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Luz na caverna de Saramago

04.02.2008
 
Pages: 123
Luz na caverna de Saramago

Adelto Gonçalves (*)

I

José Saramago (1922), Prêmio Nobel de Literatura de 1998, aliás o único da Língua Portuguesa, só por isso, deveria ser um nome acima de qualquer crítica. Mas não é assim. E ainda bem. Porque, afinal, como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), toda unanimidade é burra. Mas, por isso mesmo, o que se dá em relação a Saramago é que os críticos sempre olham a sua obra com excessivo respeito e, quando criticam qualquer uma de suas facetas, o fazem depois rasgados elogios e reconhecimentos, ou seja, “dão uma no cravo e outra na ferradura, mordem e assopram”.

É o que diz Francisco Maciel Silveira (1947), professor catedrático de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo, logo na abertura do livro Saramago: Eu-próprio, o Outro?, publicado em edição limitada de 500 exemplares pelo Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro em coleção coordenada pelo professor António Manuel Ferreira. Maciel, por sua vez, passa ao largo desse comportamento dúbio, deixando claro que não perfilha as hostes dos fãs incondicionais de José Saramago, o que não significa que não lhe possa reconhecer os méritos.

Como se sabe, numa carreira que ultrapassou as seis décadas, iniciada em 1947 com o romance Terra do pecado e ainda em progressão -- cujo último fruto é As pequenas memórias (2006) --, o autor já experimentou a crônica, o teatro, o romance, o ensaio, a poesia, a literatura de viagens, os artigos de opinião e a autobiografia, o que significa que, praticamente, não há gênero em que não tenha incursionado. E quase sempre com invejável êxito de vendas, especialmente depois de Levantado do chão (1982), que marcou a ascensão de sua carreira literária.

Mas foi só depois de 1998, com a obtenção do Prêmio Nobel, que as críticas começaram a surgir com maior contundência. Como se o autor, depois da consagração, estivesse obrigado a publicar uma obra-prima a cada dois anos. É de lembrar que a querela de Saramago com António Lobo Antunes, a quem também não ficaria mal o Nobel, à época da conquista do prêmio, deixou claro que os caminhos até a decisão final da Academia Sueca passam por muitas injunções políticas que pouco têm em conta qualidades literárias.

II

Seja como for, a verdade é que todo autor que vende muito é sempre visto com desconfiança. Das duas, uma: ou a capacidade crítica do leitor não é das mais apuradas ou o seu talento foi prostituído a fim de que, descendo ao nível das massas ignaras, pudesse fazer crescer os números das contas bancárias de seu editor e de si mesmo. É claro que isso não passa de um preconceito, embora possamos alinhar aqui vários autores de best sellers que praticam a chamada para-literatura e não têm do que se arrepender, pelo menos do ponto de vista financeiro, embora nunca tenham recebido um elogio sincero da crítica acadêmica.

Não é esse, obviamente, o caso de José Saramago. Seu talento é indiscutível, o que, porém, não quer dizer que tudo o que produza só mereça elogios. Partindo desse princípio, Maciel, em textos bem-humorados, escarafuncha o pensamento saramaguiano, mostrando que boa parte do que o autor escreveu, por exemplo, em Todos os nomes (1997) e O homem duplicado (2002) já estava em Carl Gustav Jung (1875-1961). É claro que as frases não foram tiradas ipsis litteris de Jung -- nem isso ficaria bem a um Prêmio Nobel --, mas, visivelmente, o autor parafraseia sentenças junguianas, praticando aquilo que se convencionou chamar de intertextualidade.

Maciel lembra uma frase que consta de Todos os nomes: “Em rigor, não tomamos as decisões, são as decisões que nos tomam a nós”. E a compara com esta que consta de Jung -- vida e obra, de Nise da Silveira (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981, p. 35): “A verdade é que não somos nós que temos o complexo, o complexo é que nos tem, que nos possui”.

Seria isto um pecado? Se o foi em outros tempos, já não o é agora, como não era do século 14 ao 18 em que os poetas copiavam uns aos outros, sem que tivessem em conta a questão de direitos autorais, idéia que se afirmaria já no século 19. Foi o que fizeram, por exemplo, Geoffrey Chaucer (c.1343-1400), cuja poesia é traduzida ou parafraseada de outros, William Shakespeare (1564-1616), cujas peças seguem às vezes suas fontes quase literalmente, e John Milton (c.1562-1647), que não fez outra coisa na vida a não ser furtar a Bíblia tanto quanto possível.

E, antes que salte alguém de uma imaginária platéia para acusar este articulista de reles plagiador, é preciso que se diga que foi o crítico Northrop Frye (1912-1991) quem fez estas observações em Anatomia da crítica (1957), antes de acrescentar que se quem é plagiado (ou parafraseado) já é morto, a discussão deixa de existir, pois, nesse caso, a demonstração da dívida de um autor com outro anterior deixa de ser delinquência moral para ser simplesmente erudição.

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