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Embaixador Dário Castro Alves termina tradução da obra de Pushkin

02.09.2006
 
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Embaixador Dário Castro Alves termina tradução da obra de Pushkin

Em 30 de agosto, o embaixador Dário Castro Alves encerrou nove anos de trabalho na tradução do russo para o português da obra prima de Alexandr Sergueivich Pushkin, Eugênio Onegin: Um romance em versos. O livro será brevemente lançado para o grande público brasileiro pela Editora Record.

A obra tem caráter pioneiro na literatura russa. Cabe ao livro ter vencido períodos caracterizados por vários títulos, como o de que a literatura russa estava ainda em estágio “bárbaro”, apresentando ao mundo uma criativa solução de linguagem nacional. De fato, é o próprio Dostoievski quem afirma que ninguém representou, ou representará, tão bem e tão poderosamente a vida russa como o fez Pushkin em sua obra.

Os leitores de língua portuguesa, que ainda não dispunham de uma tradução de Eugênio Onegin, romance na esteira do qual a literatura russa adquiriu seu grande estilo e sua grande forma, agora podem regozijar-se ao ler uma obra que desperta sentimentos, e que por isso mesmo jamais envelhecerá, apresentada em uma tradução de valor, digna e extremamente útil.

Prof. Dr. Adelto Gonçalves

Embaixador conclui a primeira tradução para o português do romance Eugênio Onegin, de A. S. Pushkin

Entrevista de Dário Moreira Castro Alves a Ângela Barros Leal Farias:

P: O que o motivou a realizar esse trabalho de tradução para o português da obra Eugênio Onegin, de Pushkin?

R: Na minha formação pesa um certo substrato de cultura russa, que se acentuou com minha permanência na Embaixada brasileira em Moscou, de 1962 a 1965. Era então minha mulher Dinah Silveira de Queiroz, escritora profissional, que mantinha um amplo relacionamento com escritores e artistas soviéticos de então. Ela achou que eu devia aprofundar minha sensibilidade pela vida e literatura da Rússia, procurando conhecer melhor as expressões literárias russas.

P: E porque Pushkin?

R: Porque notávamos que era um escritor clássico, que todos, sem exceção, todos na Rússia veneram, conhecem e sabem algo dele, exaltam sua personalidade. A presença de Pushkin na formação cultural do povo russo é ainda maior que Shakespeare na Inglaterra, ou que Camões em Portugal.

P: E porque Eugênio Onegin?

R: Essa é uma obra sem igual. Um personagem literário de fortíssima presença, tanto no povo de sua época como na posteridade. Tem um lugar cimeiro na minha cultura pessoal, é a obra mais conhecida de Pushkin e ainda não havia recebido uma tradução em português, embora houvesse em dezenas de outras línguas. Fixou-se em mim a idéia “pushkiniana” ainda na década dos 60. Dinah insistia muito para que eu me convertesse num escritor, ao que eu reagia dizendo ser, antes de tudo e sobretudo, um funcionário diplomático. Quando Dinah, gravemente doente, se preparava já para deixar esse mundo, comecei a aplicar suas idéias e seus pensamentos, e comecei a me preparar para escrever. Minha segunda mulher, Rina, foi também de imensa ajuda no meu esforço de me tornar um homem de letras, um escritor.

P: Pushkin é sua estréia na área literária?

R: Não. Minha estréia se deve a Eça de Queiroz. Notava eu que muitos e muitos brasileiros que passavam por Lisboa, onde eu servia como Embaixador, sabendo que eu tinha interesses em Eça de Queiroz me vinham perguntar onde se deram tais e tais cenas, presentes nos grandes romances de Eça – Os Maias, O Primo Basílio, A tragédia da Rua das Flores, A Capital e outros. Perguntavam tudo, minuciosamente. Dinah então me assinalou que seria um tema interessante, considerando que Eça era uma personalidade viva na sensibilidade brasileira. Eça era Lisboa, e ninguém a decantou mais fortemente como escritor do que ele. Além do mais havia o lado propriamente brasileiro. O Brasil estava atrás de toda a vida lisboeta. Raspando-se um pouco as velhas paredes de Lisboa, se dá no Brasil. Isso é um fato.

P: O senhor escreveu então uma trilogia?

R: O primeiro foi Era Lisboa e chovia, um roteiro cultural, histórico, literário e sentimental construído a partir da obra de Eça de Queiroz. Modéstia à parte, trata-se de um livro não superado quanto ao tema. A longínqua explicação para o título vem de Alfredo Valadão, eciano fanático, que adorava explicar o sentido profundo, profundíssimo, de porque Eça escolhera falar de Lisboa. E naquele trecho de A capital, em que o grande autor registra a fase altamente irônica de que “era Lisboa e chovia”, queria dizer o seguinte: Fradique vinha de Paris, granfinérrima cidade das luzes, e chegava à suja estação de Santa Apolônia, em Lisboa, em lúgubre madrugada. Surge então a frase que ficou famosa, em que dizia “além de ser Lisboa, ainda chovia”. Era, pois, o fim...

P: E os outros dois volumes?

R: Era Porto e entardecia, listando todas as bebidas mencionadas por Eça, do absinto à zurrapa. E por fim Era Tormes e amanhecia, um completo dicionário gastronômico cultural, com o nascimento literário de Eça de Queiroz na região do D´Ouro.

P: E de Eça a Pushkin...

R: Exatamente. O amor pelos melhores padrões de escritores fez essa transição. Pushkin era o maior na literatura russa, como, em outros planos, era o maior da escritura portuguesa o nosso Eça.

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