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Entrevista: Daniel Munduruku

07.02.2010
 
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Entrevista: Daniel Munduruku

Autor de mais de 30 livros sobre a cultura dos povos nativos, Daniel Munduruku é considerado um dos mais influentes escritores da atual literatura indígena produzida no Brasil. Formado em filosofia, com licenciatura em história e psicologia, e doutorando em educação pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que a escola brasileira ainda reproduz uma visão meticulosamente construída pelos colonizadores no século 16. Visão que, segundo ele, seria responsável pelo preconceito contra os índios.

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Presidente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi), ONG voltada para a proteção dos conhecimentos tradicionais das aldeias, Munduruku foi também professor da rede estadual e particular de ensino, onde lecionou para crianças e adolescentes. Dentre os livros que escreveu para o público infanto-juvenil estão Coisas de Índio, O Sinal do Pajé e Meu Vô Apolinário – que ganhou menção honrosa do Prêmio Literatura para Crianças e Jovens na Questão da Tolerância, da Unesco.

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Em O Banquete dos Deuses – Conversa sobre a origem e a cultura brasileira, escrito em 2000 e relançado este ano pela editora Global, o autor se debruça sobre a problemática do preconceito em sala de aula, investiga as origens da visão deturpada que os professores fazem a respeito dos povos indígenas e aponta caminhos para uma educação humanista no Brasil. “Minha principal preocupação é libertar as crianças do preconceito”, diz.

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Comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República, Daniel Munduruku é constantemente convidado a ministrar palestras e oficinas culturais na Europa e mantém um blog na internet ( aqui ). Nascido a 28 de fevereiro de 1964, em Belém do Pará, é casado com Tânia Mara, com quem tem três filhos, Gabriela, Lucas e Beatriz. Falei com ele desde sua casa, na cidade de Lorena, interior de São Paulo.

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Bruno Ribeiro – Em seu livro O Banquete dos Deuses, você aborda o problema do preconceito contra o índio. De onde vem a dificuldade de aceitarmos ou assumirmos a cultura indígena como sendo parte da cultura nacional, ou seja, de nossa própria identidade?
Daniel Munduruku – Este livro foi escrito para apoiar os professores em sala de aula e ajudá-los a entender o que são os povos indígenas. É um suporte didático e filosófico que busca entender o Brasil de uma forma carinhosa, mas crítica. A meu ver, o grande problema do brasileiro é ter vergonha da sua ancestralidade, porque a nossa ancestralidade evoca os povos indígenas e africanos. Quando o povo se olha no espelho, vê um passado que ele renega, porque foi educado para renegar.

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O preconceito, neste caso, seria fruto da educação que recebemos em casa e na escola?
Durante muito tempo, a educação foi um instrumento importante na estratégia do Estado brasileiro de negar a existência dos povos indígenas. Somos educados para repetir a imagem do indígena transmitida no século 16, ou seja, uma imagem que reforça a visão estereotipada criada pelos colonizadores.

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Como você, quando estudante, absorvia a imagem negativa que era transmitida pela escola a respeito dos índios?
Frequentei a escola durante a ditadura militar, na década de 1970. Naquela época, as informações que eu tinha em sala de aula insinuavam que índio era atrasado, que índio era pobre, que índio era selvagem… Isso chegava até mim com um impacto muito violento. Passei a ter vergonha da minha cara, do meu cabelo, da minha origem… Eu não queria mais ser índio.

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Você diz que a visão negativa do indígena foi reforçada pelo regime militar. Por quê?
O governo via o indígena como um atraso ao progresso do País quando começou a abrir estradas na Amazônia. Porque os povos indígenas estavam em áreas onde as estradas tinham que passar ou porque estavam em terras que o governo havia vendido para investidores estrangeiros. Era preciso exterminar os índios para que a Amazônia se “modernizasse”. Aqueles que eles não conseguiam exterminar, tinham que ser “incorporados” à sociedade, ou seja, tinham que ser “educados” como brancos, tinham que ser “civilizados” à força. O discurso não era explícito, mas a escola reproduzia esta ideia.

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E essa ideia persiste até hoje?
Até hoje. Costumo dizer que o Brasil é um país adolescente. Não é velho como a Europa, mas também não é mais criança. É um adolescente e, como tal, está vivendo uma crise de identidade.

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Você acabou de contar que também viveu uma crise de identidade na adolescência, quando passou a ter vergonha de sua origem. Como foi que resgatou o orgulho e passou a valorizar a sua cultura?
Nas idas e vindas da aldeia para a cidade – eu estudava em Belém do Pará – fui entendendo que havia um abismo cultural entre as duas realidades. Eu vi que até podia abandonar a aldeia, mas não podia abandonar a minha raiz. Quem mudou a visão negativa que eu fazia de mim mesmo foi meu avô Apolinário. É claro que não foi da noite para o dia, mas o avô foi mostrando, às vezes com sábias palavras, às vezes apenas com o silêncio, que aquela era a minha família e que longe dela eu seria infeliz. Com meu avô aprendi o valor da ancestralidade.

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