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O Lobo do Homem

10.09.2016
 
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Uma das afirmações clássicas do marxismo é de que os valores da superestrutura são condicionados pela infraestrutura.

Trocando em miúdos:  para Karl Marx, as instituições, inclusive o Estado, a cultura e os valores éticos e morais da sociedade, (superestrutura), são condicionados pela maneira como essa sociedade estabelece suas relações de produção (infraestrutura), embora, dialeticamente estas últimas também influenciem as primeiras.

Assim, historicamente, o feudalismo tinha determinados valores que permeavam a sociedade da época, que foram modificados, na medida que ele foi substituído pela sociedade capitalista.

Essa mudança não se faz abruptamente e por isso é possível identificar nos dias de hoje certos comportamentos e atitudes morais que correspondem a um tipo de sociedade já ultrapassada historicamente.

Na sociedade capitalista brasileira, com suas brutais diferenças de classes, ainda é possível identificar determinados tipos de comportamento que correspondem ao período escravista, quando os seres humanos eram divididos de uma maneira objetiva pela cor da pele.

Mas, de um modo geral, o que se observa na sociedade brasileira é que essa divisão se faz seguindo o modelo clássico do capitalismo, entre os que são os donos dos mecanismos de produção e os que vendem sua força de trabalho nesse processo.

Ou seja, é a reprodução clássica do ensinamento marxista, embora nos dias atuais tenha se criado um enorme segmento de público que não se enquadra claramente entre as duas posições e que não foi percebido com clareza por Marx na sua época.

São os profissionais liberais e uma enorme gama de pessoas que, de alguma maneira prestam serviços ao Estado, guardião do status quod dominante, exercendo as mais variadas funções, desde o poder armado que o defende, até aqueles que executam as mais humildes atividades, mesmo assim imprescindíveis a sua existência.

São pessoas que, na divisão clássica marxista, vivem da venda da sua força de trabalho, ainda que seja um trabalho intelectual e que deveriam, ideologicamente, se colocar do lado dos oprimidos, mas que, em troca dos muitos benefícios que recebem ou da expectativa de recebê-los, se colocam ideologicamente do lado dos opressores.

O interessante na observação desse processo, é constatarmos que o sistema capitalista não só é perverso na sua essência, como é capaz de introjetar seus valores na mente das pessoas, fazendo com que elas olhem para seus semelhantes de forma preconceituosa, mesmo dos que sejam socialmente seus iguais.

Em qualquer lugar que frequentamos, nas discussões políticas ou nos meios de comunicação, podemos constatar a forma diferenciada de tratamentos usados para pessoas que pertençam a segmentos sociais diferentes.

Uns são tratados como doutores, embora nem todos tenham formalmente esse título, enquanto a outros são reservados os adjetivos menos qualificadores.

Basta um simples passar de olhos nesses programas policiais tão comuns na televisão. Eles refletem bem o que pensam os servidores das classes dominantes no Brasil sobre os excluídos socialmente, quando acusados de algum crime. São bandidos, marginais, facínoras, ou outros qualificativos, sempre esquecidos, quando se trata de um representante da classe privilegiada que, por acaso, não apareça como vítima, mas como agente de um crime.

Além dessa constatação óbvia de um tratamento específico para cada segmento de classe social, existe outro, não tão explicito, mas que permeia as relações sociais no Brasil.

É o desprezo pelo pobre e sua cultura, que nos deparamos a todo momento nas manifestações públicas, daqueles que fazem o papel de porta vozes da classe dominante.

Talvez seja nessa área em que podemos identificar com mais clareza como funciona a divisão de classes na sociedade capitalista.

O que deveria identificar o ser humano seria a sua solidariedade com o próximo.

Em todas os compêndios de ética e moral, essa qualidade se destaca como a principal e por isso foi incorporada à maioria das religiões.

Ela foi fundamental para a preservação da espécie humana e se hoje perdeu esse significado maior, conserva o seu valor como um atestado de que quem a porta, está preparado para viver em sociedade.

O capitalismo prega o oposto disso. Ele vê em que cada pessoa um concorrente, alguém a quem é preciso derrotar, um competidor que almeja aquilo que é de minha propriedade.

Esse novo valor (ou desvalor) ético é apresentado pelos instrumentos ideológicos que o sistema dispõe (meios de comunicação, igrejas, escolas) como a forma de uma grande conquista individual, como uma maneira de se sobressair de todo o grupo.

Em vez da solidariedade, o empreendedorismo.

Com isso, a conquista do poder se transforma numa meta a ser alcançada, não apenas por aqueles que dispõe de condições para tal, mas também para outros, sem essa possibilidade, quando se torna uma miragem, uma forma de alienação social.

Jean Jacques Rousseau (1712/1778) via o homem com um ser bom e solidário no seu estado natural e que teria sido pervertido pela sociedade e defendia a ideia de que só garantindo a liberdade de todos é que as liberdades individuais seriam também preservadas.

Já Thomas Hobbes (1588/1679), cunhou a expressão o Homem é o lobo do Homem, acreditando que o fato dos homens serem perfeitamente iguais e desejarem as mesmas coisas e terem o mesmo instinto de autopreservação, fazia com que desejassem as mesmas coisas. Isso seria a razão para as guerras, que só seriam superadas pela existência de um contrato entre esses homens que renunciaram suas liberdades em troca da paz

Essa diferença entre os dois filósofos sobre a condição natural do ser humano, não nos impede de ver que na sociedade capitalista, o "bom selvagem" de Rousseau se perde nos seus primeiros anos de vida e o que ressurge é o "homem lobo do homem" de Hobbes, não lutando mais pela sua simples sobrevivência, mas pelo poder sobre os outros homens.

É o capitalismo, onde o contrato social que Hobbes defendia, é apenas formal e serve apenas para mascarar a exploração da maioria dos seres humanos por uma minoria privilegiada materialmente

 Marino Boeira é jornalista, formada em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 


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