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Um filme e muitas leituras

08.01.2017
 
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Um filme e muitas leituras

Animais Noturnos (Nocturnal Animals), de Tom Ford é um filme inteligente, para pessoas inteligentes. Então, não é um filme fácil. Pelo contrário, ele as vezes é bem difícil no sentido de que não diverte o espectador, não o poupa, nem da violência, nem do escatológico, não faz concessões ao politicamente correto.

A apresentação do filme, com as figuras de mulheres nuas e fisicamente repelentes, já provoca uma forte sensação de desconforto no espectador, comprometido esteticamente com certos valores que se convencionou serem os aceitáveis na sociedade burguesa.

A síntese do filme é simples: Susan (Amy Adams) é uma moça, filha de família rica, que se apaixona por um ex-colega de colégio do Texas, Edward Sheffield, pobre e sonhador, a quem reencontra anos depois em Nova York. A união entre os dois não dura muito tempo e ela retoma sua vida, agora como diretora de um museu de arte e casada com alguém da sua classe social. Subitamente, quando o vazio da sua nova vida se torna quase insuportável, Edward reaparece como autor de um livro, que de certa maneira é uma explicação e também uma mea culpa dele para justificar o fracasso da união entre eles.

Se a síntese do filme é simples, ele não é. Pelo contrário é profundamente complexo e oferece muitas leituras, ao se desenvolver em vários planos, tanto do ponto de vista de tempo, como de ambientações, embora eles estejam sempre se misturando.

Na medida do temporal, o filme nos conduz para o presente de Susan, charmoso, rico e ao mesmo tempo vazio; para um passado de sonhos e projetos de vida de Susan e Edward e para um terceiro tempo, ainda no passado e o mais importante de todos, mas irreal porque é apenas uma construção literária, onde Edward se transforma em Tony Hastings.

É no tempo literário de Tony, que a violência não é controlada pelas convenções sociais e explode totalmente livre e destruidora. Ao contrário do tempo presente de Susan, que nos é mostrado dentro de uma estética cool, o tempo de Tony, aparece com imagens poluídas, sujas, desagradáveis.

Em meio a personagens violentos, sujos, doentes e que praticam o mal como diversão, Tony tenta se redimir da fraqueza moral que o torna culpado de ter sido incapaz de defender o que lhe importa na vida (no caso, representado pela família), mas fracassa mais uma vez, da mesma maneira do que, quando era Edward na vida real fracassou no seu casamento com Susan.

Entre os homens violentos que agem desse modo como uma forma de buscar o prazer e de Tony, que busca a violência como uma maneira de se redimir de sua fraqueza, o filme introduz um personagem, o policial Andes ( Michael Shannon) que se vale da sua autoridade para punir os maus de uma maneira ascética, quase que como uma força da natureza que age livre de significantes morais. Não casualmente, ele é um homem terminal, com um câncer no pulmão e prestes a se aposentar.

 Como nas sociedades atuais, ondes os guetos violentos, locais onde vivem os pobres e desajustados são mantidos longe das mansões onde vivem os ricos, no filme a violência dramatizada por Tony está longe do mundo onde vive agora Susan e a essa fronteira só poderá ser ultrapassada, de forma simbólica, quando ela se reaproxima de Edward, com a leitura do seu livro.

Uma das leituras do filme é de que, quando se abre mão de coisas que foram importantes para nós em determinados momentos da vida, devemos saber que esse caminho não tem retorno e que logo seremos cobrados por este ato.

Uma outra analogia possível que o filme nos oferece, é que ele pode ser visto como uma nova leitura da oposição entre capital e trabalho na atualidade.

O capital se tornou totalmente parasitário, nada mais produz de concreto e por isso é visualizado sobre o enfoque de uma arte decadente, escatológica até, consumida apenas por ricos, vazios de qualquer conteúdo de humanismo.

O trabalho se mostra pervertido pela violência e só pode se afirmar pela destruição dos símbolos da sociedade capitalista, como seus valores familiares e seus objetos de consumo, principalmente os automóveis.

Para contar essa história de encontros e principalmente desencontros, de pouco de amor e muito desamor, Tom Ford contou com grandes intepretações de seus atores, principalmente  Jake Gyllenhaal, que compõe os dois personagens, parecidos e diferentes ao mesmo tempo, Edward e Tony, de maneira extremamente convincente; de Amy Adams, muito bem no papel da intelectual, sempre crítica das convenções, mas que assim mesmo as cumpre com elegância e principalmente Michael Shannon, perfeito no papel do policial. Numa breve aparição, como a milionária mãe de Susan, Laura Linney, está ótima na lição de cinismo que dá à filha.

Enfim, o filme se presta a muitas interpretações e provoca reações diferentes, inclusive o daquela senhora que, na saída, ainda carregando nas mãos um enorme pacote de pipocas, dizia para o seu presumível marido: que filme chato.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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