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A história como tentativa de se desvendar o encadeamento lógico dos fatos do passado

09.10.2014
 
A história como tentativa de se desvendar o encadeamento lógico dos fatos do passado. 20984.jpeg

A história, enquanto atividade de recuperação, recriação ou, mais propriamente, apropriação ou "criação" do passado, pode ser entendida como uma tentativa de se desvelar o encadeamento lógico dos fatos do passado. Da mesma sorte, pode ser ela vista como um movimento do pensamento mediante o qual rearranjamos - de modo inteligível e racional - os fatos, coisas, ações e pensamentos que, irrecorrivelmente, perderam-se no tempo ido.

Iraci del Nero da Costa *

Não que o passado seja, enquanto um algo, ininteligível ou irracional; o problema está em que - da mesma maneira que nossa "interpretação" do fato, em sua gênese e enquanto ainda está a se dar, pode alterar o curso de seu desenvolvimento - o fato de estarmos pondo o passado como objeto de nossa observação propicia - já desvanecidos os elementos materiais e, em larga medida, muito dos elementos subjetivos que lhe deram sustentação e o condicionaram - oportunidade para a emergência de uma interpretação, de uma "inteligibilidade" e de uma "racionalidade" que dormitam, como meras potencialidades, tanto no fato quanto em nós mesmos.

Por outro lado, é preciso ter presente que o peso a ser assumido por um fato, (por qualquer fato ocorrido em qualquer momento) - cuja gênese pode ter sido aleatória e/ou acessória - depende, crucialmente, do desenvolvimento futuro que projetamos para ele. Ao interpretá-lo, racionalizá-lo e torná-lo inteligível - no  momento mesmo em que surge -- emprestamos-lhe uma dimensão nova (do campo do material - "natural" - transportamo-lo ao campo do real - cultural), comprometemos seu "futuro" e fazemo-lo assumir o "peso" (relevância, importância) acima aludido.

Como gostariam os físicos, pode-se dizer que o princípio da incerteza de Heisenberg está na base mesma da vida cultural - da existência humana enquanto tal. Assim, a observação (a colocação do "fato" como objeto do pensamento) transforma-o em algo real e, portanto, supramaterial; seu desenrolamento futuro, condiciona-se, destarte, a uma ordem legal que não tem de estar presente, necessariamente, em seu nascedouro. Ademais, mesmo se o estivesse, o plano do real apresenta dinâmica tal que, a cada momento, e sempre, tudo é passível de reordenamento, de redefinição.

Não estou dizendo que é impossível conhecer ou "recompor" o passado, o que estou afirmando é que é impossível conhecer o que quer que seja se se concebe o conhecimento da maneira errônea e ingênua como o fazem os positivistas. Assim, a questão não está em se saber se o passado, ou o presente, são inatingíveis, mas, sim, saber-se "o que é atingido". Destarte, e falando figuradamente, se, com respeito à denunciada postura ingênua, o que se alcança no presente é um exponencial do pretenso "fato em si", na história estamos em face de um exponencial de um exponencial.

 

DUAS QUESTÕES PARALELAS

As questões acima postas dizem respeito, especificamente, à maneira de ser da cultura, à existência do humano, ao que chamo de "plano ou campo do real" (sobre esta questão veja-se: COSTA, Iraci. Considerações sobre distintas formas de existência. Fênix - Revista de História e Estudos Culturais. NEHAC, jul./dez. de 2013, vol. 10, ano X, n. 2. Disponível em: www.revistafenix.pro.br). A elas somam-se duas outras, às quais também se deve dar atenção, pois também operam no sentido de qualificar a ciência da história, minando ainda mais seu hipostático habitat. Penso agora nos problemas afetos à ideologia e ao hiato que separa o que o sujeito pensa de suas ações ou de suas intenções e os móveis efetivos que as determinam (não esqueço aqui que o pensado pelo agente influencia decisivamente suas ações e intenções e seus respectivos desdobramentos). Ambos temas têm recebido largo tratamento por parte de estudiosos e, embora nunca se possa considerar um tópico como estes exaurido, não pretendo aqui tecer comentários adicionais aos que já constam de uma longa bibliografia; restrinjo-me, tão só, a uma observação que visa a conturbar ainda mais este movediço terreno, vejamo-la.

Sem fugir das recorrentes recomendações a que explicitemos posições no que tange ao campo das ideologias e sem descurar da pesquisa referente ao levantamento dos possíveis móveis das ações e intenções dos protagonistas pessoais e coletivos de nosso passado, não se deve perder de vista a impossibilidade de se chegar - no âmbito da Ciência Social - a um "produto final pronto e acabado". Como bem sabemos, o final de uma pesquisa é, de fato, um reinício, nossos achados dão ensejo a um diálogo com cada um de nossos leitores, o resultado dessa interação - como nas artes em geral -, este sim, pode ser tomado como produto de nossos estudos. Serão eles, pois, reciclados, re-postos por estes nossos interlocutores que também os avaliarão sob a ótica das ideologias e das perspectivas analíticas porventura neles propostas de modo implícito ou explícito. As recomendações aludidas no início deste parágrafo não podem ser tomadas, assim, como fórmulas destinadas a "garantir" aquele "produto final", mas, sim, como normas cuja finalidade é proporcionar a abertura de um processo interativo isento de vícios maiores. Isto implica dizer que o processo de crítica das bases ideológicas e dos móveis últimos dos agentes tem continuidade depois de a obra haver sido dada a público; mais ainda, tal processo vê-se alargado, pois agora o próprio autor vê-se submetido àquele crivo, vale dizer, também a visão de mundo e os móveis do historiador passam a incorporar o todo a ser avaliado criticamente.

 

UMA CONSEQUÊNCIA A CONSIDERAR

Outra consequência da visão acima reportada está em que, em história, sempre nos deparamos com resultados, "fósseis" dados ex post. Ocorre que o "humano" que os embasa não está nesses "fósseis", mas no processo que os constituiu e do qual eles resultaram. Assim, captar humanamente o passado pressupõe um largo exercício de imaginação mediante o qual injetamos vida em tais "fósseis". É preciso, pois, vê-los de uma perspectiva processual. Ao operarmos dessa forma devemos deixar de lado a vã tentativa de recompor o passado "como ele realmente foi"; devemos fazê-lo visando a  apreendê-lo - não  como uma coisa - mas como testemunho de seres que viveram humanamente, apaixonadamente. Percorrer este campo minado é, certamente, o grande desafio que se coloca ao historiador.

 

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

 


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