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Um jantar indigesto em Berlim

11.02.2017
 
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Um jantar indigesto em Berlim

O filme O Jantar (The Dinner) com Richard Gere e Laura Linney nos papéis principais, embora servido num restaurante de alta classe com o maitre apresentando cada prato, desde a entrada ao digestivo, acaba sendo indigesto aos convivas.

Logo depois de servida a entrada e enchidos os copos com bom vinho, dois irmãos com suas esposas vão colocando sobre a mesa um recente problema criado por seus filhos, dois adolescentes.

A exemplo do ocorrido já algumas vezes em Brasília e em Porto Alegre, talvez também em outras cidades brasileiras, os dois garotos da alta classe norte-americana, o pai de um deles é político e deve se apresentar como candidato a governador, atearam fogo e provocaram a morte de uma indigente sem casa, maltrapilha, que enrolada num cobertor tentava dormir numa cabine destinada a um aparelho para retirada de dinheiro. 

O gesto deliberado provocava gargalhadas nos adolescentes, que aproveitaram para filmar com o celular a luta da mulher contra as chamas. 

Enquanto o jantar avançava a mãe de um dos rapazes defendia seu filho, colocando a culpa na mulher sem teto por ter assustado os garotões. A outra mulher era a segunda esposa do futuro candidato a governador (Richard Gere), mas embora não fosse a mãe, defendia o rapaz com ardor. Ela era também a madrasta de uma menina e de um filho adotivo negro também adolescente, deixados pela primeira esposa que abandonara a família para fazer meditação na Índia. 

Bem antes da sobremesa, sabe-se que o filho adotivo, que não participara do crime, conseguira colocar na Internet a vídeo do irmão e primo criminosos, tendo rejeitado uma oferta em dinheiro feita pelo primo, para ficar quieto.

Enfim, depois do digestivo, o irmão do candidato a governador, que é psicótico, tenta quebrar a cabeça do sobrinho adotivo negro, que tinha colocado a vídeo do crime na Internet. E a esposa do candidato a governador ameaça seu marido de divórcio, se ele denunciar os culpados, como pretende, numa entrevista com a imprensa. 

Na entrevista coletiva tanto o diretor Oren Moverman como o ator Richard Gere, conhecido por posições claras em defesa dos direitos humanos e que esteve ontem com a chanceler alemã Angela Merkel, afirmaram que o egoismo ou a defesa dos próprios interesses são paralelos com a ideologia pregada pelo novo presidente americano Donald Trump. 

Richard Gere foi mais longe, pois ressaltou ter havido nos EUA um aumento de atos violentos e agressões racistas desde a campanha eleitoral de Trump. Os dirigentes que provocam o medo nas pessoas são responsáveis por incitar crimes terríveis.

O Jantar é o único filme americano na competição internacional do Festival de Berlim.

Rui Martins está em Berlim convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

 


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