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Luz na caverna de Saramago

04.02.2008
 
Pages: 123

Nem Maciel acusa Saramago de plágio, mas, isso sim, reconhece que “lendo, atentamente, o capítulo 4, páginas 41-49 de Todos os nomes, percebe-se que o Sr. José Saramago parafraseia sentença de Jung, substituindo complexo por decisões”. E apressa-se em reconhecerque A Caverna (2000), de Saramago, por mais que lembre o mito da caverna narrado por Platão no livro VII de A Republica, uma das mais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia em qualquer tempo para descrever a situação geral em que se encontra a humanidade, “a ele não pode ser igual, já que não é plágio, nem tampouco reles paráfrase”.

III

E ainda bem que é assim. Pois dessa maneira o nosso único Prêmio Nobel de Literatura surge como um autor moderno que soube, a par de preservar a tradição da Língua Portuguesa, modernizar o idioma, não só para abordar coisas modernas como antigas, mas sobretudo para escrever sintonizado com o pensamento contemporâneo, incorporando toda a contribuição extraliterária dos filósofos, dos cientistas, dos psicanalistas, enfim, dos pensadores em geral.

Ao levar a Língua Portuguesa ao reconhecimento mundial com a conquista do Nobel, Saramago, de certo modo, foi quem ensinou aos escritores mais jovens a dar o necessário salto para a linguagem moderna sem perder a raiz lusitana, ainda que em meio a parágrafos caudalosos, pontuação inusitada e “arabescos barrocos de digressões“, como bem observa Maciel. E isso serviu também para os escritores brasileiros e para todos aqueles que exercitam a literatura nos demais países de expressão portuguesa.

É de lembrar que na Espanha, em 1989, quando o galego Camilo José Cela (1916-2002) ganhou o Prêmio Nobel, ao contrário do que ocorreu em Portugal em 1998 em relação a Saramago, não foram poucos os que se rebelaram contra a decisão da Academia Sueca porque entendiam que deveria ser outro o escritor espanhol escolhido.

Não só porque Cela era um homem ligado ao pensamento conservador -- que lutara na Guerra Civil ao lado das forças nacionalistas --, o que lhe valia a má vontade dos críticos afinados com o pensamento de esquerda, mas porque, sobretudo, era “um grande escritor do século 19” que, embora de muitos méritos literários, não contribuíra para a renovação da língua espanhola, que não se atualizara.

Ou seja, embora tenha flertado com os experimentos joyceanos, não chegara à sociedade pós-industrial, à sociedade do pós-guerra, ao contrário de outros, como Juan Benet (1927) e Francisco Ayala (1906). E, portanto, era, praticamente, o último escritor de uma época que já se canonizara e não constituía o nome mais representativo do literatura espanhola do final do século 20. Sem contar que, agora aqui entre nós, era um galego renegado, que se bandeara para os lados de Castela, olhando com desprezo a cultura galaico-portuguesa.

Em outras palavras: seria como se no Brasil, nos anos 70 e 80, o Prêmio Nobel, em vez de contemplar Jorge Amado (1912-2001), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ou João Cabral de Melo Neto (1920-1999), sempre citados como possíveis candidatos, tivesse saído para Menotti de Picchia (1892-1988), que tivera a sua importância nas décadas de 20, 30 e 40, mas que estava esquecido e não mais despertava o interesse dos escritores (e leitores) mais jovens, pois representava uma geração anterior e uma outra maneira de se entender e ver a literatura.

IV

Em seu estudo, Maciel divide a obra de Saramago em três fases: a primeira, de 1947 (Terra do pecado) a 1979 (A noite), batizada pela crítica como seu “período formativo”; a segunda iniciada em 1980, com Levantado do chão e que vai até 1991, com O Evangelho segundo Jesus Cristo, que avança sobre fronteiras nem sempre nítidas entre a história e a ficção e, finalmente, a terceira, de 1995 (Ensaio sobre a cegueira) até ao mais recente romance, Intermitências da morte, publicado em 2005, “caracterizada pela intemporalidade ou universalidade das fábulas alegóricas”.

Maciel, porém, concentra-se mesmo na trilogia ontológica formada por Todos os nomes, A caverna e O homem duplicado. E, para abrandar a sisudez acadêmica, tenta, à la Saramago, dar ao ensaio uma forma de ficção. O resultado disto é um texto não só criativo como descontraído, que jorra luz sobre as personagens um tanto obscuras e complexas de Saramago, fazendo ao contrário a viagem imaginada por Platão: assim, em vez de trazer o habitante da caverna platônica para o mundo de fora, totalmente oposto ao do subterrâneo em que fora criado, é a luz que entra na caverna e vai ao seu encontro, desvendando reentrâncias do pensamento saramaguiano.

V

Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, com 17 livros publicados e duas dezenas de prêmios, Maciel atua na docência, pesquisa e orientação com ênfase no Classicismo, no Barroco, no Realismo e no Teatro Português.

Entre os seus últimos livros, estão: Ó Luís, vais de Camões? (Jundiaí-SP, Reis Editorial, 2000); Fialho de Almeida: o mundo fora dos eixos (Cotia-SP), Íbis, 2000), organizador com J.B.Medeiros; Fernando Pessoa(s) de um drama (Jundiaí-SP, Reis Editorial, 1999); Antônio José da Silva, o Judeu: textos versus (con)textos (Cotia-SP, Íbis, 1998), organizador com Flávia Maria Corradin; Um trovador na berlinda: as cantigas de amigo de Nuno Fernandez Torneol (Cotia-SP, Íbis, 1998), organizador com Paulo Roberto Sodré; e Palimpsestos: uma história intertextual da literatura portuguesa (Santiago deCompostela-Galiza: Edicións Laiovento, 1997); A caixa de Pandora: aquela que nos coube (Cotia-SP, Íbis, 1996); e Concerto barroco às óperas do Judeu (São Paulo, Perspectiva e Edusp, 1992).

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