Pravda.ru

Sociedade » Cultura

A “missão francesa” em pratos limpos

04.05.2008
 
Pages: 123
A “missão francesa” em pratos limpos

Adelto Gonçalves (*)

I

Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830) foi um pintor francês acadêmico que gostava de pintar paisagens, mas que, obrigado pelas circunstâncias, teve de compor quadros históricos e morar por cinco anos na acanhada e ingênua Rio de Janeiro do início do século 19, a uma época em que a cidade teve de se inventar a si mesma para receber uma corte que, se não se comparava em luxo e riqueza às das grandes nações européias, tinha lá os seus encantos.

Mas, ao contrário do que se lê numa historiografia mais antiga e oficialesca, nem Taunay nem os demais artistas franceses que o acompanharam na travessia pelo Atlântico, formando o que se convencionou chamar de “missão francesa”, vieram a convite do príncípe regente d.João (1767-1826). Vieram mesmo de oferecidos, liderados por Joachim Lebreton (1760-1819), secretário da classe de belas-artes do Instituto de França. Até porque d.João não seria tão parvo a ponto de chamar exatamente artistas que tanto haviam louvaminhado o inimigo francês, que em 1807 forçara a sua vinda para o Brasil.

É o que mostra Lilia Moritz Schwarcz (1957), professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), em seu novo livro, O sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de d.João, que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, com apresentação do poeta e africanista Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e ex-embaixador do Brasil em Portugal.

De fato, os artistas franceses que aportaram no Brasil em 1816 -- Taunay, entre eles --, depois de exaltar os feitos de Napoleão Bonaparte (1769-1821) e seu império, vinham descrentes nos destinos da Revolução e desapontados com as oportunidades profissionais que então se apresentavam em Paris. Fugiam, isso sim, da Restauração dos Bourbons, das guerras, das suas desavenças particulares e de uma França que não existia mais.

Vinham por iniciativa própria e dispostos a criar no Rio de Janeiro uma Academia igual à que já existia no México. E, naturalmente, de olho nas burras dos nobres portugueses e grandes comerciantes negreiros cariocas que pudessem pagar por sua arte. Mas só quando já estavam no Rio de Janeiro é que Antônio de Araújo e Azevedo (1754-1817), o conde da Barca, ministro de d.João, animou-se com a idéia de criar no país uma academia semelhante à francesa.

Considerado o membro mais importante do grupo, Taunay pensava mais alto e trazia na bagagem a intenção de se transformar em pintor do rei. Mas, ao contrário do que imaginavam, nem Taunay nem outros artistas que o acompanhavam, como Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e Grandjean de Montigny (1776-1850), tiveram vida fácil no Brasil. O que os arquivos mostram é que Taunay escreveu a d.João uma carta oferecendo seus serviços, fosse na qualidade de professor de desenho dos príncipes ou das princesas, fosse no cargo de conservador de seus quadros e estátuas.

Como era comum à época, o pintor humilhou-se e bajulou o quanto pôde o monarca que, como não dispunha de muitas opções, acabou por aceitar a oferta. E, assim, Taunay acabou contratado pelo prazo de seis anos com um vencimento de 800 mil réis, a mesma quantia de seu colega Debret. Mas não se pode dizer que tenha “feito a América”.

De fato, o destino seria bem diferente daquele que Taunay traçara para si antes de deixar a França: sem muito espaço na corte de d.João, o artista iria se refugiar numa propriedade que haveria de adquirir perto de uma cascata -- e que imortalizaria num de seus quadros -- na Floresta da Tijuca. E, mesmo depois da morte de Lebreton em 1819, nunca alcançou no Brasil uma posição de grande prestígio. Cinco anos depois, decidiu retornar a França, com a situação financeira bastante abalada. Morreu em 1830. Mas, a exemplo de Debret, deixaria muitos quadros sem os quais, hoje, conheceríamos bem menos costumes e aspectos do Brasil, principalmente, do Rio de Janeiro daquele tempo.

II

Diz a investigadora que o ato de misericórdia nas aspirações do grupo francês no Rio de Janeiro foi a criação da Academia Real de Belas Artes em 1820, cujos cargos principais os artistas franceses esperavam que lhes fossem destinados. Mas o pintor Henrique José da Silva (1772-1834) foi mais ágil e habilidoso nos conchavos de bastidores no paço real.

Segundo Lilia Moritz Schwarcz, Henrique da Silva era um “professor e artista português pouco conhecido, bastante desprezado pelos franceses e recém-chegado ao Brasil”, mas foi ele quem ficou com o cargo de diretor da Academia, com um ordenado um pouco superior ao de Taunay, nomeado lente de pintura de paisagem. Teria sido por causa dele que Taunay refez as malas de retorno a França.

Já o padre Luís Rafael Soyé (1760-1831), que também viera para o Rio de Janeiro depois da mudança da corte, ficaria como secretário da Academia e Escola Real, o que irritaria ainda mais os franceses. Debret, por exemplo, chamava os portugueses de “intrusos”, enquanto para os demais integrantes da nova escola os franceses é que eram “estrangeiros intrusos”. Para Debret, Henrique da Silva era “um pintor medíocre e pai de numerosa família” que “vegetava em Lisboa”.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular