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A memória da resistência da Favela Olímpica

10.08.2017
 
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A memória da resistência da Favela Olímpica
Um morador da Vila Autódromo comenta: "quando vimos o presidente Lula conseguir as Olimpíadas para o Rio de Janeiro, não pensávamos que teríamos de deixar nossas casas". Favela Olímpica, do realizador suíço Samuel Chalard, é o filme testemunha da destruição da Vila Autódromo não tanto por impedir a construção das estruturas olímpicas, mas por uma questão de estética - não ficaria bem para o Brasil ter ao lado das Olimpíadas um bairro de pobres, rapidamente considerado favela.

Favela Olímpica, incluído na mostra Semana da Crítica, é um documentário cru de como o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, decidiu "limpar" a área em torno das Olimpíadas para os estrangeiros não terem uma má impressão da Cidade Maravilhosa, hoje considerada até pelo Le Monde como Cidade Perigosa.

O filme documentário começa com uma mentira deslavada que, na época da apresentação dos projetos, foi destaque nos jornais e televisão, pois consistia na "conversa furada" de um escritório de engenharia de que uma das instalações era desmontável e, logo depois das Olimpíadas, se transformaria em quatro escolas, dotadas de todos os apetrechos modernos. 

Ao meu lado, estava sentado um jornalista suíço que parecia ter engolido as convincentes explicações de dois engenheiros autores do projeto. Antes que meu colega se entusiasmasse, cochichei para ele - "isso é pura conversa mole, não acredite!". Eu estava vendo o filme pela primeira vez, mas sentia muito bem se tratar de pura enrolação. 

E tinha razão, porque ao fim do filme e das Olimpíadas, os mesmos engenheiros, procurados por Samuel Chalard, explicavam não ter sido possível fazer as escolas porque haveria um custo elevado para desmontar e remontar. Isso era evidente desde o início, mas será que nenhum colega da imprensa pensou em desmistificar o embuste? Será que o Brasil, além de ser o país da corrupção endêmica é também opaís da mentira crônica?

"Aqui somos todos trabalhadores, não há violência e nem insegurança, as famílias se conhecem, existe ajuda mútua, solidariedade, vivemos aqui há muitos anos, não queremos sair", diziam alguns moradores entrevistados quando ainda não tinham aparecido as máquinas demolidoras. 

O prefeito Eduardo Paes tinha conseguido dividir os moradores para conseguir limpar aquela zona residencial pobre não adequada à arquitetura próxima das Olimpíadas: quem quisesse aceitar sair poderia negociar um preço alto por sua casa e terreno. Mas havia ao mesmo tempo uma publicidade enganadora - "só sai quem quiser". 

Entretanto, não era bem assim. Uma parte das residências indesejáveis, indignas de serem mostradas aos turistas das Olimpíadas, estavam no caminho das obras e das próprias instalões olímpicas. E, à medida que as obras avançavam, como houvesse moradores recalcitrantes não querendo sair, o prefeito assinou um decreto desapropriando essas áreas, na força se fôsse preciso. Foi preciso e o filme mostra o despejo desses moradores, na base da violência. 

O filme tem um valor inestimável - de documento ao mostrar como era antes a Vila Autódromo e de memória por registrar a mobilização dos moradores, dos recursos às instâncias judiciárias e dos pedidos à presidente Dilma, tão entusiasmada com seu projeto de casas populares patronizadas. "Os moradores não recorreram à presidente?" pergunto ao realizador do filme. "Sim, mas ela não respondeu". Em sínteses, como decidiu a Justiça, a Vila Autódromo não ia ficar ali enfeiando as Olimpíadas. 

Favela Olímpica é um filme que durou anos, pois Samuel Chalard foi ao Brasil, logo depois da escolha do Rio de Janeiro para as Olimpíadas, para acompanhar como seria a atitude das autoridades cariocas com relação aos moradores nas cercanias das Olimpíadas. 

Todos os moradores, exceto um que ganhou na Justiça o direito de continuar ali morando, foram obrigados a fazer um acordo, para não acabarem vivendo na rua. Muitos foram para apartamentos, sem suas árvores e sem seus jardins. Outros ganharam casas brancas todas iguais com um pequeno jardim ao fundo. Melhoraram de vida nessas casas uniformes, iguais como às que se veem nos conjuntos residenciais construídos pelos brancos para os negros na África do Sul, na época do apartheid? 

As classes superiores sabem precisar do batalhão de servidores próximos de suas residências, mas querem pobreza asseptizada e não o conjunto caótico de casas construídas pelos próprios moradores. Ou, então, que vão morar longe dos olhos sensíveis.

Favela Olímpica é um documentário construído em quase dez anos de filmagens, um micro retrato de um país que parecia melhorar. O filme não mostra e nem fala dos sobrefaturamentos nas obras e de como a região já havia sido entregue a um grupo imobiliário, antes mesmo de começarem as obras das Olímpíadas. Ali, varrida a Vila Autódroma, seriam construídos prédios  de apartamentos de luxo. 

Favela Olímpica será exibida na Mostra de Cinema de São Paulo, me garantiu seu diretor Samuel Chalard. 

Rui Martins está em Locarno, convidado pelo Festival Internacional de Cinema

 


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