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O Brasil sob a sombra de Oliveira Martins

02.09.2007
 
Pages: 12
O Brasil sob a sombra de Oliveira Martins

Ainda está por ser estudada em profundidade a influência do historiador e cientista social português Joaquim Pedro Oliveira Martins (1845-1894) na cultura brasileira, mas o ensaio que o professor Paulo Franchetti dedica ao tema já oferece quase todas as pistas para quem tiver disposição de fazer esse trabalho de rastreamento, que não será fácil, já que essa sombra é imensa e chega até aos nossos dias.

Adelto Gonçalves (*)

I

Ainda está por ser estudada em profundidade a influência do historiador e cientista social português Joaquim Pedro Oliveira Martins (1845-1894) na cultura brasileira, mas o ensaio que o professor Paulo Franchetti dedica ao tema já oferece quase todas as pistas para quem tiver disposição de fazer esse trabalho de rastreamento, que não será fácil, já que essa sombra é imensa e chega até aos nossos dias. O ensaio “Oliveira Martins e o Brasil” faz parte do livro Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa, que Franchetti acaba de lançar, reunindo outros 16 textos que abrangem os três núcleos de interesse do seu trabalho de pesquisa – a poesia brasileira, o romance oitocentista português e o exotismo.

Como o autor informa na apresentação, os textos foram quase todos publicados anteriormente em revistas acadêmicas ou na Internet. De assuntos variados, o que os distingue é que foram escritos de olho num público amplo, não especializado, o que os torna leitura agradável, nada acadêmica.

Em “Oliveira Martins e o Brasil”, Franchetti alerta para o fato de que as idéias do historiador oitocentista ainda são parte da cultura brasileira “de uma forma muito mais intrínseca do que poderia parecer a uma primeira vista de olhos”. E cita como exemplo que, em 1995, quando do lançamento do filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati, o escritor Antonio Callado (1917-1997), ao escrever uma resenha para o jornal Folha de S.Paulo, deixou explícita a sua admiração por História de Portugal, de Oliveira Martins.

Jornalista consagrado e autor de Quarup, hoje um clássico da literatura brasileira, Callado nunca foi historiador, o que talvez justifique as referências elogiosas que fez ao filme, um pastiche de todos os estereótipos que Oliveira Martins escreveu sobre a figura balofa do príncipe regente D.João e sua mulher ninfomaníaca, Carlota Joaquina. Sem qualquer rigor histórico, o filme não agradou não só por seu descompromisso com a História como por seu orçamento modesto que obrigou a diretora a excessivas cenas de estúdio.

Depois de Dom João V no Brasil: 1808-1821, obra máxima de Oliveira Lima (1867-1928), publicada em 1908, e do recente Carlota Joaquina na corte do Brasil, de Francisca L.Nogueira de Azevedo (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003), entre outros tantos livros compromissados com o rigor documental, não dá mais para levar a sério as imagens parciais construídas a partir da abordagem da vida pública e privada tanto de D.João como de Carlota Joaquina. Como se sabe, tudo isso fazia parte da propaganda subterrânea empreendida pelos republicanos que, como na França, o que pretendiam unicamente era desmoralizar e fazer ruir a monarquia a qualquer preço.

II

Não se faz aqui uma defesa do absolutismo monárquico, longe disso, mas apenas de uma maneira isenta e rigorosa do ponto de vista documental desse trabalho incessante que é a (re)interpretação da História. E Oliveira Martins nunca se preocupou com esse rigor. Talvez porque as circunstâncias da época em que viveu até o impediam. Se vivesse hoje, não lhe faltariam figuras bizarras de presidentes republicanos e seus ministros para expor ao ridículo.

Franchetti observa que, do ponto de vista de Oliveira Martins, a pujança de Portugal como nação não vai além do reinado de D.João II, atribuindo-se a senectude e decadência do país aos reinados de D.Manuel, D.João III e D.Sebastião. A Restauração de 1640, para Oliveira Martins, produzirá outra nação, igualmente sem força, fruto artificial das necessidades do equilíbrio europeu e, depois, reduzida a um protetorado britânico cujos feitores seriam os reis da dinastia de Bragança. Sem contar o interregno em que o general britânico William Beresford (1768-1854) comandou pessoalmente o país, depois da expulsão dos franceses.

Escarafunchando o pensamento de Oliveira Martins, Franchetti pergunta: como se processou a colonização do Brasil a uma época em que a metrópole morria? Para Martins, teria sido o caráter aventureiro dos paulistas que respondeu pela manutenção do gênio explorador português nesta parte do país, enquanto as demais regiões o perdiam pela vida ociosa, apoiada na escravidão e no luxo sem medidas. Talvez Oliveira Martins não suspeitasse que os paulistas dessa época teriam do português talvez apenas a fala, mas já um tanto arrevesada, e o espírito aventureiro ou heróico, pois eram de pele escura e cabelos lisos, como os paraguaios e os bolivianos de hoje. E sequer andavam no mato de botas, mas descalços.

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