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O livro do senhor Soares

02.06.2009
 
Pages: 123
O livro do senhor Soares

Adelto Gonçalves (*)

I

Publicado em 2008 por Publicações Dom Quixote, de Lisboa, o romance Boa noite, senhor Soares, o mais recente livro de Mário Cláudio (1941) – se bem que é temerário afirmar-se isto, pois o prolífico autor parece que está sempre a publicar uma nova obra –, acaba de ganhar tradução para o italiano pelo professor Brunello De Cusatis, responsável pela cátedra de Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perugia, na coleção Letteratura Luso-Afro-Brasiliana da Morlacchi Editore, de Perugia, que já editou obras do angolano José Eduardo Agualusa (Frontiere perdute) e do brasileiro José Clemente Pozenato (Il caso del martello) e tem prevista a publicação de Il giorno in cui Paperino s´è fatto per la prima volta Paperina e altre storie, do angolano João Melo, e Racconti, do brasileiro Sérgio Faraco, todas em português e italiano.

Em Boa noite, senhor Soares, Mário Cláudio recria a sociedade lisboeta de 1931, por meio do heterônimo Bernardo Soares, de Fernando Pessoa (1888-1935), ajudante de guarda-livros e empregado de escritório na Rua dos Douradores, na Baixa de Lisboa. Como se sabe, a personagem seria o autor hipotético do Livro do Desassossego por Bernardo Soares, obra escrita de forma fragmentária por Pessoa entre 1913 e 1935, ou seja, durante quase toda a sua vida literária. Não há dúvida que este personagem, ou heterônimo, confunde-se com o seu criador, a ponto de não se saber onde começa a ficção e termina a vida pessoal.

A narrativa, porém, passa-se em torno de Antônio da Silva Felício, candidato a caixeiro-ajudante no armazém de tecidos da Rua dos Douradores, e do senhor Soares, figura apagada e fugidia que trabalha também como tradutor nesse mesmo armazém, a exemplo do que fazia profissionalmente Pessoa. A vida cinzenta, sem maiores lances de ousadia, de Felício permite ao leitor conhecer uma Lisboa bairrista e tradicional nos costumes, em que a mulher desempenhava um papel secundário na sociedade, representado no texto, de forma particularmente dura, pela irmã do narrador, que levava uma vida escrava de dona-de-casa, dividida entre tratar da filha, cuidar da sogra e ainda ter tempo para cozinhar e satisfazer o marido machista, que, provavelmente, preferia ficar a beber nas tascas com os amigos.

II

Ainda que o aproveitamento de heterônimos de Fernando Pessoa como personagens de romances não seja novidade, depois que José Saramago (1922) escreveu O ano da morte de Ricardo Reis (Lisboa, Editorial Caminho, 1984), ou mesmo do próprio poeta por autores menos talentosos, Mário Cláudio consegue manter o interesse do leitor com uma prosa fluida em que procura intuir, por meio da memória de Felício, o que teria sido o itinerário da vida de Soares.

“Ainda hoje o senhor Soares passa pela Rua Augusta, pela Rua da Prata, pela Rua dos Douradores, e pela Rua dos Fanqueiros, com as abas da gabardine desfraldadas ao vento que vem do Tejo. Ela roça o braço nos empregados do escritório, nas costureiras, nas secretárias, e nos moços de fretes, e um nó de angústia aperta-lhe a garganta, maravilhado e dorido por essa gente que transita (...). (p.74).

Com extrema habilidade para imitar o texto pessoano ou o estilo de Bernardo Soares, o autor dá vida ao armazém do patrão Vasques e do seu sócio capitalista, Alcino dos Santos Camacho, além resgatar outros personagens-funcionários como Borges, um faz-tudo na empresa, Moreira, o guarda-livros, José, Sérgio e Vieira, os caixeiros de praça, Antônio, o aprendiz de caixeiro, Tomé e Ernesto, os caixeiros-viajantes, Antônio, o moço de recados, e o gato Aladino, além, é claro, de Soares, o ajudante de guarda-livros e tradutor. Os demais personagens são integrantes da família de Felício, o aprendiz de caixeiro, que nunca fizeram parte do universo de Soares: Florinda, sua irmã, Gomes, o cunhado, Mimi, a sobrinha, a tia Celeste e Serafim, filho da tia Celeste que emigrara para o Brasil.

Por intermédio de Felício, o narrador, que funciona como ghost writer do antigo ajudante de caixeiro já no ocaso da vida, na década de 1980, trata de reatar os fios soltos de uma Lisboa que não existe mais, que vive apenas na memória do idoso, em suas lembranças mais caras, como aquela do dia em que completou dezoito anos em 1933 e, a convite de seus colegas de escritório, foi até ao Bairro Alto, onde todos jantaram numa taverna, perambularam por vielas e ruas estreitas até que desembocaram na Rua da Rosa, local em que o aniversariante teve a sua primeira experiência sexual, paga pelos amigos do escritório. Foi o seu inesquecível presente de aniversário, a uma época em que nem Sida (Aids) nem outras doenças venéreas assustavam tanto.

É uma cidade cinzenta, imersa no salazarismo em que o anacoreta de São Bento comandava da vida dos portugueses como se cuidasse de um teatrinho de títeres. Para os bem sucedidos na vida, porém, a vida não seria tão cinzenta: a filha de Camacho, o sócio capitalista, chega à maioridade e o ricaço que vivia num chalé de luxo na Brandoa convida todo o pessoal do armazém para uma festa em sua casa cujo ponto culminante é a entrega à rapariga de um “sobrescrito fechado” como cinqüenta contos de réis de prenda, uma dinheirama e tanto. Da festa, que marca o desnível social entre patrões e empregados, o pessoal do escritório fica apenas com uma fotografia em que ao fundo aparece a figura esquiva do senhor Soares com seus “olhitos piscos”.

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