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Os mistérios de Barcelona

03.09.2007
 
Pages: 12
Os mistérios de Barcelona

Adelto Gonçalves (*)

Em março, Barcelona surpreendeu-se com o lançamento do romance La ciudad sin tiempo, de Enrique Moriel. Em poucos meses, o livro vendeu cerca de 60 mil exemplares. E quem era Enrique Moriel? Na sobrecapa do livro, a editora informava que Moriel havia nascido no século passado em Barcelona e era autor de reconhecida trajetória, que havia cultivado os mais diversos gêneros literários. E que, a exemplo do protagonista de La ciudad sin tiempo, havia preferido ocultar sua verdadeira identidade, mas que, à diferença daquele, não pretendia fazê-lo indefinidamente.

Logo, os meios culturais da cidade descobriram que se tratava de um veterano escritor disfarçado atrás de um pseudônimo. Francisco González Ledesma (1927) era esse escritor, um jornalista que começara a escrever romances de Far West para Editorial Bruguera com o pseudônimo Silver Kane ainda na década de 40, para custear seus estudos de Direito. E que havia construído uma respeitável carreira literária ligada ao gênero policial, ou melhor, ao “romance negro”, à boa maneira norte-americana, dividindo a preferência entre os amantes do gênero com Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003) e Eduardo Mendoza (1943).

A exemplo de Montalbán com seu detetive privado Pepe Carvalho e Mendoza com o seu detetive-louco, Ledesma criou o comissário Ricardo Méndez, protagonista de seis de seus romances negros, policial capaz de usar apenas o tirocínio para desvendar crimes aparentemente insolúveis ou grandes falcatruas no mundo das altas finanças. Acostumado a escrever de um jato desde jovem, quando para cumprir um exíguo prazo de uma semana ou pouco mais ajudava a editora a aproveitar a sofreguidão com que os leitores espanhóis do final da década de 40 acorriam às bancas de revistas e livrarias em busca daqueles livrinhos de bolso, Ledesma nem por isso sacrificou a qualidade literária. Tanto que, aos 21 anos de idade, ganhou o Premio Internacional de Novela com Sombras viejas.

Formado em Direito, dedicou-se primeiro à advocacia, mas, depois, optou mesmo pelo jornalismo, dando vazão à sua vocação. Trabalhou em jornais como o Correo Catalán e, em seguida, no tradicional diário La Vanguardia, onde ficou por 25 anos e chegou a redator-chefe. Ambas as profissões acabaram por lhe proporcionar um conhecimento profundo de Barcelona, de seus segredos, suas personagens, suas ruas, edifícios, seus políticos e seu mundo empresarial.

Em 1977, publicou Los napoleones, romance que fora proibido pela censura do regime do general Francisco Franco Bahamonde (1892-1975). E, à época de transição do franquismo para a democracia, quando a Espanha não deixou de flertar com o retrocesso político, ganhou em 1984 o Prêmio Planeta com Crônica sentimental en rojo, em que Méndez aparece como protagonista.

Tendo o comissário ainda como personagem principal, escreveu mais cinco romances: Expediente Barcelona (1983), Las calles de nuestros padres (1984), La dama de Cachemira (1986), Historia de Dios en una esquina (1991) e El pecado o algo parecido (2002), além de Historia de mis calles (2006). Expediente Barcelona foi traduzido para o francês e publicado pela famosa Editora Gallimard, de Paris, conquistando um êxito na França considerado mais estrondoso do que aquele que registrara na Espanha

Com um currículo desses, obviamente, Ledesma não tinha por que se esconder atrás de um pseudônimo. Mas, por alguma razão, deixou que o editor inventasse Enrique Moriel como autor de La ciudad sin tiempo, talvez por uma questão de marketing – o que, de certo modo, foi uma opção vitoriosa porque ajudou a chamar mais atenção para o livro – ou por que não queria que sua nova obra fosse confundida com o gênero policial. Até porque La ciudad sin tiempo, embora tenha traços de “romance negro” e trate de uma investigação que começa a partir da misteriosa morte de Guillermo Clavé, destacado prócer da sociedade barcelonesa atual, vai muito além dos limites em que, habitualmente, os críticos enquadram o gênero.

Seja o que for, a verdade é que Ledesma aprovou o pseudônimo, artifício a que, a rigor, já estava bastante acostumado, diga-se de passagem. Seu novo romance também remete o leitor para essa época, pois diz que concebeu sua trama há mais de trinta anos, quando escrevia novelas de aventuras proibidas pela censura. De fato, o romance trai um pouco o gosto desse tempo, quando o realismo mágico começou a se formar como gênero literário, alcançando o ápice em 1967 com o lançamento de Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez (1928).

Afinal, em La ciudad sin tiempo, o que o leitor vai encontrar é a história de um vampiro que, como tal, não morre nunca e, por isso, conhece a fundo os mistérios que cercam Barcelona desde os tempos medievais, suas personagens duvidosas, os segredos de seu submundo, os cafés, os prostíbulos, os políticos e até os verdugos. Em resumo, conta a história de Marta Vives, jovem ajudante do advogado Marcos Solana, que, habituado a defender os interesses das famílias mais ricas da cidade, trabalha no esclarecimento da morte de Clavé.

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