963.

Durante muito tempo, no Brasil, só se conhecia Frye por Anatomy of Criticism (Anatomia da Crítica), de 1957, publicado em 1989 pela Cultrix, de São Paulo, com tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, e por The Critical Path (O Caminho Crítico), de 1971, publicado em 1973, pela Editora Perspectiva, de São Paulo, com tradução de Antônio Arnoni Prado. É de ressaltar que Anatomy of Criticism foi publicado na França em 1969 pela Editora Gallimard e The Great Code, em 1981, pela Editions Seuil.

Frye nasceu em Québec, no Canadá, e foi professor de literatura na Universidade de Toronto, tendo lecionado ainda em Harvard, Princeton, Columbia, Berkeley, Cornell e Oxford. Em 1947, publicou seu primeiro livro (Fearful Symmetry: a study of William Blake), sem tradução no Brasil, revolucionando a crítica sobre o poeta inglês do século XVIII.

Publicou também: T. S. Eliot, em 1963 (Rio de Janeiro, Imago, 2000), Sobre Shakespeare, em 1986 (São Paulo, Edusp, 1999), The Stubborn Structure, em 1970, e Spiritus Mundi: essays on Literature, Mity and Society, em 1976, entre outros. (A lista completa está em http://library.vicu.utoronto.ca/special/F11fonds.htm ).

Em Código dos Códigos, Frye, ao analisar a Bíblia não com um olhar religioso, mas do ponto de vista literário, observa que esse livro sagrado para tantas religiões pertence a uma área da língua em que a metáfora é funcional, o que significa que, ao lê-lo, devemos renunciar à precisão em troca da flexibilidade. Para Frye, assim como os livros históricos do Antigo Testamento não são história, tampouco os Evangelhos são biografias.

“Os autores dos Evangelhos não se preocupam com o tipo de testemunho que interessaria a um biógrafo, como comentários de viajantes desinteressados”, dizia. “Só lhes interessa comparar os fatos contidos em suas narrativas sobre Jesus com o que o Antigo Testamento, tal como eles haviam lido, dizia que haveria de acontecer ao Messias”, diz, lembrando que a Bíblia só confundirá e exasperará o historiador que procurar tratá-la como relato histórico.

Não imagine o leitor que, ao ler Frye, estará diante de um ateu empedernido, disposto a racionalizar metáforas, tarefa de antemão inglória e impossível. O que vai encontrar é a erudição, ou seja, o conhecimento da literatura, ao lado do rigor e da energia de quem trocou a batina do sacerdócio pelo guarda-pó da carreira acadêmica.

E por que quem passaria ao largo das manifestações de fé religiosa teria de ler a Bíblia? Ora, porque, como diz Frye, um estudioso da literatura que não conheça a Bíblia não conseguirá entender o que se passa no mundo. Ao analisar os textos bíblicos sob o prisma literário, deixando de lado a obsessão religiosa, que não busca explicações racionais ou plausíveis, Frye desvenda as raízes da cultura judaico-cristã, estabelecendo relações com mitologias de outros povos. Dessa maneira, abre caminhos para críticos e estudantes de literatura, capacitando-os a apreciar a influência recebida pelos autores estudados.

Já em Fábulas de Identidade, Frye estuda as obras de William Blake, Milton, Lord Byron, Wallace Stevens, Emile Dickinson, Yeats e James Joyce e avança a teoria sobre os arquétipos que já havia desenvolvido em Anatomia da Crítica. Como se sabe, arquétipo é um símbolo que liga um poema a outro e assim ajuda a unificar e integrar a nossa experiência literária. Em outras palavras: é uma imagem que retorna com muita freqüência em literatura, pois faz parte do chamado inconsciente coletivo.

É claro que muitos desses arquétipos bíblicos também são encontrados em lendas e tradições de povos que não conheceram a Bíblia. Seriam, portanto, idéias e imagens que vêm de tempos imemoriais, dos primeiros tempos da Humanidade. E que se repetem na história das civilizações.

É por isso que, como diz Frye, grandes poetas, como o inglês Milton, nada mais fizeram do que furtar a Bíblia tanto quanto possível. E não apenas poetas, mas também grandes romancistas como William Faulkner, autor de muitos romances de inspiração bíblica, a partir de seus títulos.

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