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Brasil: Os anos vermelhos (1948-1954)

05.02.2008
 
Pages: 1234


No mesmo número do jornal Hoje, que anunciou a cassação das candidaturas de Pomar e Arruda, podia se ler um curioso artigo sob o sugestivo título de ''Eleição não resolve'' no qual se afirma: ''Toda a história da República mostra que cada parlamento escolhido nas farsas eleitorais montadas pelas classes dominantes é sempre, e invariavelmente, pior que o anterior. É claro portanto que os próximos parlamentos só podem ser piores do que os atuais.'' O fatalismo comunista era evidente.


Já em novembro de 1949 Maurício Grabóis, em editorial da revista Problemas, apresentou a principal justificativa para o não apoio dos comunistas a nenhum dos grupos políticos presentes no cenário político nacional, descartando qualquer possibilidade de alianças ''por cima'' com eles: ''O problema da sucessão presidencial não só não pode ser encarado como o centro da situação política nacional (...) embora seja um acontecimento interno, se situa hoje, fundamentalmente no quadro mundial não podendo ser encarada isolada da realidade internacional (...) nos dias de hoje no Brasil, não é possível a qualquer força política se situar fora da luta que se trava na arena política internacional entre as forças da democracia, lideradas pela URSS, e as forças do imperialismo, chefiada pelos monopólios ianques. Não há e nem é possível neutralidade nesta luta, não estar em um ou outro lado.''


Em setembro de 1950, Prestes lançou uma ''Carta Aberta'' na qual apresentava os ''candidatos populares'' para eleições proporcionais e conclamando o voto em branco para presidente da República. Para ele não seria através de eleições que os trabalhadores poderiam resolver os seus problemas fundamentais, para isso seria necessário uma solução revolucionária, expressa no Manifesto de Agosto. Assim, a intervenção dos comunistas no pleito ficou bastante abaixo de sua influência política real junto aos trabalhadores urbanos.


Apesar da conclamação de Prestes pelo voto em branco, Vargas ganhou a eleição com uma grande margem de votos sobre o segundo colocado. Em relação à expressiva votação conseguida por Vargas, os comunistas comentariam: ''Mesmo aquela parcela das massas que votou em Getúlio, na verdade, quis votar contra a fome e pela justiça social, contra a guerra e pela paz, contra o imperialismo e pela democracia (...) a votação dada a Getúlio deve-se principalmente ao fato de que ele se apresentou como candidato de oposição ao governo ditatorial de Dutra, ocultando o caráter reacionário de sua candidatura, com a máscara de uma descarada demagogia social e antiimperialista e das mais cínicas promessas''.


Os comunistas estavam certos em compreender, ainda que posteriormente, o conteúdo do voto popular dado a Getúlio. Mas, ao contrário das massas operárias, não conseguiram compreender as diferenças existentes entre o projeto político representado pelo governo anti-operário de Dutra e o do futuro governo ''trabalhista'' de Vargas. Os dois governos, para eles, seriam igualmente "governos de traição nacional, instrumentos servis nas mãos do imperialismo norte-americano".


Sectarismo e anti-intelectualismo


O sectarismo atingiu o seu auge no início da década de 1950. A avaliação do papel da pequena-burguesia e dos intelectuais na revolução anti-feudal e anti-imperialista era, no geral, passavam a ser bastante negativa. Em maio de 1951 Prestes afirmava: "Na esperança de fortalecer a sua propriedade, o pequeno burguês está sempre predisposto a aliar-se com as classes dominantes contra o proletariado". E, quanto aos intelectuais, Prestes não deixava por menos afirmando: "sobre os intelectuais pequeno-burgueses concentram o imperialismo e as classes dominantes todas as suas armas de corrupção e do suborno de que só se livram aqueles que (...) marcham para o proletariado e aceitam a sua direção política e ideológica. É rica a experiência brasileira (...) no sentido das traições dos intelectuais que, rebeldes hoje, vendem com maior ou menor facilidade seus ardores revolucionários em troca de posições bem remuneradas no aparelho estatal, na imprensa das classes dominantes, nas empresas imperialistas''.


Na verdade a cisão havia começado alguns anos antes. O grande conflito ocorreu em março de 1949 durante a eleição da diretoria da Associação Brasileira dos Escritores. A votação acabou em agressão física entre os delegados presentes. Os comunistas ganharam aquela votação, mas a entidade acabou se esvaziando e perdendo o seu caráter frentista. Era o início de um processo de radicalização e isolamento dos comunistas na área intelectual e artística. Desolado, o poeta Manuel Bandeira afirmaria: "Houve um tempo que vi com bons olhos os nossos comunistas. É que ainda não estava a par da política celerada deles. O episódio da ABDE me abriu os olhos. Hoje sou insultado por eles ao mesmo tempo em que sou tido como comunista por muita gente."


A imprensa comunista, por exemplo, previa que Érico Veríssimo "muito brevemente" terminaria "no fascismo puro e simples". Os intelectuais não comunistas, entre eles Antônio Cândido, eram chamados de "escória cultural da terra, (...) tarados, renegados, lumpens" e até mesmo "retardados mentais". Para ela, Carlos Drummond de Andrade seria um "anticomunista raivoso para quem a lealdade jamais constituiu uma pedra no meio do caminho". Sobre o poeta mineiro, autor de "Carta à Stalingrado", um "crítico" comunista afirmou:

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