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Representações do Fascismo Ordinário

05.08.2009
 
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Representações do Fascismo Ordinário

A representação fílmica do nazifascismo foi realizada de ampla maneira pelo cinema e pela TV soviética. Os diversos tipos de produções audiovisuais que abordaram esta temática indicam que na URSS houve uma tradição cinematográfica e televisiva sobre este assunto.

Contudo, o costume variou bastante sendo diretamente influenciado pelo processo histórico, principalmente no que tange a relação dos soviéticos com o ocidente. A análise deste fenômeno é urgente para apreensão de aspectos da construção e reconstrução da identidade nacional soviética, pois segundo Hobsbawm (2008), as tradições inventadas: “visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição” (2008, p.9).

Na cinematografia soviética, os primeiros indícios de uma hostilidade com relação ao nazismo podem ser encontrados em Um Homem e Uma Câmera, URSS (1929). Neste filme de Dziga Vertov, pode-se verificar que na década de 20, mais especificamente nos seus últimos anos, já havia algum tipo de repugnância da população soviética com relação a esta ideologia que viria a se tornar hegemônica na Alemanha a partir da década de 30.

Ou seja, antes do nazismo se tornar hegemônico, enquanto modelo de organização social, a URSS já produzia obras de arte, que criticavam e hostilizavam a simbologia nazifascista. A cena deste filme, que retratou este tipo de abordagem, foi realizada de maneira muito rápida, mas bastante contundente, principalmente se levarmos em consideração a proposta cinematográfica de Vertov, que de maneira bastante reduzida pode ser representada através do binômio: cinema-verdade ou Kino-Pravda. A cena em questão foi realizada num parque de diversões, onde eram arremessados dardos em bonecos, cujos chapéus continham a suástica.

Nas décadas seguintes, diversos filmes e desenhos animados foram produzidos com o intuito de demonstrar a antipatia soviética ao nazifascismo. Arco-Íris, URSS (1943) foi um deles, dirigido por Mark Donskoy, este filme problematizou a questão da ocupação alemã na Ucrânia, então parte da URSS. Nesta película foram retratadas diversas atrocidades cometidas pelos Nazistas quando ocuparam este país. Um elemento muito interessante neste filme foi explicitado no enfoque do roteiro. Tal ênfase esteve centrada sobre como a elite política e militar dos ocupantes se comportou no cotidiano da ocupação. Esta película revela uma série de práticas sociais que podem ser descritas como panoramas micro-históricos e, particulares da ocupação. Que interligadas ao sentido da guerra e da ocupação revelam uma sordidez mórbida no trato da elite ocupante partidária do nazismo, principalmente, no que se refere à população nativa da Ucrânia e Bielo-Rússia.

A partir de esta breve análise descritiva observar-se, que a representação do nazismo foi bastante complexa do ponto de vista estético e teórico. Diversos filmes possuem similaridades e diferenças. Tal complexidade é oriunda das variadas lembranças sobre Segunda Guerra Mundial. A URSS se envolveu totalmente no conflito, todos os habitantes tornaram-se responsáveis por defender o país, o menor sinal de traição ou deserção era punido com fuzilamento. Portanto, é salutar que tenha havido uma diversidade filmográfica enorme de gêneros e estilos que retrataram esta relação de ocupante e resistente.

Ao fim da guerra o número de mortos na URSS, ultrapassou os 26 milhões. O país estava em frangalhos, à indústria de bens de consumo praticamente não existia, contudo o cinema não deixou de produzir sobre a Segunda Guerra. É bom salientar que a produção cultural soviética estava totalmente integrada à economia planificada e aos seus planos qüinqüenais (FEIGELSON, 2005, p. 5).

Neste trabalho já foram citados alguns elementos que provam o quanto a filmografia soviética se utilizou de referências hostis para representar o nazifascismo. Portanto, é verossímil afirmar que estas representações de caráter negativo fizeram parte da propaganda soviética em diversos períodos da sua história. Estúdios como: Mosfilm e Leninfilm direcionaram parte de sua produção neste sentido, pois tinham como orientação oficial consolidar no imaginário social uma hostilidade com relação aos símbolos provenientes da Alemanha hitlerista.

Este costume de representações esteve presente na tradição cinematográfica soviética. Portanto, as mesmas devem ser explicitadas para contribuir com o debate atual, acerca do revisionismo historiográfico, presente inclusive em resoluções da Assembléia Parlamentar da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (BANCROFT-HINCHEY, 2009). Esta revisão historiográfica tenta qualificar os comunistas como tão responsáveis pelo conflito quanto o nazistas, também tentam confundir o público geral comparando Hitler a Stalin. A tirania o dirigismo, o medo, os expurgos, o culto a personalidade e outros tipos de desvios cometidos pelo Stalinismo não devem ser esquecidos. Contudo, comparar o que aconteceu na URSS com a realidade Alemã da época, não se sustenta historicamente. Os processos foram diferentes, os crimes foram diferentes: “A televisão nos diz Hitler é como Stalin. A tarefa dos historiadores é demonstrar que Hitler é diferente de Stalin” (LEVI, 2009, p.54-55). Além do mais, isto é muito perigoso, pois escamoteia a singularidade teórica que estava por traz dos crimes nazistas: a superioridade racial.

Referências Bibliográficas

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