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Historiadora lança biografia da comunista Laura Brandão

08.08.2007
 
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Historiadora lança biografia da comunista Laura Brandão

Laura foi poetiza e declamadora renomada nos salões literários do Rio de Janeiro na primeira década do século 20. Apaixonou-se e casou-se com o anarquista e futuro dirigente do Partido Comunista do Brasil, Octavio Brandão.


No início da década de 1920 tornou-se uma das primeiras agitadoras comunistas brasileiras. Discursava nas portas das fábricas e ajudava editar o jornal A Classe Operária. Presa e agredida várias vezes pela polícia, acabou sendo expulsa do país juntamente com sua família após a Revolução de 1930.

Exilou-se na URSS onde trabalhou na rádio Moscou e contribuiu no movimento de resistência às tropas nazistas que ocuparam aquele país em junho de 1941. Gravemente doente, morreu no interior do território soviético em janeiro do ano seguinte. Depois da guerra, seus restos mortais foram transladados para o Cemitério dos Heróis na capital russa. Laura Brandão, como Anita Garibaldi e Olga Benário, pode ser considerada uma heroína de dois mundos.

Nesta edição, o Vermelho publica uma entrevista exclusiva realizada pelo historiador Augusto Buonicore com a autora desta importante publicação sobre a vida de Laura Brandão.

Buonicore: Como você descobriu Laura Brandão?

Maria Elena: Foi por um feliz acaso. O Arquivo Edgard Leuenroth - AEL-Unicamp - havia recebido parte do arquivo de Octávio Brandão e o professor João Quartim de Moraes, que na época era o diretor do IFCH, me mostrou um dos poemas de Laura e eu, curiosa, fui ao arquivo buscar outras fontes. A primeira pasta que peguei foi a de correspondências passivas e ativas de Laura. Lá fiquei um dia inteiro lendo e tentando decifrar a caligrafia complicada de alguma delas. Desde então, não parei mais.

Buonicore:A presença de Laura se destacava nos salões literários do Rio de Janeiro na década de 1910. Fale um pouco sobre a poetisa e declamadora Laura da Fonseca e Silva?

Maria Elena: Laura publicou, no início do século 20, quatro livros de poemas, o que para uma mulher naquele período não é pouca coisa. Não são poucas as referências ao brilhantismo com que Laura declamava os seus poemas e os de seus amigos poetas. Ela freqüentava ambientes requintados como, por exemplo, a casa de Rui Barbosa, um dos mais prestigiados salões cariocas daquele período.

Buonicore: O que levou Laura a abandonar este ambiente refinado e se dedicar à causa dos oprimidos, aderindo ao anarquismo e depois ao comunismo?

Maria Elena: Ao que tudo indica, o grupo social que freqüentava os salões e do qual Laura fazia parte era considerado, pelos comunistas e por Octávio Brandão, porta voz de posições ideológicas burguesas. Essa situação causava certo conflito com a causa que ambos abraçaram.

Buonicore: Qual a importância de Laura para o movimento operário e comunista na década de 1920? Em quais lutas ela se envolveu?

Maria Elena: Laura foi uma ativista de rua e atuou nos comícios, greves e reuniões sindicais. Era vista nas madrugadas distribuindo panfletos e manifestos nas portas das fábricas. Foram ainda palcos de sua militância os bairros operários. Ela foi uma das fundadoras do Comitê de Mulheres Trabalhadoras, ligado ao Bloco Operário e Camponês, - a primeira associação de massa de mulheres sob a influência do Partido Comunista no Brasil. Laura também participou da fundação do semanário A Classe Operária no qual atuou como redatora informal e não media esforços para que o jornal fosse editado e distribuído. Sua militância deu-se ao lado do Partido Comunista do Brasil (PCB), embora nunca tenha tido ligação mais orgânica com o Partido. Não sabemos qual a razão de sua recusa em integrar-se formalmente ao Partido. Talvez fosse devido ao desagrado pela posição secundária que o Partido atribuía às mulheres.

Buonicore: Para Laura e sua família, a revolução de 1930 não trouxe novos ares de liberdade, pelo contrário trouxe prisão e exílio. Como se deu este processo?

Maria Elena: Octávio viveu na clandestinidade de 1926 a 1928. A partir, daí a casa da família no Rio de Janeiro passou a ser vigiada pela polícia. Desde então, sem trabalho regular, as dificuldades financeiras aumentaram, pois Brandão ora estava preso, ora na ilegalidade. Laura exercia, além de tudo, a tarefa de esteio do marido guerreiro. A partir de 1929, após a aprovação da Lei Celerada, Laura também passou a ser perseguida pela polícia. Octavio logo após a revolução de 1930, foi novamente preso e, desta vez, saiu da prisão direto para o navio que o levou junto com toda a família para o exílio, em junho de 1931.
Buonicore: Como era a vida de exilados na URSS? Quais atividades ela e Octavio exerceram?

Maria Elena: Difícil, pois além das restrições financeiras, ainda havia a dificuldade com a língua e com o inverno rigoroso. Octávio trabalhou na Internacional Comunista (IC) de 1931 a 1933. Por problemas ideológicos, a direção da IC o mandou para o Instituto de Economia e Políticas Mundiais, na seção da América Latina. A partir de 1936, a convite de Dimítrov, Brandão voltou a trabalhar na IC. Laura, a partir de 1935, trabalhou na Rádio Moscou como redatora e locutora de programas em português, com transmissões para o Brasil. Como os serviços de comunicação eram bem pagos, a vida financeira da família melhorou um pouco.

Buonicore: Em 1941, as tropas de Hitler ocuparam a URSS.Qual o impacto deste trágico acontecimento na vida dos Brandão?

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