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Niilismo e uma nova era

03.06.2019
 
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Niilismo e uma nova era


por Fernando Soares Campos(*)


Por que nas últimas décadas do século passado falavam tanto sobre o fim de tanta coisa, como, por exemplo, o fim da História, o fim das ideologias, o fim das religiões, o fim do emprego e até o fim do mundo? Certamente porque o simbolismo da entrada do novo milênio era bastante apropriado para se estabelecer o início de uma "nova era".

Mas... a quem interessa um "novo mundo" a partir de uma virtual hecatombe global da esperança? Quem quer mesmo o aniquilamento de práticas religiosas (progressistas ou conservadoras, se forem evangelizadoras; mantendo-se apenas um arremedo de "religião mercantilista")? Quais os interesses de quem decreta o fracasso de experiências sociais que, na verdade, vêm mesmo é gradativamente se aperfeiçoando? Que "novideologia" é essa que nega a autenticidade de conceitos ideológicos formulados através do debate filosófico ao longo dos séculos?

Provavelmente tudo isso interessa a quem manipula a verdade dos fatos históricos e a realidade contemporânea, a fim de manter o domínio sobre os destinos da Humanidade.

E como fazê-lo?

Certamente os mais eficientes instrumentos são as mídias de massa (mass media).

Organizações oligopolizadas controlam as tecnologias mais populares, manipulam a informação criando para o seu público ilusórias visões da realidade; massificam o pensamento único em função do individualismo: o perigo mora ao lado, o inferno são os outros, dormindo com o inimigo, entre a cruz e a espada, salve-se quem puder, primeiro eu, depois eu, em seguida eu... Não é propriamente o egoísmo sendo revelado como sentimento dominante na natureza humana, mas sim o terror obrigando o indivíduo a manifestá-lo com maior intensidade do que os sentimentos nobres, que, por sua vez, passam a ser considerados atitudes ingênuas, próprias dos parvos.

Nessa inversão de valores, existem aqueles que, em raras ocasiões, praticam o altruísmo, a abnegação, o desapego, a renúncia, o sacrifico voluntário... mas tratam de justificar suas atitudes, como se estivessem se desculpando por terem cometido deslizes: "Não me segurei, aquilo amoleceu meu coração!", "Nem sei por que estou lhe dando uma segunda chance...", "Pegue logo, antes que eu me arrependa!", "Perdoo, mas não esqueço!" (querendo dizer que a mágoa permanece latente),

 

Emancipação do indivíduo e terceirização de mão de obra e serviços



Nos primeiros momentos da popularização da Rede Mundial de Computadores, a Web, que tem como base a Internet, muito se falava (e ainda se insiste em afirmar) que o emprego formal estaria em extinção, que a tendência seria o empreendedorismo, a implementação de projetos individuais de geração de renda por produtividade, comissão, contrato temporário, consultoria, freelancer etc.; o autoemprego, o indivíduo como agente do seu próprio negócio, autônomo, profissional liberal, nas mais diversas atividades, desde engenheiros e técnicos a torneiros mecânicos, pintores, polidores e tantos outros menos qualificados. Tudo isso baseado no avanço das novas tecnologias da informática e robotização das linhas de produção.

Viver sem patrão, sem a monótona rotina de trabalho sob autoritárias chefias, também sem o caos estressante dos congestionamentos de trânsito ou as filas e superlotação dos transportes coletivos, talvez seja isso que chamam de "emancipação do indivíduo"; entretanto, já podemos observar que essa promessa não passa de um "salve-se quem puder".

Na verdade, tudo isso está relacionado com o declínio do capitalismo e a incontrolável e permanente crise econômica mundial, que revela o fracasso do modelo neoliberal, com a priorização e incremento da prática do rentismo, agiotagem e investimentos especulativos em geral. Tudo isso provocou, em alguns países do chamado Primeiro Mundo, um extremo desequilíbrio nos setores básicos da economia: primário, secundário e terciário.

Nesses países os setores primário (atividades agrícolas, pecuárias e extrativistas) e secundário (indústria de transformação) foram relegados a plano inferior, negligenciados pelos órgãos de planejamento e desenvolvimento, os quais dedicaram todo empenho em estruturar uma sociedade fundada nas atividades econômicas próprias do setor terciário: comércio, educação, saúde, segurança, telecomunicações, turismo, serviços de informática, transporte, limpeza, alimentação, serviços bancários, administrativos etc. 

Vejamos este depoimento:

Ao contrário do setor manufatureiro, o capital financeiro não necessita de uma população de trabalhadores educados, saudáveis e produtivos. A sua própria "força de trabalho" é composta de uma pequena elite educada de especuladores, analistas, traders e corretores nos níveis de topo e médios e de um pequeno exército de varredores de escritório contratados, secretárias e trabalhadores subalternos na base. Eles têm o seu próprio exército "invisível" de servidores domésticos, cozinheiros, fornecedores de comida, jardineiros e governantes privados de qualquer "Segurança Social", cobertura de saúde e planos de pensão. E o setor financeiro tem as suas próprias redes de médicos e clínicas, escolas, sistemas de comunicações e mensageiros, propriedades e clubes, agências de segurança e guardas pessoais; ele não necessita um sector público educado e qualificado; e certamente não quer que a riqueza nacional apoie sistemas públicos de alta qualidade em saúde e educação. Ele não tem interesse em apoiar estas instituições públicas de massa que considera como um obstáculo para "libertar" vastas quantias de riqueza pública para a especulação. Por outras palavras, o setor dominante do capital não tem objeções ao "Homeland Security"[Ministério da Segurança Interna]; na verdade partilha muitos sentimentos com os proponentes do estado policial e apoia a contração do estado de bem-estar social. Ele está preocupado é com a redução de impostos sobre o capital financeiro e o aumento dos fundos de salvamento federais para a Wall Street enquanto controla a cidadania empobrecida." (James Petras, em A Grande Transformação dos EUA: "De Estado-Previdência em Estado-Policial-Imperial".)

Oficiais superiores das Forças Armadas dos EUA e civis que ocuparam cargos no primeiro escalão do governo daquele país são hoje diretores executivos de grandes empresas privadas de segurança, formam e realizam fortíssimos lobbies que influenciam congressistas, ministros e governantes, também exercem poder junto a empresas midiáticas (presstitutes, como hoje são chamadas), de tal forma que são atendidos em quase tudo que propõem: criação de novas agências e legislações específicas (em alguns casos, inconstitucionais), determinam público alvo e inimigos em potencial, trabalham para a iniciativa privada (bancos, petroleiras, e corporações com interesses diversos) fazendo tráfico de influencia e usando todo o poder que detêm no âmbito do Estado, inclusive informações de inteligência ultrassecreta. 

Ainda sobre A Grande Transformação dos EUA: "De Estado-Previdência em Estado-Policial-Imperial, diz James Petras:

"Não houve virtualmente qualquer oposição dos trabalhadores: a conversão gradual dos sindicatos dos EUA em organizações altamente autoritárias dirigidas por "líderes" milionários que se auto-perpetuavam e a redução do número de sindicalizados dos 30% da força de trabalho em 1950 para menos de 11% em 2012 (com mais de 91% dos trabalhadores do setor privado sem qualquer representação sindical) significou que os trabalhadores americanos ficaram com menos poderes para organizar greves a fim de proteger seus empregos, muito menos para aplicar pressão política em defesa de programas públicos e do bem-estar."

 

(*) Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade ─ contos para meditar e rir... ou chorar", Chiado Editora, Portugal, 2018.   

 


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