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A última bandeira

10.05.2008
 
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A última bandeira

Foram necessários sete anos de guerra, uma coligação de 52 Estados e 56 milhões de mortos para que o mundo capitalista conseguisse derrotar militarmente a Alemanha Nacional Socialista e a Itália fascista, que haviam alcançado a façanha do anti-capitalismo, tanto o privado como o de Estado.

Foram necessários 44 anos para as potências capitalistas conseguirem subjugar a União Soviética, mediante uma guerra planetária que provocou milhões de mortos, embora alguns se obstinem ironicamente em qualificá-la de “fria”, pondo fim à trajetória do comunismo, eliminando para sempre um segundo inimigo igualmente temível e tão implacável como o primeiro.

Fascismo, Nacional Socialismo, Comunismo, subjugados e derrotados pelo poder das armas, do dinheiro e da cínica ausência de princípios de um capitalismo que cimentou as suas vitórias mediante guerras convencionais, guerras não ortodoxas, guerras de baixa intensidade, terrorismo, repressões, massacres, bloqueios econômicos e infâmias de todo o tipo.

Por fim, o capitalismo venceu? Não, mesmo assim não.

Existe ainda um inimigo a abater, também sob o preço da guerra, dos mortos e da infâmia. Um inimigo mais perigoso que os dois primeiros porque não é portador de uma ideologia política e sim de uma fé religiosa que regula a vida de um bilhão e duzentos milhões de pessoas: o Islã.

Subjugado o sonho fascista da igualdade e da dignidade idêntica entre o capital e o trabalho, pulverizado o sonho da “ditadura do proletariado”, permanece íntegra a concepção islâmica que proíbe a usura, os juros, a possibilidade de fazer dinheiro apenas com outro dinheiro, contrapondo-se globalmente ao capitalismo que é precisamente da especulação, da usura e dos juros que extrai a sua força e vitalidade.

Existe atualmente um mundo povoado por um bilhão e duzentos milhões de pessoas que vivem, ou podem potencialmente viver, à margem das regras do capitalismo e com ele. Um mundo em expansão, que emerge dos seus confins invadindo pacificamente o mundo ocidental com os seus emigrantes que, num número cada vez maior, se estabelecem nas nossas terras trazendo consigo uma fé religiosa que leva inscrita no seu livro sagrado a semente da futura revolta contra o mundo capitalista.

A lei islâmica tem um nome, um nome que a propaganda capitalista trata de fazer parecer sinistro, porque evoca a repressão das mulheres, mutilações, flagelações e decapitações, mas que na realidade só pretende respeitar as normas ditadas por Deus ao profeta Maomé e, sobretudo, afirma o principio da justiça social e proíbe a exploração do homem pelo homem. Ou seja, afirma exatamente o oposto do capitalismo, que se fundamenta na injustiça social, na prevaricação e na exploração do homem pelo homem.

A usura é um pecado contra Deus e não só um delito contra os homens. “Aqueles que vivem da usura ressuscitarão como se tivessem sido tocados por Satanás. E isto porque afirma que “O comércio é igual à usura”, mas Alá permite o comércio e condena a usura.”

Assim reza o Alcorão, assim ordena a Sharia, “Oh vós que crês, temei Alá e renunciai aos benefícios da usura se sois crentes”.

É uma concepção ética que se levanta como uma barreira insuperável para os usurários de qualquer timbre, sejam eles homens ou Estados, que se inspirem no principio oposto, o que vê na usura, no lucro e nos juros o motor do seu próprio poder.

Não só os homens, mas também os Estados, sucumbem sob o peso dos juros que os empréstimos internacionais impõem, afogando a economia ou mantendo-a submissa às grandes potências e aos organismos mundiais que estas controlam.

A luta contra a usura, a batalha contra o capitalismo, tem hoje a sua bandeira, a bandeira verde do Islã que se destaca no céu da História para representar e defender os homens e os povos que sucumbem com o peso do capitalismo triunfante. Para participar nesta batalha não é necessário ser muçulmano nem converter-se ao Islã, porque o princípio da negação da usura é universal e devia ser universalmente defendido, além de qualquer religião, raça ou nacionalidade.

Para aqueles que temem a afirmação da supremacia moral e ética da religião islâmica, do Alcorão sobre o Evangelho, é obrigatório que se voltem para as hierarquias eclesiásticas para exigirem que sejam elas que se unam à rejeição e à condenação da usura, considerando-a elas também, pela primeira vez na sua bi-milenar história, como um pecado contra Deus, reconhecendo o erro de não o terem feito antes.

Um reconhecimento prático, concreto, como o de começar a realizar empréstimos sem juros a quem tenha necessidade de os fazer, permitindo a sua devolução justa, mediante o seu próprio trabalho. Não é um principio de caridade cristã, é a afirmação de um principio de justiça social que poderia acabar com o sofrimento de milhões de homens que não têm a sorte de viver sob o Islã, mas a desventura de viver num mundo que prega o Evangelho mas que se esquece de o aplicar.

Sejam, pois, os bancos sob o controle do Vaticano, nos quais o Vaticano é acionista, os que renunciem aos juros sobre os empréstimo feitos aos cidadãos, e seja o governo italiano, que tanta inspiração extrai do Vaticano, o primeiro a realizar empréstimos a países pobres sem impor nenhum juro.

Em caso contrário, é necessário admitir que existe um choque de civilizações que enfrenta a cristã, fundada sob o juro, a usura e o dinheiro, contra a islâmica que defende a superioridade de uma fé que deseja assegurar para os seus crentes a justiça social da qual todos, homens e povos, necessitam.

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