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Theo, um brasileiro de coragem

07.07.2017
 
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Em 1970, no auge da repressão da ditadura brasileira, os que partiam para a luta armada, quando descobertos pelos militares raramente eram presos.

Eram quase sempre mortos, com a desculpa de que resistiam à prisão.

Poucos escapavam com vida.

Theodomiro Romeiro dos Santos, o Theo, 18 anos foi um deles.

Junto com outros dois companheiros do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, foi capturado em Salvador e usando um revólver que trazia numa pasta, acabou matando um dos seus perseguidores.

Um ano depois se transformou no primeiro civil condenado à morte na República, por um tribunal militar, de acordo com a Lei de Segurança Nacional, pena mais tarde transformada em prisão perpétua.

Em 1979, quando ficou sabendo que seria o único preso político a não ser anistiado e que sua vida ficaria ameaçada na prisão (o governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, admitiu isso publicamente) conseguiu fugir da Penitenciária Lemos Brito e depois de passar por varias cidades baianas, pelo Rio e Brasília, exilou-se na França, de onde só retornou em 1985, quando sua condenação se extinguiu.

Theo fez então um curso de Direito e hoje está aposentado como Juiz do Trabalho, na Bahia.também o último preso político a ser anistia. Theo, por razões ideológicas, nunca pleiteou qualquer indenização como fizeram outros presos políticos.

Sua história é contada no documentário da diretora Emília Silveira, "Galeria F", refazendo 40 anos depois, todo o roteiro da fuga de Theo, narrada por ele mesmo, sempre na companhia do filho, que nasceu quando ele estava na prisão.

A narrativa de Theo é quase pontuada por casos engraçados e por uma fina ironia, quebrada apenas quando ele conta quais são os sentimentos da pessoa torturada

"Quando você começa a ser torturado, há um confronto seu com o inimigo. Você o chama de filho da puta, você o insulta, você entra num conflito com ele, num confronto. E isso é mais fácil de fazer. Outra coisa é você ficar amarrado aqui, sozinho, sentado, com os seus fantasmas e seus medos, com os olhos vendados. Você fica se enfrentando sozinho. Não tem ningu ém te batendo, não tem ninguém fazendo nada. Mas daí você começa a enfrentar os seus medos: 'será que eu vou aguentar dessa vez, será que eu não vou denunciar ninguém?' Então, você fica com essas angústias todas, enfrentando sozinho. Pra mim, essa era a pior situação de todas",

O documentário termina com Theo caminhando dum lado para outro na cela em que viveu nove anos, enquanto fala: "É por isso que quando você vê no zoológico o bicho na jaula de um lado para o outro, você entende porque ele está fazendo aquilo. Porque as pessoas também fazem", resume, em uma espécie de metáfora do que foi a ditadura civil-militar.

Vale a pena ver o documentário por duas razões: primeiro, porque é uma aula de história sobre um período dramático da vida brasileira e segundo, porque sempre é bom conhecer pessoas que enfrentaram com destemor momentos extremamente difíceis, mas que, ainda hoje,  conseguem olhar com otimismo para o futuro.  

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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