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Maura Lopes Cançado, entre uniformes azuis e jalecos brancos

03.01.2016
 
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Uma escritora vivendo na cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos. Ou ainda, uma mulher sem futuro - mas uma grande promessa. A mineira Maura Lopes Cançado volta às livrarias com uma nova edição publicada pela Autêntica.

"O medo de estar só me levaria a morar com os mortos"

- MLC, a propósito de sua auto-internação.


Uma escritora vivendo na cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos. Ou ainda, uma mulher sem futuro - mas uma grande promessa. A mineira Maura Lopes Cançado volta às livrarias com uma nova edição publicada pela Autêntica. Até então acessível apenas a um seleto grupo de leitores, os seus livros custavam em sebos valores que iam de 300 a 800 reais. Os dois livros vendidos em box compõem a sua obra como memorialista e contista.

As duas publicações, "Hospício é Deus" (1965) e "O sofredor do ver" (1968), constroem um grande ensaio sobre a loucura. O primeiro deles, um diário escrito no fim dos anos cinquenta, de dentro da instituição onde a autora esteve internada, narra uma série de abusos. Violência de funcionários contra pacientes, abandono, pessoas de classes sociais que iam das mais altas às mais baixas, Maura descrevia tudo, nos detalhes mais pequenos que seus olhos negros e atentos lhe permitiam enxergar. Era uma forma de sentir-se viva, até mesmo de encontrar razão dentro de si, de se distinguir dos demais enquanto loucos. Em várias passagens, MLC faz questão de dizer que não era apenas uma paciente qualquer - era Maura Lopes Cançado, escritora, parte do Jornal do Brasil. Certamente, as enfermeiras não sabiam com quem estavam lidando, escreveu. Lá fora, onde Maura não sabia viver, sentia-se só; o medo da solidão lhe levaria a morar com os mortos. E assim fez, internando-se por vontade própria. Era a necessidade de fugir para algum lugar, algo aparentemente fora do mundo.

No segundo livro, com alguns de seus contos publicados no JB, Maura não foge à sua personalidade. Fala de si, da loucura, de seus medos, mesmo que escondendo-se por trás da ficção - ela não precisava disso, absolutamente; não escondia quem era, por vergonha ou qualquer coisa que o valha, mas estava presa a si própria. Um de seus personagens, que narra em primeira pessoa o conto "O espelho morto", diz que não tem medo de morrer, mas de se ver eternizado, esperando. Essa distância beckettiana lhe assustava, justamente pela ausência de sentido. Não é difícil que o leitor encontre parte da personalidade autoral no protagonista, da mesma forma que é possível que se entenda o que a autora compreende como "eternidade", sentido que é dado em seu diário. Os loucos parecem eternos, chegou a escrever, e isso lhe causava medo.

Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo (12/12/15, Ilustríssima), Carlos Heitor Cony diz que Maura é maior que a autora de "A Hora da Estrela", Clarice Lispector. "Clarice, de certa forma, viveu em sua redoma; Maura não. Maura não é peixe de aquário: é peixe de oceano, que vai fundo."  À parte o exagero (Cony chega a dizer, entoando coro às palavras da própria Maura, que ela foi "a maior escritora do país"), o acadêmico se esquece de que a MLC ignorava o que não lhe dizia respeito diretamente, pista que ela nos dá para compreendermos seu processo de criação literária. Em depoimento à revista Escrita (1976), o filósofo João da Penha cita uma fala de Maura, que diz: "(...) sou a mais bela invenção que conheço", ou ainda, "Quando na rua, não vejo ninguém, não vejo nada. Só eu em toda minha graciosidade." Era Maura e ela mesma, em seu isolamento que não deixaria impune a sua literatura: "ignoro o significado de todos os ismos: concretismo, existencialismo, surrealismo, gongorismo, comunismo (...) Detesto grupos e considero melancólica a decadência de quem não se sustenta sozinho." Fazia questão de enfatizar o rompimento - e até o desconhecimento - dos ismos, como diz, ainda que tenha convivido com alguns dos nomes mais célebres do movimento concretista, enquanto trabalhou no SLJB, ou ainda, que tenha utilizado em seus contos recursos estéticos próximos do concretismo, como observou João da Penha.

Em seu diário, Maura nos revela que as coisas que almejava perdiam o brilho tão logo ela as alcançava, pois a realidade não se fazia tão bela quanto o ideal. A distinção platônica se manifestou ainda cedo, com o seu casamento que durou apenas doze meses."Então casamento era aquilo?", perguntava-se. O desprezo pelos desejos e objetos que se realizavam a seguiu pelo resto da vida. A sentimental contista mineira acreditava piamente ser a maior escritora brasileira, e por isso mesmo, após crer ter chegado a esse status, talvez tenha se esgotado como autora. O seu último livro, "O sofredor do ver", foi publicado em 1968. Vinte e cinco anos depois, Maura faleceu sem ter publicado mais nada.

André Rosa é jornalista e tradutor.

 


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