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Fernando Pessoa e os modernistas anglo-americanos

03.12.2008
 
Pages: 12
Fernando Pessoa e os modernistas anglo-americanos

O que aproxima Fernando Pessoa (1888-1935) do poeta norte-americano Hart Crane (1899-1932)? Como ambos são herdeiros legítimos de Walt Whitman (1819-1892), obrigam-nos a olhar a tradição poética ocidental como uma tradição de cruzamentos atlânticos e referências mútuas. É o que defende em Poetas do Atlântico: Fernando Pessoa e o modernismo anglo-americano (Belo Horizonte, Editora UFMG, 2007) a ensaísta Irene Ramalho Santos, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e professora visitante de Literatura Comparada da Wisconsin University, Madison, EUA.

Adelto Gonçalves (*)

I

Escrito originalmente em inglês e publicado pela University Press of New England em 2003, este livro parte do pensamento do norte-americano Harold Bloom (1930), o crítico literário mais famoso do mundo e professor da Yale University, autor de O Cânone Ocidental (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1995, tradução de Marcos Santarrita), que investiga alguns expoentes da literatura ocidental, como Shakespeare (1564-1616), Joyce (1882-1941), Beckett (1906-1989), Proust (1871-1922), Neruda (1904-1973), Borges (1899-1986) e o dramaturgo contemporâneo Tony Kushner (1956) e é considerado uma obra-prima pela crítica especializada.

Segundo a autora, a gênese de Poetas do Atlântico deve ser procurada nos seminários de poesia e poética que Bloom deu na década de 1970 em Yale aos quais ela teve oportunidade de assistir. O próprio Bloom avaliza esta obra com um prefácio curto, mas altamente esclarecedor, considerando magnífica a visão atlântica de Pessoa apresentada por Irene Santos, sem, porém, deixar de localizar o centro dessa visão em Álvaro de Campos, heterônimo “que é Walt Whitman renascido em Pessoa”.

Para Irene Santos, Poetas do Atlântico parte também do princípio teórico de que não há literatura, mas apenas inter-literatura, e de que não há cultura, mas apenas inter-cultura. “Olhando a teoria da intertextualidade bloomiana do ponto de vista da cultura, este livro parte igualmente do princípio de que não há poesia, só inter-poesia”, diz, ao justificar que os poemas “Mensagem”, de Pessoa, e “The Bridge”, de Crane, “reinventam o sistema mundial de que as duas nações são parte”.

II

Como aponta Irene Santos, há entre os poemas “Mensagem” e “The Bridge” notáveis semelhanças de inspiração, concepção e execução, embora os dois poetas, ainda que contemporâneos, provavelmente, nunca tenham ouvido falar um do outro. Mas há outras afinidades entre os dois. Ambos se envolveram com as vanguardas poéticas das primeiras décadas do século XX, viveram sempre isolados, dedicados integralmente ao desenvolvimento de sua obra, e alimentaram objetivos ambiciosos, resultado de uma fé desmedida em seu próprio talento e fazer poético.

O poeta lírico norte-americano Hart Crane é, praticamente, desconhecido no Brasil. Seu poema “Louvor para uma urna” foi traduzido primeiro por Oswaldino Marques (1916-2003) e, depois, por Augusto de Campos (1931) e Bruno Tolentino (1940-2007), tendo-se tornado mais motivo de affaire do que propriamente uma discussão proveitosa na divulgação de sua poética, como diz Eric Ponty (1968) no ensaio “Contemplação do urbano: ensaio sobre a poesia de Hart Crane”, que pode ser lido na Internet (www.paginas.terra.com.br/arte/PopBox/hcrane.htm - 29k). Nesse ensaio, Ponty apresenta algumas estrofes dos mais importantes poemas de Crane, traduzidas por ele mesmo.

Crane, diga-se de passagem, nasceu em Garrettsville, Ohio, mas teve de morar com a avó materna em Cleveland de 1909 até o divórcio dos pais em 1916, quando deixou a escola secundária e foi para a cidade de Nova York, onde encontrou estímulo para a atividade literária. Finalmente, em 1921, separou-se do pai. Por essa época, escrever poesia passou a ser seu principal objetivo. Sempre encontrou dificuldades para viver da literatura e até mesmo para sobreviver, lutando contra fases de depressão em que se entregava ao alcoolismo.

Da vida de Fernando Pessoa, não é preciso dizer muito porque é excessivamente conhecida, ao menos entre os leitores de língua portuguesa. E apresenta situações semelhantes. Só se deve acrescentar, até porque é uma aproximação a mais, que sua formação inicial foi em Durban, na África do Sul, o que lhe deu íntimo contato com a língua e cultura inglesas, levando-o até a versejar nesse idioma. Mas, acima de tudo, o que marca esses dois poetas é que são herdeiros da tradição romântica anglo-americana, em que Whitman é figura central.

Obviamente, não há muito que comparar entre o pequeno Portugal e o gigantesco país da América do Norte, mas não se pode deixar de estabelecer uma relação entre ambos como nações imperialistas, ainda que as diferenças sejam gritantes. Na verdade, o imperialismo português sempre foi um imperialismo de pobres, na definição do pensador luso Eduardo Lourenço (1923) em O Labirinto da Saudade , mas serviu para que poetas como Camões (c.1524-1580) e pensadores como o padre jesuíta António Vieira (1608-1697) hiperbolizassem as “descobertas”, considerando-as como resultado de um período de fausto e da ação de uma potência pretensamente rica e poderosa. Portugal fez tudo isso sem nunca ter sido potência e sempre na iminência de sua absorção por um vizinho mais poderoso, Castela, o que, finalmente, deu-se em 1580, depois do desastre na batalha de Alcácer Quibir, em agosto de 1578.

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