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João Alexandre Barbosa: de uma vida de leitura à leitura de uma vida

02.06.2008
 
Pages: 123
João Alexandre Barbosa: de uma vida de leitura à leitura de uma vida

Qual a diferença entre uma biografia e um ensaio biográfico? Quem dá a resposta é o escritor, crítico e professor de literatura João Alexandre Barbosa (1937-2006), antigo docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador nas áreas de Teoria Literária e Literatura Comparada, no ensaio “Lembrança de Roberta Ventura”, que faz parte de Leituras Desarquivadas (Cotia, Ateliê Editorial, 2007).

Adelto Gonçalves (*)

I

Qual a diferença entre uma biografia e um ensaio biográfico? Quem dá a resposta é o escritor, crítico e professor de literatura João Alexandre Barbosa (1937-2006), antigo docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador nas áreas de Teoria Literária e Literatura Comparada, no ensaio “Lembrança de Roberta Ventura”, que faz parte de Leituras Desarquivadas (Cotia, Ateliê Editorial, 2007).

Ali, ele recorda o que disse, certa vez, a ficcionista inglesa Virginia Woolf (1882-1941), autora de uma biografia do crítico britânico e homem de letras Roger Fry (1866-1934), membro do famoso grupo intelectual de Bloomsbury, no texto “Granito e Arco-íris”, que hoje faz parte do livro de ensaios com esse título. Virginia Woolf construiu essa metáfora para dizer que, para escrever uma biografia, é preciso defrontar-se com a verdade e a personalidade. Uma seria algo como a solidez do granito e outra teria a intangibilidade do arco-íris. O objetivo da biografia seria juntar essas duas qualidades num conjunto homogêneo.

A partir daí, Barbosa observa que tudo isso compreende a relação entre aquilo que se traduz em termos de pesquisa (dados e datas) e aquilo que o biografado expressou “em termos de obras que, por sua vez, traduziram os movimentos principais da personalidade”. E acrescenta que, muitas vezes, cabe ao biógrafo o papel de romancista para, a partir de fragmentos de uma existência, tentar “reconstruir uma individualidade inteiriça e dotada de coerência de verossimilhança, fundindo granito e arco-íris”.

Portanto, diz Barbosa, o trabalho do biógrafo envolve simultaneamente tudo o que se refere a levantamento de dados (e não só a repetição do que se lê em livros já impressos) e a busca de dispersos e inéditos, além da criação até certo ponto imaginária, “o que não significa dizer gratuita, de uma rede de imagens e metáforas que possam traduzir para o leitor da biografia o teor das relações estabelecidas pelo biógrafo entre o granito escavado pela pesquisa e a composição de um arco-íris que foi possível ter e apreender por meio daquela criação”.

II

Eis aqui uma definição perfeita do trabalho do biógrafo, que Barbosa estende àquele que, com certeza, teria sido o maior biógrafo de Euclides da Cunha (1866-1909), se não tivesse sido alcançado pela fatalidade em pleno vôo, o pesquisador Roberto Ventura (1957-2002), que também foi professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP. Ventura estava em fase avançada em sua pesquisa, quando morreu num acidente automobilístico. E, assim, o que saiu à luz foi Euclides da Cunha -- esboço de uma biografia (São Paulo, Companhia das Letras, 2003), o arquivo que Marcia Zoladz, sua mulher, e o amigo Mario Cesar Carvalho localizaram no computador do autor.

Os organizadores do livro -- o jornalista Mario Cesar Carvalho e o professor José Carlos Barreto de Santana -- entenderam que, por seu tamanho e conteúdo, o arquivo corres- ponderia ao esboço da biografia que o autor vinha escrevendo. Ventura já havia realizado um rigoroso levantamento documental: entrevistara descendentes de Euclides da Cunha e de seus contemporâneos, recuperara documentos e dialogara com os principais especialistas sobre o escritor e a Guerra de Canudos (1896-1897) no interior do Estado da Bahia.

O grande mérito do texto, porém, seria a idéia de aproximação de destino entre Euclides da Cunha e Antônio Conselheiro (1830-1897) em que o autor estava a meio caminho. Ambos eram órfãos, tiveram uma experiência traumática com o adultério, foram construtores -- Euclides de pontes e o Conselheiro de igrejas -- e tiveram trajetórias marcadas pelo advento da República. O biógrafo entendia que o Conselheiro seria uma combinação da projeção psicanalítica e criação literária de Euclides. Para Ventura, Antônio Conselheiro seria a encarnação dos piores fantasmas de Euclides. Por fim, ambos teriam vidas marcadas pela tragédia. Assim como o biógrafo.

Por isso, Barbosa, que escreveu seu ensaio antes de Euclides da Cunha -- esboço de uma biografia sair à luz, entendia que Ventura, ao morrer de maneira trágica, exatamente quando voltava de uma conferência que dera sobre o escritor no interior do Estado de São Paulo, encontrava-se exatamente na passagem da fase do granito para a do arco-íris, pois já dominava de tal maneira o tema que não lhe era difícil estabelecer relações entre os vários e numerosos ensaios escritos e publicados por Euclides da Cunha, ou mesmo aqueles deixados dispersos ou inéditos, a correspondência do escritor e outros documentos a que tivera acesso.

III

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