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O inferno são os outros

05.07.2017
 
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No inverno de 1956, a companhia teatral Tônia, Celi, Autran veio a Porto Alegre para apresentar três peças no Teatro São Pedro: o Panorama Visto da Ponte, de Arthur Miller; Otelo, o Mouro de Veneza, de Shakespeare e Entre Quatro Paredes, de Jean Paul Sartre.

Aos 18 anos, tive a felicidade de assistir as três peças, mas a recordação ainda hoje mais viva na memória é Entre Quatro Paredes (Huis Clos) que Sartre escrevera em 1944 e o italiano Adolfo Celi dirigia, com Tônia Carrero, Paulo Autran e Margarida Rey. Uma peça de um ato só, num cenário limpo, sem portas, nem janelas.

A montagem da versão brasileira da peça vinha envolvida em grande polêmica com a condenação da Igreja Católica, muito influente na época e também, surpreendentemente, do Partido Comunista.

Havia um silêncio total do público no velho teatro da Praça Matriz com aqueles diálogos que a Porto Alegre provinciana da época ainda não ouvira num palco.

Os três personagens morrem e chegam ao inferno, onde não existem demônios, ou melhor, eles serão os demônios que servirão para comprovar a tese de Sartre de que "o inferno são os outros.

Garcin (Paulo Autran) é um escritor que queria ser um herói, mas sabe que é apenas um covarde. Estelle (Tônia Carrero) é uma burguesa fútil, que matou o filho que teve com o amante e não admite sua culpa e Inês (Margarida Rey), é funcionária dos correios, lésbica e amargurada.

Eles estão condenados a conviver num jogo permanente de seduções e repulsas, numa sala sem espelhos, onde só podem ser vistos pelos olhos do outro, cada um procurando esconder suas fraquezas, espezinhando o outro e tentando aparentar o que sabe não ser.

O outro para Sartre é sempre um objeto e certamente, veio daí a resistência dos comunistas em aceitá-lo, embora pudesse se pensar que ele estivesse fazendo uma metáfora sobre uma sociedade capitalista.

Para Sartre toda a relação é um conflito, "uma vez que meu encontro com o outro gera uma perpétua disputa pelo lugar da objetivação. É como se o olhar do outro, ao me objetivar, me transformasse numa pedra e assim, como numa reação defensiva, resta a mim, transformá-lo em pedra, também .

Sessenta anos depois, nada parece indicar que a avaliação de Sartre sobre os outros tenha deixado de ser verdadeira.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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