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Cultura e Arte Proletárias: Leon Trotsky

09.11.2006
 
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Cultura e Arte Proletárias: Leon Trotsky

Cada classe dominante cria a sua cultura e, em conseqüência, sua arte. A história conheceu as culturas escravistas da antigüidade clássica e do Oriente, a cultura feudal da Europa medieval e a cultura burguesa que hoje domina o mundo. Daí, a dedução de que o proletariado deva também criar a sua cultura e a sua arte.

A questão, contudo, está longe de ser assim tão simples quanto parece à primeira vista. A sociedade na qual os possuidores de escravos formavam a classe dirigente existiu durante muitos séculos. O mesmo ocorreu com o feudalismo. A cultura burguesa, ainda que a consideremos somente a partir da sua primeira manifestação aberta e turbulenta, isto é, a partir do Renascimento, existe há cinco séculos, mas só atingiu o seu completo florescimento no século XIX, ou, mais precisamente, na sua segunda metade. A história mostra que a formação de uma nova cultura em torno de uma classe dominante exige considerável tempo e só alcança a sua plena realização no período que precede a decadência política dessa classe.

O proletariado terá muito tempo para criar uma cultura proletária? Contrariamente ao regime dos possuidores de escravos, dos senhores feudais e dos burgueses, o proletariado considera a sua ditadura como um breve período de transição. Quando queremos denunciar as concepções muito otimistas sobre a passagem para o socialismo, destacamos que o período da revolução social, em escala mundial, não durará meses, e sim anos e dezenas de anos - dezenas de anos, mas não séculos e, ainda menos, milênios. Pode o proletariado, nesse lapso de tempo, criar uma nova cultura?

Essa dúvida é legítima, porque os anos de revolução social serão anos de uma feroz luta de classes, na qual a destruição ocupará maior lugar do que a atividade construtiva. O proletariado, em todo caso, gastará a sua energia principalmente na conquista do poder, na sua manutenção, no seu fortalecimento e na sua utilização para as mais urgentes necessidades da existência e da luta posterior.

Ora, durante esse período revolucionário, que encerra em limites tão estreitos a possibilidade de uma edificação cultural planificada, o proletariado atingirá o clímax de sua tensão e dará a manifestação mais completa do seu caráter de classe. E, inversamente, quanto mais o novo regime estiver protegido contra perturbações militares e políticas e quanto mais favoráveis se tornarem as condições para a criação cultural, tanto mais o proletariado se dissolverá na comunidade socialista, libertar-se-á de suas características de classe, isto é, deixará de ser proletariado. Não se trata, em outras palavras, da edificação de uma nova cultura, isto é, da edificação na mais longa escala da história, durante o período da ditadura. A edificação cultural, por outro lado, não terá precedente na história quando não mais houver necessidade da mão de ferro da ditadura. Aí, porém, não mais apresentará um caráter de classe.

Pode-se concluir, portanto, que não haverá cultura proletária. E, para dizer a verdade, não existe motivo para lamentar isso. O proletariado tomou o poder precisamente para acabar com a cultura de classe e abrir o caminho a uma cultura da humanidade. Esquecemos isso, ao que parece, com muita freqüência.

As proposições confusas sobre a cultura proletária, por analogia e antítese à cultura burguesa, nutrem-se de uma identificação muito pouco crítica entre os destinos históricos do proletariado e os da burguesia. O método vulgar, puramente liberal, das analogias históricas formais nada tem em comum com o marxismo. Não há nenhuma analogia real entre o ciclo histórico da burguesia e o da classe operária.

O desenvolvimento da cultura burguesa começou vários séculos antes que a burguesia, através de uma série de revoluções, tomasse o poder do Estado. Quando apenas representava o Terceiro Estado, quase sem direitos, a burguesia já desempenhava grande papel, que crescia incessantemente em todos os domínios do desenvolvimento cultural. Pode-se observar esse fato, de modo particularmente nítido, na evolução da arquitetura. As igrejas góticas não foram construídas repentinamente, sob o impulso de inspiração religiosa. A construção da catedral de Colônia, sua arquitetura e sua escultura, resumem toda a experiência arquitetônica da humanidade, desde os tempos das cavernas, e todos os elementos dessa experiência concorrem para a elaboração de novo estilo, que exprime a cultura de sua época, isto é, em última análise, a sua estrutura social e a sua técnica.

A antiga burguesia das corporações e das guildas foi a verdadeira construtora do gótico. Mas, desenvolvendo-se e reforçando-se, isto é, enriquecendo, a burguesia ultrapassou, consciente e ativamente, o gótico e começou a criar o seu próprio estilo arquitetônico, não mais para as igrejas, e sim para os seus palácios. E, apoiando-se nas conquistas do gótico, voltou-se para a Antigüidade, especialmente para a arquitetura romana e mourisca, submeteu tudo isso às condições e às necessidades da nova vida das cidades e assim criou o Renascimento (Itália, fim do primeiro quarto do século XV).

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