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Saga da imigração japonesa

11.06.2008
 
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Saga da imigração japonesa

Há um século, mais exatamente no dia 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru ancorou em frente ao armazém 14 do Porto de Santos, depois de 52 dias de viagem, trazendo a bordo 781 japoneses que compunham 165 famílias. Eram camponeses, carpinteiros, pequenos comerciantes e donos de fabriquetas à beira da falência que haviam deixado a cidade de Kobe a 28 de abril, dispostos a fugir da miséria em que viviam em seu país, imaginando reconstruir a vida com o trabalho na lavoura.

Adelto Gonçalves (*)

I

Há um século, mais exatamente no dia 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru ancorou em frente ao armazém 14 do Porto de Santos, depois de 52 dias de viagem, trazendo a bordo 781 japoneses que compunham 165 famílias. Eram camponeses, carpinteiros, pequenos comerciantes e donos de fabriquetas à beira da falência que haviam deixado a cidade de Kobe a 28 de abril, dispostos a fugir da miséria em que viviam em seu país, imaginando reconstruir a vida com o trabalho na lavoura.

Para marcar esses cem anos de intercâmbio -- que nem sempre foi mantido dentro dos limites do respeito aos direitos humanos, tanto lá como cá --, as autoridades dos dois países programaram uma série de festividades que inclui a visita ao Brasil do príncipe Nahurito, da família real japonesa, a São Paulo e Santos.

Dentro desse espírito de confraternização, acaba de sair o livro Sôbô -- Uma Saga da Imigração Japonesa, de Tatsuzô Ishikawa (1905-1985), que conta uma parte significativa dessa história de um século que, nos últimos anos, teve a sua contrapartida com a aventura dos dekasseguis no Japão: hoje, cerca de 30 mil brasileiros descendentes de japoneses, para fugir de uma situação difícil, optaram por trabalhar no Japão em serviços que, normalmente, os japoneses já não querem fazer.

Vivendo em alojamentos e em condições precárias, muitos conseguiram amealhar um pé-de-meia e voltar para o Brasil, onde procuraram abrir um negócio, mas outros retornaram também com muitas queixas do tratamento que receberam. Até porque, apesar do aspecto físico igual, sempre foram considerados estrangeiros.

II

A história de Ishikawa começa em 1930, quando, aos 24 anos, recebeu o convite de um amigo para inscrever-se no programa de imigração para o Brasil. Fez um acordo com a revista para a qual trabalhava, comprometendo-se a enviar artigos sobre sua viagem em companhia de uma leva de imigrantes que deixariam Kobe a bordo do navio La Plata Maru.

Ao chegar à hospedaria de imigrantes, em Kobe, Ishikawa depara-se com a miséria de seu povo -- trabalhadores que haviam deixado para trás seus lares, embalados pelo sonho do trabalho e melhores condições de vida além-mar. Abalado com o espetáculo triste que vê, toma a decisão de escrever um romance a partir de sua experiência como imigrante.

Mas não teve forças para colocar de imediato no papel o que via. E adiou a decisão por mais alguns anos. Permaneceu no Brasil, trabalhando seis meses numa fazenda no interior do Estado de São Paulo, até que decidiu retornar ao Japão e à atividade literária. E, finalmente, escreveu Sôbô -- Uma Saga da Imigração Japonesa, que, em 1935, ganhou o Prêmio Akutagawa de Literatura Japonesa, de grande renome no Japão.

O título, de difícil tradução, traz dois ideogramas: remete a sôsei, “povo”, mas também pode significar “cor de capim”, “apressar-se” ou “envelhecer”, acepções que podem estar relacionadas à imagem de um povo desprezado. Já comporta os significados “imigrante” e “povo subjugado ou massacrado”.

III

A verdade é que poucos escritores japoneses conseguiram reproduzir com tanta fidelidade o drama das classes baixas japonesas, especialmente os trabalhadores rurais. Foi nesse contexto que Ishikawa derrubou convenções literárias, já que até então os demais escritores preocupavam-se apenas em exaltar a família real, a tradição cultural do antigo Japão e, depois, a classe média urbana e seu acendrado individualismo.

Sob a forma de diário, Ishikawa narra a trajetória de imigrantes -- dependentes de uma magra ajuda de custo do governo japonês e sujeitos à safadeza de agenciadores, pois sempre há quem queira lucrar com a desgraça alheia. O relato detalhado da viagem coloca a nu a miséria, a corrupção e a discriminação por detrás dos procedimentos sanitaristas e dos interesses mercantis da época. E cresce à medida que os dramas existenciais dos personagens ganham corpo, ao serem obrigados a conviver com outras famílias ou mesmo passageiros da primeira classe do navio ou até mesmo com os costumes ocidentais.

São muitos os dramas, desde as doenças que infestam os porões do navio -- doenças de pele, beribéri, sarna, piolhos -- até a melancolia e a resignação que aumentam com o tédio que têm de suportar por quase dois meses. Eis um trecho do relato de Ishikawa:

“Agora, no espírito dos imigrantes, as fendas começavam a se abrir. Elas eram raras em idosos e casais: era um tipo de solidão que assolava os solteiros. Continuamente começavam a surgir problemas de comportamento moral”.

Em outros momentos, a ignorância cedia lugar a um sopro de consciência social:

“Se ainda estivesse em sua terra natal, continuaria sendo um trabalhador rural honesto e virtuoso, que não tinha consciência de nada”.

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