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O delator, essa triste e abominavel figura

08.10.2017
 
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O delator sempre foi, tanto na mitologia, quando na história documentada, uma triste figura, aquele que troca suas convicções, sejam elas quais forem, por algum tipo de vantagem material.

O Brasil da Lava Jato e das perseguições políticas trouxe de volta esses pobres personagens, tão opostos aos corajosos, que são capazes de enfrentar com altivez seus inquisidores.

Ou se faz o papel do Palocci , ou do José Dirceu.

De todos os modernos delatores, um que se tornou símbolo dessa queda aos infernos, foi Elia Kazan, um dos maiores diretores de toda história de Hollywood, pelo trabalho pelo trabalho que fez, mas cujo papel como um denunciante junto à Comissão de Atividades Anti Americana do Senado, dirigida pelo tristemente célebre, senador Joseph Mc Carthy, entre 1950 e 1957, o tornou uma figura abominável como ser humano.

Orson Welles disse que ele trocou sua alma por uma piscina.

Quando recebeu um Oscar honorário da Academia de Cinema, em 1999, das mãos de Martin Scorcese, quase 50 anos depois que a comissão presidida por Mc Carthy terminara, muitos atores presentes no evento, se recusaram a aplaudi-lo, entre os quais Sean Penn, Holly Hunter, Ed Harris, Richard Dreyfus e Rod Steiger.

Kazan, de origem grega, nasceu em Istambul, na Turquia, em 1909 e morreu em Nova York, em 2003.

Tornou-se um diretor teatral de sucesso na Broadway, antes de trocar Nova York por Hollywood.

Entre os grandes filmes que dirigiu, estão: Uma Rua Chamada Desejo (A Streetcar Named Desire) de 1951; Viva Zapata, de 1952; Sindicato de Ladrões (On the Waterfront) , de 1954; Vidas Amargas (East of Eden), de 1955; Boneca de Carne (Baby Doll), de 1956; Clamor do Sexo (Splendor in the Grass), de 1961 e O Último Magnata ( The Last tycoon), de 1976.

Membro do Partido Comunista Americano, Kazan - ao contrário de outros que se negaram a colaborar (Dashiell Hammett, o criador do Falcão Maltês, por exemplo, mesmo idoso, doente e alcoólatra, manteve-se em silêncio diante da comissão) - entregou amigos, atores, diretores, que a partir da suas denúncias foram incluídos na famosa Lista Negra de Hollywood e impedidos de continuar trabalhando profissionalmente.

O diretor John Berry, incluído na lista, disse de Kazan: "Todo mundo muda de opinião. O sujeito é comunista, depois vira reacionário, é a vida. Ama uma mulher, divorcia-se, é a vida. Mas uma coisa não se tem o direito de fazer: delatar"

Jules Dassin, que havia feito nos Estados Unidos grandes filmes, como Força Bruta e Cidade Nua, foi obrigado a emigrar para a Europa, onde dirigiu, depois, Rififi (na França) e Aquele que Deve Morrer e Nunca aos Domingos, na Grécia, disse dele: "Kazan era o rei do teatro, nós gostávamos dele. Éramos amigos de longa data. Aquilo me fez mal. O que ele fez foi diabólico. Mais tarde, ofereceu emprego às pessoas que contribuíra para incluir na lista negra. E assim tentou corrompê-las dando-lhes trabalho, buscando sua aceitação."

Esse período negro na história americana foi retratado por George Clooney,  no filme Boa Noite, Boa Sorte, que narra os embates do jornalista Edward Monroe contra Mc Carthy.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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