Pravda.ru

Sociedade » Cultura

Milton Hatoum: "Pátria é a língua e a infância"

07.01.2009
 
Pages: 12
Milton Hatoum: "Pátria é a língua e a infância"

Por Bruno Ribeiro

Milton Hatoum é o escritor brasileiro mais comentado do momento. Desde sua estréia - com o romance Relato de Um Certo Oriente (Cia. das Letras, 1989) - vem atraindo olhares atentos da crítica literária. Mas é com seu segundo livro - Dois Irmãos (Cia. das Letras, 2000) - que o autor amazonense, nascido em Manaus, começou a obter o reconhecimento do leitor comum. Filho de pai libanês e mãe brasileira, Hatoum combina em sua obra referências da cultura árabe e indígena. Partes do universo da infância do menino que não via TV e sonhava ser escritor por causa do avô, um contador de histórias que o remetia à um mundo mágico, mas real: a Amazônia.

Durante muitos anos, Milton Hatoum, 56, foi professor de Língua e Literatura Francesa na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Manaus. Porém, sentindo a necessidade de alavancar a carreira, mudou-se para São Paulo, onde achou a consagração definitiva com Cinzas do Norte (Cia. das Letras, 2005). Traduzido para várias línguas e comercializado em diversos países, o romance permitiu que o autor pudesse viver exclusivamente de sua literatura. Poucos no Brasil usufruem, atualmente, do reconhecimento e do prestígio de Hatoum. Conversei com o escritor na ocasião do lançamento de seu mais recente romance, Órfãos do Eldorado (Cia. das Letras, 2008), na Livraria Saraiva, em Campinas.

Bruno Ribeiro - Em uma entrevista, o senhor chegou a citar seu avô como o responsável por seu gosto pela literatura. De que maneira ele exerceu esta influência?

Milton Hatoum - Meu avô foi a biblioteca oral da minha infância. Meu primeiro livro lido, na verdade, foi um livro ouvido. Nunca conheci ninguém que contasse histórias tão bem como ele. Certamente a minha infância teria sido mais pobre sem meu avô. Eu estava na Espanha quando ele morreu e só então, quando soube de sua morte, me dei conta da importância que ele tinha sobre minha formação.

Como foi a sua infância em Manaus?

Tive a sorte de ter passado a infância em uma cidade onde não havia TV. Para quem quer escrever, para quem sonha em ser escritor, é uma vantagem imensa não ter TV em casa. Fui uma criança simples, como todas as crianças daquela região. Mas considero que minha infância foi muito rica. Tive a possibilidade de conviver com todo o tipo de gente e de cultura. De minha família ouvia histórias da Síria, do Líbano... Manaus era uma cidade que recebia muitos estrangeiros - sobretudo imigrantes árabes, judeus marroquinos, portugueses. Sem falar na forte tradição indígena. Tudo isso estimulou a minha imaginação.

É comum que seu nome apareça associado à cultura árabe no Brasil. O senhor se considera um escritor brasileiro?

Quanto a isso, deixe-me dizer uma coisa. No lançamento do meu primeiro romance nos Estados Unidos, colocaram um cartaz me apresentando como autor líbano-brasileiro. Comecei dizendo: 'Olha, isso não faz sentido no Brasil, vocês podem tirar isso aí'. Até o meu pai, que era libanês, se sentia brasileiro. Quando chegou ao Brasil, o pai quis que os filhos falassem português. Porque, para ele, a pátria era a língua. Eu diria mais: é a língua e a infância. Eu falo português e as recordações da minha infância são amazônicas. Só posso ser brasileiro.

Como sua família se integrou à cultura da Amazônia? Não houve um estranhamento inicial?

A partir do momento em que você deixa sua terra para tentar a vida em outro país, você tem que se adaptar. Ou você se integra à nova realidade ou você é engolido por ela. Meu pai se manteve fiel à religião árabe, mas sabia que não poderia exigir o mesmo dos filhos. Mas é impressionante a capacidade que tem o Brasil de absorver outras culturas e transformá-las. A Amazônia é onde isso acontece com mais ênfase. Lá os nativos continuam se casando com imigrantes há 500 anos, numa fusão absolutamente saudável de culturas. Nós já superamos a questão das imigrações há muito tempo. Essa questão que tanto incomoda a Europa e os Estados Unidos, nós já superamos. A gente não está preocupado se a mistura de um caboclo com um alemão vai dar certo. Nosso problema é outro.

E quais são os grandes problemas que o Brasil precisa resolver?

Todo mundo sabe quais são os problemas do Brasil: a favela, a violência, a saúde, a falta de escolaridade do povo, a corrupção das instituições... Enfim, as necessidades básicas que não são atendidas. Quando resolvermos estes problemas que tanto nos envergonham, você não tenha dúvidas, seremos uma grande nação. Porque estamos à frente do resto do mundo em uma série de coisas, como na miscigenação. Nos Estados Unidos, a mistura é tratada como choque de civilizações. Aqui a coisa é resolvida na cama ou no botequim. O milagre brasileiro, eu diria, é a assimilação muito rápida das imigrações, a diluição das origens e das identidades.

O senhor acredita que a sua literatura pode ter alguma responsabilidade política ou social?

Pages: 12

Loading. Please wait...

Fotos popular