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Damiana e outras indígenas

09.02.2007
 
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Damiana e outras indígenas

Adelto Gonçalves (*)

Como se sabe, não há como estabelecer uma porcentagem na quantidade de sangue para se definir se alguém nascido mestiço pode se considerar negro, indígena ou branco. Portanto, a escolha fica ao livre-arbítrio de quem tem no corpo sangue de vários ascendentes, independente da cor da pele.

Esse é o critério que se vem levando em conta nas universidades públicas brasileiras para se estabelecer quem é ou não negro e pretende usufruir o sistema de cota que dá direito ao ingresso. É claro que isso, às vezes, causa confusão ou mesmo indignação a quem, trazendo a pele mais escura, é obrigado, por força das circunstâncias, a custear seus próprios estudos em universidades privadas. Sem contar os que se consideram brancos e são pobres e igualmente não têm acesso à universidade.

Seja como for, a verdade é que mestiços, historicamente, não são nem uma coisa nem outra. São mestiços. E pronto. Ainda há pouco tempo, um escritor moçambicano me escrevia para dizer que, para ele e muitos de seus pares, o Brasil era um “caso perdido”.

Ou seja, a africanidade aqui já se havia perdido por causa da intensa miscigenação. Questão de ponto de vista. Nem o Brasil é, hoje, uma nação negra nem é um país de brancos. É um país miscigenado. Nascido da convivência (nem sempre pacífica) entre brancos europeus, negros e indígenas. Sem contar os asiáticos e os oriundos do Médio Oriente e seus descendentes, que já não são poucos. E outros tantos europeus de regiões diversas. Já era, portanto, um país globalizado, antes mesmo desta palavra ter virado moda.

A quê vêm estas reflexões? É que, recentemente, por gentileza do professor J. Cândido Martins, da Universidade de Braga, recebi o livro Colóquio de Outono: Estudos de tradução/Estudos pós-coloniais, organizado por Ana Gabriela Macedo e Maria Eduarda Keating, do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho. Entre 18 outros textos de primeira grandeza, o volume traz o ensaio “Traddutora,Traditora? Tradução, mestiçagem e multiculturalismo no feminino” em que o professor Fernando Ferreira-Alves, da Universidade do Minho, destaca o papel de mulheres indígenas na história da colonização do Novo Mundo.

Por norma, os tradutores/intérpretes que seguiam nas naus eram homens. Afinal, mulheres sempre foram raras nas naus, como mostra Fina D´Armada em Mulheres Navegantes: no tempo de Vasco da Gama (Lisboa, Ésquilo, 2006). Mas houve muitas que tiveram participação decisiva naquilo que se denominaria de conquistas. Ferreira-Alves relaciona várias, desde Dona Mécia, filha do governador da fortaleza portuguesa de Santa Cruz de Cabo Gué, atual Marrocos, que, em 1541, desempenhou papel importante como intermediária entre os mundos português e muçulmano, até a mais famosa de todas, Doña Mariana ou La Malinche, intérprete de Cortez durante a conquista do México.

Na colonização do Brasil, diz Ferreira-Alves, é, praticamente, impossível detectar uma ou mais figuras femininas que tenham tido força idêntica e carisma como La Malinche, embora haja relatos de vários exemplos de mulheres que mediaram as relações entre índios e portugueses e entre as colônias costeiras portuguesas e as nações indígenas que viviam no sertão. Lembra, porém, que há pelo menos um caso de uma indígena em toda a literatura histórica do período colonial que preenche claramente o modelo do agente ou intermediário transacional.

Trata-se da Paraguaçu, mulher índia de Diogo Álvares Correia, o famoso Caramuru, fidalgo da Casa Real de D.João III, homem influente e poderoso que naufragou nas costas na Bahia de Todos os Santos, por volta de 1510 e, que, depois, seria imortalizado no famoso poema de José de Santa Rita Durão, de 1781. Paraguaçu, filha do chefe Taparica, da tribo dos tupinambás, atravessou o Atlântico com Diogo Álvares Correia e, inclusive, foi batizada Catarina do Brasil em Saint-Malo, na Bretanha, em 1528.

Ferreira-Alves cita também João Ramalho, degredado português que, no século XVI, no Planalto paulista, casou com Bartira, filha do cacique Tibiriçá, da tribo tupiniquim. Antônio Rodrigues, outro degredado, casou com uma filha do chefe Piquerobi. Especula-se que Bartira, a exemplo da Paraguaçu, tenha tido participação decisiva na atuação de João Ramalho como intérprete em suas relações com os indígenas. Depois, João Ramalho haveria de ajudar os demais portugueses que chegariam com Martim Afonso de Sousa a São Vicente e subiriam a íngreme Serra do Mar.

O ensaísta não esqueceu de Maria do Espírito Santo Arco Verde, filha do chefe Arco Verde, que se relacionou com Jerônimo de Albuquerque, cunhado do donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho. M´Uiráuby, seu nome indígena de princesa tabajara, teria participação decisiva numa determinada ocasião, salvando a pele do futuro marido. Albuquerque, em janeiro de 1548, caíra derrotado nas mãos de indígenas que o condenaram ao sacrifício. Teria sido comido pelos canibais, não tivesse a princesa indígena se apaixonado por ele, conseguindo do pai o perdão para o inimigo.

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