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Milton Hatoum: "Pátria é a língua e a infância"

07.01.2009
 
Pages: 12

Não vejo um sentido missionário na literatura como um todo, embora haja escritores que acreditem nisso. Eu respeito quem pensa diferente, mas não acho que a literatura seja uma missão ou deva cumprir um papel político. A literatura é apenas uma forma de conhecimento. É uma forma de indagação da realidade. Ela cria um universo ficcional para questionar a realidade. A literatura é uma forma de conhecer a si mesmo e ao outro. Nesse sentido, ela pode ter alguma função social.

O senhor diz que o maior mistério da literatura é o leitor. Por quê?

Porque a gente desconhece completamente o leitor. Mente quem diz o contrário. Quando publiquei um livro de poesia, em 1978, eu sabia exatamente quem eram os meus leitores: minha mãe, meu pai e oito amigos (risos). Hoje não. Eu sou lido em todo o Brasil e em outros países também. E sempre me impressiono com as pessoas que vêm falar comigo. Viajo aos lugares mais pobres e afastados do país e sempre aparece alguém dizendo que leu o meu livro. O Brasil mudou muito nestes últimos anos. Engana-se quem pensa que o pobre continua sendo aquele coitadinho que não tem acesso à informação e à leitura.

Como o senhor explica o fato de ser um dos autores mais lidos entre o público acadêmico e ser reconhecido também pelo leitor comum?

A gente tem o péssimo costume de subestimar o povo brasileiro. Dizemos que o povo não gosta de ler. Mas é aí que a gente se engana. Dois Irmãos conquistou o público acadêmico, mas também pegou o leitor comum porque conta uma história parecida com a história de muitos de nós. As pessoas não estão percebendo que há uma massa de brasileiros despossuídos com acesso à internet e cartão de crédito. Essas pessoas não estão mais esperando que alguém lhes explique as coisas. Estão indo atrás do conhecimento, comprando livros pelo computador, correndo atrás do prejuízo. Tenho notado que, nos últimos seis ou sete anos, que coincidem com o governo do Lula, o leitor brasileiro deixou de ser o cara de classe média alta.

Por que o senhor tomou a decisão de sair de Manaus e se mudar para São Paulo?

Há cerca de oito anos, minha vida começou a andar para trás. Estava tudo errado. Nada mais estava acontecendo de positivo na minha vida e eu resolvi vir para o Sudeste. São Paulo me libertou, porque minha vida de escritor começou quando cheguei aqui, em 2000. A mudança teve uma razão muito pessoal e objetiva, não saí rompido com nada ou ninguém. Continuo gostando de Manaus do mesmo jeito.

O senhor está vivendo exclusivamente de literatura?

Hoje sim. Comecei a viver de literatura com Dois Irmãos. Eu sempre fui pessimista, achava que ia ser um desastre, que ninguém ia ler o meu livro. Aí o meu editor (Luiz Schwartz) apostou comigo que o romance alcançaria um público considerável no Brasil, que eu poderia deixar as aulas na universidade e, finalmente, ser apenas escritor. Paguei para ver e perdi a aposta, porque o livro bateu recordes de venda, foi adotado em escolas e universidades e traduzido para outras línguas. Para os padrões brasileiros, 50 mil exemplares vendidos é um número excelente. Os editores acham muita coisa. Eu acho um exagero.

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