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A Bolívia é logo ali

08.09.2017
 
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Onde muita gente vê semelhanças, nós, brasileiros, vemos diferenças. Como os argentinos se consideram parte da Europa no hemisfério sul, nós nos imaginamos os norte-americanos do sul do Equador, diferentes de paraguaios, colombianos, peruanos e bolivianos, principalmente os bolivianos.

Os verdadeiros norte-americanos parecem não pensar assim. Quando visitou o Brasil em 1982, durante o último governo da ditadura, o de João Figueiredo, o presidente Ronald Reagan, no jantar de despedida, levantou sua taça para saudar o povo boliviano.

Uma boa parcela de brasileiros não gosta de ser confundida com bolivianos porque se acha mais branca e importante do que eles.
Uma pena, porque eles tem muito a nos ensinar.

Em 2.015, fiz um longo périplo pela Bolívia, de carro, partindo de Puerto Suarez, na fronteira com Corumbá e seguindo por centenas de quilômetros, em direção a Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba, La Paz, Copacabana, no Lago Titicaca, e saindo pelo Peru no rumo do Oceano Pacífico.

Na fronteira, o policial brasileiro, mostrando como o preconceito é grande, nos alertava para o perigo que existe em andar "no meio desses índios" pouco afeitos à civilização, principalmente para a corrupção de seus policiais.

É verdade, a cada posto de pedágio, a cada barreira policial, vem sempre o mesmo pedido -  "uma propina para el té".  Parece ser uma instituição nacional. A propina é pedida sem o disfarce comum em estradas brasileiras, argentinas ou uruguaias, onde ela só é "sugerida", depois de cansativas enumerações de todas as infrações hipoteticamente cometidas pelo motorista. Na Bolívia, o pedido é feito abertamente, sem constrangimentos, sempre com um sorriso de quem conta com a tal propina como um complemento salarial.

Fora isso - que não parece muito grave - só encontramos gente hospitaleira, sempre pronta a ajudar, vivendo uma democracia social dificilmente encontrada em outros lugares.

Se, nós tivemos um presidente operário, Lula, quebrando a hegemonia de uma elite política que durou séculos, eles tinham (e têm ainda) um presidente indígena ( Evo Morales) da etnia dos Uru-Aimarás, líder sindical dos cocaleros, agricultores que cultivam a coca para fins medicinais.

Depois de enfrentar as intenções norte-americanos de erradicar a coca do Bolívia, como tentaram fazer na Colômbia, provocando uma guerra interminável, Morales conduz um país pacífico e democrático, com amplas possibilidades de um grande desenvolvimento nos próximos anos.

As maiores reservas de lítio do mundo - material fundamental para a produção de baterias para celulares e computadores - se encontram na grande salina de Uyni, enquanto o manganês, outro material de alto valor estratégico é abundante em Mutun, na região de Puerto Suarez.

Obviamente, todo esse potencial econômico, tem feito com que o grande capitalismo internacional volte seus olhos para a Bolívia, como faz no caso do petróleo na Venezuela e tente desestabilizar o governo de Morales, tarefa na qual é amplamente ajudado pela mídia, inclusive do Brasil.

A Bolívia e seus governos devem ficar atentos, porque é o país sul americano que mais sofreu com os interesses imperialistas sobre suas grandes riquezas minerais.

De 1879 a 1883, a Bolívia, ao lado do Peru, foi amplamente derrotada pelo Chile, então armado pelos ingleses, na chamada Guerra do Pacífico. Mineradoras chilenas, de capitais ingleses, que exploravam as riquezas minerais - cobre e salitre - do deserto do Atacama, então território boliviano, se recusaram a pagar os impostos cobrados pela Bolívia e armaram as causas para a guerra, no qual o Peru participou por força de acordos militares com a Bolívia.

No final do conflito, toda a região de Tarapacá, do Deserto do Atacama até a área litorânea, onde estavam as cidades de Antofagasta, Arica e Iquiqui, ficou em mãos do Chile.

Numa guerra iniciada em 1889 e terminada em 1903, aventureiros como Luiz Galvez Rodrigues Arias e o gaúcho Plácido de Castro, formaram exércitos privados e derrotaram os bolivianos no Acre e criaram uma efêmera República Acriana.

O motivo da guerra foi o controle das seringueiras, quando o preço da borracha deu um salto enorme no mercado internacional.

Quando o conflito terminou, o governo brasileiro entrou em ação e forçou os bolivianos a abrirem mão de seu território em troca de uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas e a promessa de construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Com isso a Bolívia perdeu mais uma parcela de seu território.

Uma última grande perda ocorreu durante a chamada Guerra do Chaco, com o Paraguai, de 1932 a 1935, pelo controle do acesso ao Rio Paraguai, que permitiria a exploração comercial de possíveis jazidas de petróleo no sopé da Cordilheira dos Andes.

Nesse caso, a Bolívia - que seria mais uma vez derrotada - iniciou a guerra estimulada pelo Standard Oil, que cobiçava entrar nessa nova área petrolífera, controlada então pela Royal Dutch Shell.

Depois de tantos conflitos, a Bolívia e seu povo, merecem construir em paz um futuro melhor e nós brasileiros devemos estar ao seu lado, livres de quaisquer preconceitos.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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