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Projeto Fábula no Atacama ( I )

10.09.2007
 
Pages: 12
Projeto Fábula no Atacama ( I )

Fernando Soares Campos

Sempre que posso, retomo o Projeto Fábula no Atacama (PFA), diálogo entre um urubu faminto e um preá agonizante, através do qual pretendo formular o mais lógico preceito moral capaz de orientar as relações comportamentais do ser humano com a sua própria natureza animal — a síntese do procedimento a ser adotado quando o ser humano for submetido a uma prova de resistência psicobiológica, estando imbuído dos princípios inatos da consciência, ou de generalizações da observação empírica, a lhe instigar: "Farinha pouca, meu pirão primeiro".


É realmente um projeto ambicioso, uma megaprodução que o meu editor ainda não está convencido do retorno financeiro.


A fim de viabilizar o projeto, venho tentando obter algum patrocínio. Enviei proposta aos departamentos de marketing e comunicação de diversas empresas. Um amigo meu demonstrou interesse em apoiar tão relevante empreendimento cultural. Porém, depois de realizar uma enquete entre a sua clientela, desistiu de bancar o transporte e alimentação do urubu até o local da produção, o Deserto do Atacama. Concluiu que poderia comprometer a imagem do seu restaurante.


Liguei para o meu amigo Urariano Mota:


— Urariano, me dá uma dica. O que é que eu faço pra convencer meu editor de que o retorno financeiro do PFA é lucro líquido e certo?


— Mas... mas quem é você? Eu te conheço mas não estou me lembrando. (1)


— Fernando, amigo! Fernando Soares. Estou tentando convencer o meu editor a investir numa produção internacional, uma fábula ambientada no Deserto do Atacama, diálogo entre um urubu faminto e... Bom, leia, na PRAVDA, "Pouca carniça pra muito bico", aí você vai entender o meu dilema. Muitos leitores já manifestaram opinião a respeito dessa obra em andamento, acontece que o meu editor está relutante...


— Se o comum da gente soubesse o gozo imenso que vem da arte, se a gente comum vivesse o prazer grande que é viver na arte, se a gente de todos nós despertasse para a libertação que vem da arte, se, quando e se e então pudéssemos renascer, viver mais uma vez com a consciência da vida anterior, ah, então saberíamos todos exaltar e ver e ser a felicidade que vem do artista. (2)


— Obrigado, amigo, mas preciso mesmo é fazer o Conselho Editorial entender tudo isso aí. Apresentei o meu projeto e, até agora, só argumentam sobre os altos custos da produção...


— Ou seja, discutiram-no à maneira dos ignorantes que pela vez primeira vêem uma obra de arte. Pelos traços e características exteriores. E em se tratando de um romance, pelo enredo, número de páginas, preço, e releases da editora. Mas estas características, reconheçamos, estão longe da razão de ser da literatura. (3)


— Isso!
— Filhos da puta! (4) Você já tentou andar plantando bananeira? (5)


— Você acha que isso vai despertar o interesse de algum empresário circense?
— É da natureza humana, tão bem imitada pelos bons atores, que o sentimento, a emoção, a fala, o crescendo, tem um processo. (6)


— Valeu! Vou tentar — despedimo-nos.


Voltei à revisão do roteiro de "O Urubu e o Preá" (título provisório).

001 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — ext./dia

(Vou suprimir o "ext.", afinal, todas as cenas serão externas.)
001 — Vale da Morte — Deserto do Atacama — dia

Um grupo de animais turistas brasileiros visita o Norte do Chile. Enquanto passeiam por entre os borrifantes gêiseres atacamenhos, um preá distancia-se do grupo e se perde numa trilha que o leva aos confins do Vale da Morte.
Legenda: Três dias depois...


O preá, agora agonizante, avista um oásis, tipo os do Saara, com palmeiras, tendas coloridas, camelos pastando verdoengas gramíneas, mulheres pegando água num poço, homens polindo suas espadas, tapetes decolando e aterrissando no tapeteporto e gênios atendendo os pedidos dos seus amos, servindo-lhes deliciosas esfihas e gostosas odaliscas...


Preá Agonizante: — Allah seja louvado! Estou salvo! — balbucia com extrema dificuldade.


Efeitos especiais: a imagem do paradisíaco oásis ondula, ondula e desaparece. Era uma miragem. Novamente a mais inóspita região do Planeta se revela aos olhos do roedor moribundo. Banhado de suor, o preá lambe seu próprio corpo, numa desesperada esperança de saciar a sede. Arrasta-se penosamente por mais uns dez metros e abriga-se num cantinho sombreado por uma depressão do terreno.
Close: os olhinhos de rato do preá se mexem em círculo, ele tenta fazer o reconhecimento da área a fim de assenhorear-se da dolorosa situação.


Contra-regra: Ploft!


Uma gosma marrom atinge a cabeça do preá e escorre pelo seu rosto até as bordas dos seus minúsculos beiços. Impulsionado pelo instinto de sobrevivência, o pequeno mamífero agonizante suga a visguenta substância.


Contra-regra: Shupt!, seguido de Arrrgh!! e Kusp!
Preá Agonizante: — Eca!
O autor olha para o límpido céu azul anil atacamenho e avista um objeto planando, espiralando numa remoinhadora corrente de ar.


Autor: — É uma sacola plástica vazia! (zoom) Não! É uma pipa! (mais zoom) Não! É um superbombardeiro B-2 Spirit fora da rota iraquiana! (zoom total) Nãããooo! É o urubu faminto! Finalmente vou escrever minha fábula!

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