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Eça de Queiroz em aquarelas

02.05.2010
 
Pages: 12
Eça de Queiroz em aquarelas

Eça de Queiroz em aquarelas

Filho de A.Campos Matos (1928), notável queiroziano, o arquiteto Rui Campos Matos (1956) herdou do pai a paixão pelos livros, pela poesia, pela literatura de um modo geral e pela obra de Eça de Queiroz (1845-1900) em particular.

Adelto Gonçalves (*)

I

Filho de A.Campos Matos (1928), notável queiroziano, o arquiteto Rui Campos Matos (1956) herdou do pai a paixão pelos livros, pela poesia, pela literatura de um modo geral e pela obra de Eça de Queiroz (1845-1900) em particular. É o que mostra em Os Maias – Uma Antologia Ilustrada (Lisboa, Parceria A.M.Pereira, 2009) em que, acompanhando trechos do clássico romance de Eça de Queiroz, enfileira a cada página aquarelas em que procura retratar e reconstituir lugares e personagens da obra.

Quem leu Clepsidra e outros poemas, de Camilo Pessanha (1867-1926), em edição preparada por Daniel Pires (Lisboa, Livros Horizonte, 2006), e deslumbrou-se com as ilustrações que o acompanham já sabe a qualidade que vai encontrar nestas aquarelas. A única diferença é que, desta vez, não são coloridas como naquela edição de Clepsidra. Todo queiroziano, por certo, também há de recordar os pastéis que Rui Campos Matos produziu para O Mandarim, que seu pai publicou em Fotobiografia de Eça de Queiroz, Vida e Obra (Lisboa, Editorial Caminho, 2007).

Como observa Pedro Larsen no prefácio, em precisas imagens, Campos Matos, “num traço dúctil, espontâneo, seguríssimo, detecta o essencial dos ridículos das personagens queirozianas, fazendo-nos reviver episódios e situações que havíamos esquecido e nos despertam depois, além do contentamento e da surpresa do reencontro, a hilaridade do discurso desenhado”.

Entre essas personagens, Larsen destaca a baronesa de Craben, seguida de seu rubicundo marido, o pai Monforte e Maria, sua capitosa filha, o Alencar, sempre emburrado, “a braços com o realismo que tanto lhe atormentou a existência”, o melancólico Cruges, “de batuta entalada no colete”, o melífluo Dâmaso, o truculento João da Ega, e Maria Eduarda, com seus cabelos de ouro, figura enigmática e atraente que levaria Carlos da Maia a dar um passo tão trágico como é o do incesto, entre outras personagens menores – mas nem por isso menos importantes na galeria eciana – da Lisboa da época da Regeneração que, olhada através de um olhar de mais de um século, não regenerou em nada os costumes.

Além do prefácio descontraído de Larsen, o leitor, antes de penetrar diretamente nesta galeria eciana, encontra ainda um guia escrito pelo próprio autor que lhe permite recordar a trama que permeia Os Maias, romance publicado em 1888.

II

Para quem não recorda, é bom lembrar que a narrativa de Eça tem início com Pedro da Maia, filho de Afonso da Maia, personagem educado de acordo com padrões românticos, que se casa com Maria Monforte, filha de um traficante de escravos e, por isso, também conhecida como “a negreira”. Dessa união, nascem dois filhos: Maria Eduarda e Carlos. O casal se separa logo depois. A menina fica com a mãe e o menino com o pai, que se suicida, depois que a mulher foge com um napolitano.

Descendente de uma família nobre da Beira, educado pelo avô, segundo padrões britânicos, Carlos da Maia forma-se em Medicina, mas nunca exerce a profissão a sério. É um doidivanas, um desocupado que está sempre acompanhado de João da Ega, ex-estudante de Direito em Coimbra, um tipo espirituoso e adepto do Naturalismo em Literatura. Após alguns encontros amorosos com a condessa Gouvarinho, Carlos conhece, por intermédio de Dâmaso Salcede, um tipo medíocre e balofo, a mulher de Castro Gomes, um brasileiro rico, e apaixona-se por ela. A amada rompe com Castro Gomes, com quem não era casada legalmente, e vai viver com Carlos da Maia, acompanhada de uma filha, criança ainda.

Eça de Queiroz em aquarelas
É quando Joaquim Guimarães, um velho jornalista, entrega a João da Ega uma caixa de documentos a ele confiada por Maria Monforte em Paris, para que ele a encaminhasse a Carlos. Este julgava que a irmã, como a mãe, estivesse morta há muito tempo. Ega lê os documentos e, aterrorizado, vai mostrá-los a Carlos: ele e sua amada, Maria Eduarda, a antiga madame Castro Gomes, eram irmãos.

Desnorteado, Carlos volta a encontrar-se com a irmã, numa atitude de incesto consciente, de que, mais tarde, arrepende-se. Surpreendido com o reaparecimento da neta, que surgia como amante do irmão, o austero Afonso da Maia falece. A situação entre os irmãos só é solucionada após o funeral: Maria Eduarda, com a identidade esclarecida e seus direitos reconhecidos, volta para Paris, refaz sua vida e lá se casa. Já Carlos viaja para a América e o Japão, em companhia de Ega. Só dez anos mais tarde retorna a Lisboa, fixando depois residência também em Paris, onde alia a falta do que fazer ao diletantismo.

III

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