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Uma vez, fomos radicais

06.02.2017
 
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Uma vez, fomos radicais

No seu poema "Nosso Tempo", Carlos Drummond de Andrade começa dizendo que "esse é tempo de partido, tempo de homens partidos" e termina lembrando: "tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas, enérgicas, comprimidas há tanto tempo perderam o sentido, apenas querem explodir".

O poeta certamente ficaria escandalizado vendo e ouvindo o que dizem os homens de hoje nos jornais, na televisão, no parlamento, quase todos incapazes de se posicionar radicalmente sobre questões que tem apenas dois lados.

Deveria ser "sim" ou "não" e você ouve "quem sabe", "vamos ver", "talvez".

Em nome da prudência, as pessoas não se posicionam, não assumem um lado.

Talvez apenas no futebol, ainda sobre um resquício dessa paixão por uma cor, por uma bandeira, embora em vez de Inter e grêmio você já ouça um Barcelona, um Manchester United ou Bayer de Munique.

Que eu lembre, não éramos assim na infância. Tínhamos posições definitivas , o que não impedia que pudéssemos mudá-las diante de argumentos racionais.

Era importante fazer uma escolha e nessa escolha nos afirmávamos como homens em formação: você não podia ser colorado ou gremista ao mesmo tempo; seu herói ou era Capitão Marvel ou o Super Homem. A Folha Esportiva nos ajudava nessas escolhas: sem nunca ter entrado no Prado, eu torcia para o Ganganeli Cunha contra o Armando Reina nas estatísticas do melhor jóquei e era fã do Bochófilo Navegantes no campeonato de bocha.

Algumas escolhas, percebemos depois que estavam equivocadas, como a do mocinho do faroeste contra os índios ou a dos americanos contra os mexicanos e então mudamos de lado.

A opção, as vezes, refletia a influência do nosso pai: eu era PTB, contra o PSD e a UDN.

Unanimidade surgia apenas no nosso relacionamento com as gurias. De insuportáveis e chatas, que não jogavam futebol, nem bolinha de gude, a partir de certo momento, elas se transformaram em objetivos de vida.

Salvo alguns comportamentos divergentes daqueles meninos que nossas mães diziam que eram apenas bem comportados e que nós, maldosamente, chamávamos de "frescos", quase ao mesmo tempo, todos nós passamos a sonhar com a possibilidade de chegar ao tesouro que, sabíamos que elas escondiam em seus santuários inexpugnáveis.

Fomos ensinados em casa, na escola e na igreja, que para entrar naqueles santuários, cujos nomes só poderiam ser pronunciados "a bocca chiusa", tínhamos que cumprir um longo ritual pela frente. Eu e quase todos meus amigos cumprimos esse trajeto, até podermos abrir a caixa de Pandora, muitas caixas, algumas surpreendentemente vazias.

 Em determinado momento da vida e diante de outras situações, muitos de nós foram mudando, por entender que estariam mais próximos de algum tipo de sucesso se não fossem tão radicais em suas opiniões e gostos.

Lembrando mais uma vez nosso poeta maior, nem todos aceitaram a sua sina: "Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sobra, disse: vai Carlos ser gauche na vida".

Poucos quiseram ser "gauches" e a maioria se transformou  nessas pessoas que hoje nos aconselham à moderação, a respeitar o politicamente correto, a esperar para ver para onde vai a corrente, antes de embarcar em alguma ideia.

Pelo que vejo e ouço, eles são a maioria e estão em toda a parte, principalmente na universidade, nos meios de comunicação e da política.

Proponho um teste para identificá-los, perguntando qual figura histórica que eles mais admiram: Galileu Galileu ou Giordano Bruno.

Os dois enfrentaram a ira do Santo Ofício da Igreja Católica em 1600. Galileu, fundamentalmente por ensinar que a Terra se movia em torno do Sol e Giordano Bruno por duvidar de alguns dogmas da Igreja. Galileu não só renegou sua ciência como afirmou na sua confissão:

"E eu juro que no futuro não direi nem asseverarei oralmente ou por escrito essas coisas nem aquelas que me forem similarmente suspeitas; e se eu ficar sabendo de algum herético, ou de um suspeito de heresia, eu irei denunciá-lo para este Santo Ofício, ou para o Inquisidor ou para o Ordinário do lugar onde eu estiver."

Segundo a lenda, depois de escrever sua confissão, e ser poupado da fogueira, Galileu teria murmurado "e pur si muove" (porém, ela se move).

Já Giordano Bruno se recusou a mudar o que havia escrito e ensinado e antes de ir para a fogueira, afirmou aos seus juízes: "vocês devem estar sentido mais medo ao pronunciar esta sentença, do que eu a ouvi-la"

 Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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