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Os limites da revolução

03.11.2017
 
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Os limites da revolução

Renato Russo, em sua música Eduardo e Mônica, de 1986, conta a história de um casal, Monica, que "gostava do Bandeira e do Bauhaus. De Van Gogh e dos Mutantes. Do Caetano e de Rimbaud", e de Eduardo, "que gostava de novela. E jogava futebol-de-botão com seu avô".

Você lembra o que Mônica pretendia fazer no dia em que encontrou Eduardo?

Ela queria ver um filme de Godard.

Para a geração intelectualizada que surgiu no mundo inteiro, e no Brasil, a partir dos acontecimentos de 1968, na França, Jean-Luc Godard (1930) passou a ser um símbolo de uma rebeldia contra todos os valores constituídos, da polícia aos relacionamentos pessoais.

Agora, o diretor francês Michel Hazanavicius, que ficou famoso em 2012 ao ganhar o Oscar com seu filme mudo e em preto e branco, O Artista, conta um pedaço da vida de Godard, em seu filme O Formidável (Le Redoutable), exatamente o período em que, após a realização do filme A Chinesa (La Chinoise), ele dá uma virada em sua vida profissional.

Junto com Truffaut, Godard se tornara num dos principais nomes da chamada Nouvelle Vague Francesa ao dirigir, a partir de 1959, filmes como O Acossado (A Bout de Souffle), com Jean Paul Belmondo, Viver a Vida, (Vivre sa Vie), com Anna Karina, O Desprezo (Le Mépris), com Brigitte Bardot, O Demônio das 11 Horas (Pierrot le Fou) com Jean Paul Belmondo) e Alphaville, com Eddie Constantine, até que em 1967, profundamente influenciado pela Revolução Cultural Chinesa (1966/69) de Mao Tse Tung, passa a denunciar todas as formas tradicionais do cinema como burguesas, ao mesmo tempo em que inicia uma relação com Anne Karina, protagonista do fil me.

O filme O Formidável, a partir de um relato de Anne sobre esse período atribulado da vida de Godard, nos coloca diante da grande questão que sempre assombrou os revolucionários: até que ponto uma mudança radical nas macro relações políticas e econômicas devem se refletir nas artes e mais do que isso nas relações inter pessoais?

Nas análises que fazem das relações de classe na segunda metade do século XX, tanto Alan Badiou, quanto Slavoj Zizek, atribuem ao Maio de 68 em Paris e à Revolução Cultural da China a condição de grandes eventos, porque questionaram de forma radical, tanto a organização burguesa da sociedade  (na França), quanto os resquícios dessa organização do passado na nova sociedade socialista (China).

Outro grande revolucionário - Lenin - dizia que após a revolução socialista, levaria ainda muito tempo para que as formas de organização que a burguesia havia implantado no mundo durante os séculos de sua dominação, desaparecessem e que seus valores continuariam vigorando na nova sociedade na forma de valores pessoais.

Godard não aceita isso e passa a denunciar todas as formas em que a organização burguesa possa ser vista na sua atividade pessoal, a criação e produção de filmes.

Isso o coloca em choque não apenas com outros diretores de cinema (no filme,são mostrados seus rompimentos com Bernardo Bertolucci, o diretor e O Inconformista e Último Tango em Paris e Marco Ferreri, diretor de A Comilança) como também com as principais instituições francesas, do Governo, ao Partido Comunista e ao Festival de Cannes.

Pena que o filme de Hazanavicius se concentre mais, em como essas questões interferem nas relações amorosas com Anne, do que com a análise de uma questão mais crucial: os limites da revolução.

Apenas em um momento, ainda que rapidamente, ele discute a questão, quando relata as filmagens de O Vento do Leste (um faroeste que tenta contar uma história sobre o ponto de vista dos índios), com roteiro de Daniel com Bendit ( o famoso dirigente do Movimento de 68) em que Godard pretende por em prática a sua ideia de um roteiro com as cenas discutidas previamente entre todos os participantes do filme, do diretor, aos atores e aos técnicos.

Incomodado ao ver que suas idéias não são aceitas pelo grupo, ele levanta a grande questão: em qualquer forma de sociedade, o cinema tem uma linguagem própria que deve ser respeitada.

O filme O Formidável é um corte na longa vida de Godard e para os espectadores termina com o fim do seu relacionamento com Anna Karina.

Na realidade, Godard continuou filmando, obcecado pelas idéias do chamado "cinema olho" do russo Dziga Vertov, de que a câmara deve fazer um registro frio da realidade sem interferir nela.

Ainda assim, em 1984, ele foi capaz de dirigir outro filme que se transformou num escândalo mundial, Eu Vos Saúdo Maria (Je vou Salou Marie), ao recontar, sob um novo olhar, a história bíblica de Maria e José.

Durante o governo Sarney, o filme foi proibido no Brasil.

Recentemente (2010) Godard fez um filme experimental em 3D, Adeus à Linguagem, em que um homem e uma mulher discutem questões existenciais e filosóficas, observados apenas por um cachorro, discussão entremeada por imagens de arquivo que ilustram os assuntos.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS.

 


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