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Angola e a Perspectiva de adoptar o Acordo Ortográfico

08.06.2015
 

 

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Nota prévia: nada tenho contra a harmonização da escrita da língua portuguesa entre os diferentes países que a usam como sua língua oficial desde que as especificidades de cada cultura sejam ressalvadas e guardadas. Por isso, não tenho qualquer distinção contra o Acordo Ortográfico (AO), em si, mas não acredito nas bondades tão evidenciadas por certos linguistas quanto à sua total inserção impositiva nos fóruns nacionais e internacionais, sendo o contrário visto não como um arcaísmo, mas sim como um enorme erro, fortemente penalizado nos órgãos institucionais e de ensino.

por: Eugénio Costa Almeida©

Como já devem ter reparado, todas as minhas crónicas, ensaios, e outros tipos de obras são escritas, sempre – apesar de aceitar a tal harmonização linguística, leia-se o AO – escritas na versão antiga, aquela que nós ainda usamos e escrevemos.

Posto esta nota prévia, vamos ao que interessa. Recentemente, li um artigo no Jornal de Angola (versão online) que o AO está em desenvolvimento, “bem encaminhado”, segundo o título do artigo, com Moçambique a já ter aprovado, a nível de Conselho de Ministros a entrada em vigor do AO, aguardando a ratificação pelo Parlamento, e que Angola já está em discussão para a sua implementação.

Como disse no início, nada tenho contra o AO, mas há situações que se tornam insustentáveis com o AO, devido aos homónimos que se vão criar com evidentes lapsos semânticos e de sintaxe que os mesmos vão fomentar.

No início de Maio, o primeiro canal da televisão pública portuguesa (RTP) apresentou um novo formato de debate intitulado, salvo erro – porque estive mais de 3 semanas sem poder ver televisão por razões de saúde, motivo porque durante o mês de Maio não estive junto dos leitores –, «Palavras com atos».

Palavras com atos? São o quê, palavras atadas, manietadas? É totalmente diferente de umas Palavras com Actos, que definem acção, definição, objectivo. Resumindo, uma simples letrinha é suficiente, numa frase curta e directa, para alterar um sentido; uma letrinha dita “ c “.

Será o mesmo que dizer que acontecimento, um sucesso, ou um evento ou episódio é um «fato» em vez de um «facto». Ou seja, em vez de evento (também outro sinónimo para facto) é uma vestimenta, ou como dizem os brasileiros é um «terno» que nada tem a ver com ternura!

Ou «pára» e «para», ou «pêlo» e «pelo». Tira-se o acento e o que confusões vão dar se apresentarem-se sozinhos? Pelo menos se nós dissermos «ainda» assim sozinha, todos sabemos bem o que quer dizer. Outros países ficarão na dúvida e reforçarão a pergunta querendo ouvir o “não”. É uma questão de cultura que deve ser preservada.

E por questão de culturas locais, recordemos que dizemos «machimbombo», enquanto os brasileiros dizem «ónibus» e os portugueses, para o mesmo tipo de transporte, dizem «autocarros», se for para transportes urbanos, e «camionetas» quando são transportes suburbanos. Além de outras, recordemos o nosso agente secreto celebrizado por Pepetela, Jaime “Bunda”; ora esta palavra tem várias versões conforme o país e mesmo dentro do nosso país. São os méritos da multiculturalidade.

Repito, nada existe da minha parte algum incómodo com o AO, mas há mutações que se tornam insustentáveis com o AO, devido aos equívocos que se vão criar com evidentes lapsos semânticos que os mesmos vão facilitar.

Até porque, recordemos em acordos anteriores entre a potência colonial, Portugal, e o Brasil, houve outros acordos ortográficos, o último das quais, salvo erro, por volta dos inícios de 70 do século passado (1972/73?), onde algumas palavras perderam o “c” como por exemplo, Victor/Vitor, ou os advérbios de modo, em que os adjectivos acentuados, adicionados ao sufixo “mente”, trocavam o acento agudo para acento grave e passaram a deixar de ter o “novo” acento. Ou nomes passaram a ter duas grafias, como Luís e Luiz, Lourdes e Lurdes, Eugênio e Eugénio. Não havia, na prática, qualquer alteração semântica, com não havia variações de sintaxe.

Volto a repetir, nada tenho contra com o AO, mas há transmutações que se tornam insuportáveis com o AO, devido às confusões que se vão criar com evidentes lapsos semânticos e de sintaxe que os mesmos vão alimentar.

Mas quando essas transformações podem criar um total abandalhamento da língua, aí, lamento, e mesmo que o País adopte a nova grafia, terei de passar a ser ambilinguista; ou seja, enquanto escrita institucional e académica, terei, obrigatoriamente, de escrever de acordo com o AO, sem o qual, os documentos serão rejeitados pelas instituições estatais e académicas; enquanto “escrevinhador” de assuntos particulares, usarei a versão antiga, ou, mais correctamente, a que passa a ser reconhecida como versão arcaica.

Só espero que as minhas crónicas possam manter a versão anterior ao AO, mesmo que no fim os editores assinalem que o “autor escreve segundo a versão anterior ao Acordo Ortográfico”.

©Artigo de Opinião publicado no semanário angolano Novo Jornal, secção “1º Caderno” ed. 383 de 5-Junho-2015, pág. 18.

 

por: Eugénio Costa Almeida©

http://www.elcalmeida.net/content/view/976/46/


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