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Petrarca em Minas Gerais

11.06.2007
 
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III

A uma época em que tudo na América estava por fazer, não se podia esperar que esses capitães-generais pudessem ter muitas veleidades literárias, ainda que D.Rodrigo José de Meneses, filho do famoso marquês de Marialva, à época em que dirigiu a capitania de Minas Gerais no começo da década de 1780, tenha sido uma exceção, pois, apreciador das belas letras, foi incensado por poetas do calibre de Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto exatamente porque permitia que esses homens de cultura freqüentassem o palácio do governo para sessões lítero-musicais.

Em seu excepcional ensaio, Nepomuceno dedica a maior parte do espaço ao poeta Cláudio Manuel da Costa, introdutor do Neoclassicismo no Brasil e uma espécie de corifeu do movimento arcádico. Embora não se saiba que tenha freqüentado a corte ao tempo em que estudou em Coimbra, Cláudio, ao retornar ao Brasil, sentiu-se sempre um exilado em sua própria terra, suspirando pelas musas do Mondego.

Nunca pôde ser um poeta de corte, mas sempre escreveu com os olhos voltado à ética do refinamento cortesão. Só que, como observa Nepomuceno, sua poesia amorosa cortês vem muito mais de suas leituras eruditas do que de sua experiência de vida. É ele o poeta tímido, inconformado com o meio inculto e selvagem em que vivia, a que se refere o título do ensaio.

De fato, o sentimento de deslocamento no espaço social teve início com Cláudio, mas se fez presente nos demais poetas do período árcade. Mais tarde, no século XIX, esse comportamento seria interpretado por críticos românticos e exacerbados pelo nacionalismo como falta de amor à terra brasileira.

Nepomuceno mostra, porém, que no século XVIII a sensação de estrangeirismo reflete apenas uma condição cultural da colônia “e o desejo de sistematização de modelos de civilização, cujo parâmetro era a ilustração pombalina, no campo da cultura e das relações sociais, e o petrarquismo neoclássico, no campo da estética”. Exigir daqueles homens que tivessem tido comportamento diferente seria cair no movediço terreno do anacronismo.

IV

Luís André Nepomuceno, nascido em 1968, é doutor em Teoria Literária pela Unicamp e professor de Teoria da literatura e Literaturas de Línguas Inglesa no Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam). Ficcionsta, é autor também de A lanterna mágica de Jeremias (Rio de Janeiro, Sete Letras, 2005) e Antipalavra (Rio de Janeiro, Sete Letras, 2004). Já conquistou os prêmios Guimarães Rosa, da Radio France Internationale, e Luiz Vilela, da Fundação Cultural de Ituiutaba-MG.

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A MUSA DESNUDA E O POETA TÍMIDO: O PETRARQUISMO NA ARCÁDIA BRASILEIRA, de Luís André Nepomuceno. São Paulo: Annablume. Patos de Minas-MG: Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam), 307 p., 2002. www.annablume.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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