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Um pequeno testemunho pessoal da História do Brasil.

07.06.2020
 
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Um pequeno testemunho pessoal da História do Brasil

Nesse momento de grande perplexidade nacional onde as pessoas se perguntam como foi possível chegarmos a atual situação, onde um país com o tamanho e a importância econômica do Brasil, possa ser governado por um pessoa do mais baixo nível intelectual e ainda por cima cercado com o que de pior existe na vida política nacional.


Talvez a resposta esteja num mergulho, ainda que superficial sobre a história dos últimos 50 anos da vida brasileira. Meio século não significa muito para que se tenha uma perspectiva real do desenvolvimento histórico de um país, mas no caso do Brasil ajuda um pouco a conhecer o presente e o que nos reserva o futuro.


Com o fim da Segunda Grande Guerra em 1945, o Brasil viveu durante praticamente 15 anos sob um sistema de garantias democráticas, mas marcado pela adesão plena dos seus governos aos desígnios norte-americanos. Nosso lado na chamada "guerra fria" era o lado dos Estados Unidos, contra o comunismo "ateu e destruidor dos valores da família" como se dizia na época.


O final dos anos 50 e o início dos anos 60 do século passado marcaram fortemente o surgimento de dois novos valores sociais, o nacionalismo e o socialismo. O primeiro buscava reafirmar a independência política e econômica do Brasil no concerto das nações e o segundo se propunha a criar uma sociedade mais justa e igualitária.


Quem viveu aquele período, que vai se encerrar em abril de 64 com o golpe militar, certamente lembra da grande efervescência política e principalmente cultural da época.
A vitória da Revolução Cubana em janeiro de 1959 incendiava a imaginação de todos. Era possível vencer o imperialismo e construir um modelo alternativo de sociedade.


Mas o Brasil não era uma pequena ilha, onde a única a grande riqueza era a extração da cana de açúcar. Éramos um país continental, com uma economia já diversificada e nosso modelo de independência do imperialismo teria que ser diferente do que foi em Cuba.
Foi nesse período que surgiu, defendida por alguns setores do Partidão a idéia de que seria possível uma transição pacífica para o socialismo, esquecidos da máxima de Karl Marx de que a violência é a parteira da História.


Criou-se a falácia da existência de uma burguesia nacional que apoiaria os trabalhadores no rompimento das amarras ao imperialismo e que na etapa seguinte acabaria por aceitar um modelo socialista.


O golpe de 64 iria desfazer essas ilusões. A tal burguesia nacional estava integrada ao modelo capitalista internacional e apoiou com entusiasmo à ditadura.


O primeiro governo militar, o de Castelo Branco, preservou alguns instrumentos da democracia, mas já com o governo seguinte, o de Costa e Silva, depois do AI5 e com Medici, ele se tornou cada vez mais violento e opressivo, sufocando todas as possibilidades de discussão de caminhos para governos mais democráticos e muito menos com características socialistas.


Um breve hiato nesse processo foi o exemplo da eleição, em 1970, de Salvador Allende, no Chile, que parecia fazer renascer a esperança de uma passagem menos traumática do capitalismo para o socialismo na América. Eleito por um coligação dos comunistas, socialistas e movimentos revolucionários chilenos, Allende não se propunha a instalar imediatamente um regime socialista no Chile, mas se esperava que ele abrisse o caminho para isso. Esse novo sonho durou três anos e terminou em um pesadelo de violência contra a população como não se tinha visto ainda na América.


No Brasil, a ditadura iria durar 20 anos, com algumas nuances na área econômica, como o projeto de um nacionalismo autoritário de Geisel, mas terminaria melancolicamente com um grande acordo político entre a elite dominante e os militares para uma transição pacífica para à democracia.


É nesse novo quadro que renasce a esperança de um governo de trabalhadores com o surgimento a partir das lutas dos operários do ABC paulista, do Partido dos Trabalhadores
Para os segmentos mais esclarecidos da elite econômica interessava o surgimento de um partido de trabalhadores, voltados para a luta pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores, porque ele eliminava a possibilidade do que tinha ocorrido no passado com a aliança de trabalhistas (principalmente do antigo PTB) e dos comunistas que pusesse em risco a continuidade do sistema capitalista.


O modelo agora seria o do sindicalismo americano de resultados e seu líder seria um operário nordestino saído do chão das fábricas, Luís Ignácio Lula da Silva.
Sua figura, em oposição aos antigos "pelegos" do movimento sindical seria exaltadoa pela mídia mais conservadora e viraria capa da Revista Veja.


Mas o novo partido dos trabalhadores criou vida própria, cresceu, começou a mobilizar as massas, recebeu a roupagem ideológica de novos líderes oriundos de segmentos de esquerda da igreja Católica e mesmo da luta armada contra a ditadura.
O PT passou a ser uma força incontrolável e na primeira eleição direta para a Presidência quase chegou ao poder com Lula nas eleições de 89, apoiado num programa com um viés socializante.


Mais duas vezes o partido tentou a Presidência com a mesma proposta política, até que Lula, ao se candidatar à sucessão de Fernando Henrique em 2002, aceitou um primeiro acordo com as elites econômicas brasileiras, reservando a vice-presidência para um representante do empresáriado, José de Alencar, derrotando o candidato do centro-direita, José Serra.


A partir daí tivemos 14 anos de governos do PT, fieis à proposta de conciliação com os grandes empresários e banqueiros, na tentativa de se criar no Brasil um modelo de bem estar social aos moldes das democracias européias.
A crise econômica mundial do capitalismo fez com que não interessasse mais à grande burguesia qualquer concessão aos trabalhadores e o PT foi expulso do poder por um simples golpe parlamentar sem qualquer derramamento de sangue.


O modelo que pretendia ser a salvação da classe trabalhadora, caiu sem que os beneficiados por ele levantassem sequer uma mão para defendê-lo.
Os que acreditam nele, tinham esquecido de uma outra máxima de Marx de que a História só se repete como farsa.


A tarefa agora é outra. Será preciso unir todas as forças que, por alguma razão se oponham ao governo autoritário e com tendências fascistas de Jair Bolsonaro para retirá-lo do poder.


Será uma união precária e de curta duração para, quem sabe, os trabalhadores possam se unir, no futuro, num novo projeto revolucionário, livre das ilusões do passado
Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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