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Em favor do Nobel para Lêdo Ivo

10.11.2009
 
Pages: 123
Em favor do Nobel para Lêdo Ivo

Adelto Gonçalves (*)

I

Fosse Lêdo Ivo poeta da língua inglesa ou francesa ou mesmo castelhana, já teria sido galardoado ou ao menos indicado para o Prêmio Nobel de Literatura. Como, porém, faz poesia num país periférico e de pouca representatividade econômica e cultural, e vale-se de um idioma que, embora falado por mais de 200 milhões, ainda é visto pelo resto do mundo como um código secreto, essa é uma hipótese pouco viável, até mesmo porque as próprias instituições acadêmicas do País, que deveriam propor o seu nome, não se animam a fazê-lo.

E não deveria ser assim – pois, afinal, se países igualmente periféricos e até menos representativos do ponto de vista econômico, como Chile e México, já tiveram poetas reconhecidos com o Nobel, o Brasil não deveria ser tão menosprezado pelos eruditos da Academia Sueca. A diferença é que Gabriela Mistral (1889-1957), Nobel de 1945, e Octavio Paz (1914-1998), Nobel de 1990, fizeram poesia na língua de Cervantes (1547-1616). Por esse mesmo raciocínio, é de imaginar que se o galego Camilo José Cela (1916-2002), Nobel de 1989, não tivesse desprezado tanto a cultura de sua terra-mãe, a Galiza, e não tivesse escrito suas obras em castelhano, provavelmente, nunca teria sido lembrado pela Academia Sueca.

Portanto, concluiria o desavisado leitor, o preterimento só se explica pela pouca representatividade desta língua que Olavo Bilac (1865-1918) chamou de “última flor do Lácio, inculta e bela”. Mas não é assim porque a ideia perdeu força em 1998, quando o primeiro Prêmio Nobel de Literatura saiu para a língua portuguesa, na pessoa do romancista José Saramago. Se Portugal, praticamente, organizou uma força-tarefa para garantir a premiação a Saramago – e o fez muito bem – e, com justa razão, ainda luta para que António Lobo Antunes também seja reconhecido, não há motivo para que o Brasil não apresente um bom candidato, ainda que, em outros tempos, quando Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Jorge Amado (1912-2001) eram vivos, houvesse maiores possibilidades de êxito.

Até porque, se uma língua é representativa na medida em que aqueles que a falam desfrutam de riqueza material, o Brasil já começa a se aproximar desse patamar, pois, segundo previsões das autoridades financeiras mundiais, em 2016, o País deverá passar a quinta maior economia do planeta. E, por esse ponto de vista materialista, a língua de Camões (c.1524-1580) já começa a ganhar também representatividade.

II

Hoje, a candidatura brasileira resume-se a dois ou três nomes. E um deles, com certeza, é o do poeta Lêdo Ivo, que, em quase sete décadas de trabalho produtivo, oferece uma obra de respeito, como poderá comprovar quem vier a ler sua extensa Obra Completa (1940-2004), de 1099 páginas, publicada em 2004 pela editora Topbooks, do Rio de Janeiro, com estudo introdutório do poeta Ivan Junqueira. É de notar que, se Junqueira foi o último grande poeta-ensaísta, daqueles da estirpe de T.S.Eliot (1888-1965), a se ocupar da análise da obra de Lêdo Ivo, outros ensaístas de envergadura já o haviam feito, como Antonio Candido, Álvaro Lins (1912-1970), Jorge de Lima (1893-1953), Murilo Mendes (1901-1975), Wilson Martins, Fausto Cunha (1923-2004), Gilberto Mendonça Teles e, mais recentemente, Assis Brasil, autor de A trajetória poética de Lêdo Ivo: transgressão e modernidade, publicado pela Editora Universitária Candido Mendes (Educam), do Rio de Janeiro, em 2007, que constitui, ao mesmo tempo, um ensaio crítico e uma biografia.

Diz Junqueira que Lêdo Ivo chegou inteiro aos 80 anos de idade e inteira também chegou a sua poesia. “E há em sua poesia o testemunho literário de mais de meio século de experiência e de constante renovação estética e estilística”, constata, lembrando que “sua poesia, embora severa do ponto de vista do uso da língua, é polifônica e tem algo da composição heteróclita daqueles retábulos medievais, abrangendo o cultivo de todos os metros e de todas as formas”.

É Lêdo Ivo autor, entre tantas obras, de Finisterra (1972), talvez o mais importante livro de poesia que um brasileiro escreveu no século XX, como afiança Junqueira, destacando que essa reunião de poemas marca o regresso definitivo do poeta as suas origens, o seu retorno à infância mitificada na cidade de Maceió, capital do Estado de Alagoas, como se pode constatar nestes versos:

Minha pátria é a água negra

-- a doce água cheia de miasmas –

dos estaleiros apodrecidos.

(...) Vindo das ilhas inacabadas,

nunca aprendo a separar

o que é da terra e o que é da água.

III

Já Assis Brasil prefere destacar a trajetória de Lêdo Ivo como franco-atirador na poesia brasileira, mostrando como seu fazer poético nunca esteve atrelado ao Modernismo da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, ao contrário do que muitos críticos e professores, principalmente aqueles ligados à Universidade de São Paulo (USP), procuraram defender, em sua ânsia de sistematizar tendências e influências. Assis Brasil lembra que Lêdo Ivo, embora alagoano de nascimento, estudou no Colégio Carneiro Leão, no Recife, cidade em que começou o seu aprendizado poético não só com João Cabral de Melo Neto (1920-1999), mas com Willy Lewin (1908-1971) que, de uma geração anterior e dono de uma vasta biblioteca, funcionava como uma espécie de corifeu para os mais jovens que oprocuravam.

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