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Beijar lábios cinzas

02.02.2009
 
Pages: 123
Beijar lábios cinzas

Adelto Gonçalves (*)

I

Não sei se foi quem inventou esta espécie de jogo, mas pelo menos a conheci ao ler um texto de Jorge Luis Borges (1899-1986), “El acercamiento a Almotásim”, uma das notas que encerram Historia de la Eternidad (1936), em que o escritor argentino fez a resenha de um livro que só existia em sua imaginação. Por muito tempo, os críticos e leitores imaginaram que o livro havia sido mesmo escrito e publicado. E que o texto de Borges seria uma recensão de uma obra de Mir Bahadur Ali, escritor de Bombaim. Para confundir seus leitores, Borges não só fez um suposto resumo da obra como ainda citou críticos e jornais que haviam resenhado o livro, sem deixar de comparar o autor ao escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936). Era uma broma.

Ainda recentemente, o suplemento Mais!, do jornal Folha de S.Paulo, de 30/9/2007, partindo da inspiração borgeana, pediu a vários autores que escrevessem resenhas de livros imaginários. Alessandro Atanes, um dos mais talentosos historiadores literários da nova geração (veja-se a sua dissertação de mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo “História e literatura no porto de Santos: o romance de identidade portuária Navios Iluminados”, que está disponível em http://www.teses.usp .br/teses/disponiveis/8/8138/tde-30092008-145514/), fez um arguto comentário, em sua coluna “Porto Literário” no site www.portogente.com.br, sobre o gênero da resenha fictícia, ao lamentar que os convidados da experiência do Mais! tenham esquecido exatamente daquilo em que Borges mostrou-se também mestre: simular que os livros que resenhavam tivessem sido realmente escritos.

Atanes lembrou que o gênero da resenha fictícia ainda apareceria na obra de Borges nos contos “Pierre Menard, autor de Quixote” e “Exame da obra de Herbert Quain”, sem contar a enciclopédia imaginária de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, que apareceram em “O jardim de veredas que se bifurcam”, textos de 1941 reunidos como a primeira parte de Ficções (1944), em cujo prólogo, o autor deixou esta observação: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.

II

Não é preciso dizer que não faz parte da intenção deste articulista imitar Borges, até porque lhe faltaria talento para tanto – e, portanto, tudo soaria falso –, mas, a bem da verdade, o que se quer aqui é dizer de um livro que, afinal, só existe na cabeça de seu autor, até porque até agora não foi escrito, apesar da insistência de seus amigos, inclusive, deste que escreve com a esperança de que, por artes da Internet, esta suposta recensão lhe caia sob os olhos, como uma daqueles garrafas que antigos náufragos costumavam lançar ao mar. E, dessa maneira, anime-o a colocar no papel o livro que já existe pelo menos na imaginação.

Esse livro – e aqui começa um arremedo desse exercício de se resenhar obras fictícias -- tem por título Beijar lábios cinzas e reúne 17 entrevistas feitas pelo jornalista José Meirelles Passos, correspondente do jornal O Globo, em Washington, há mais de 20 anos, com Borges em seu apartamento na Calle Maipú, 900, entre 1980 e 1984, à época em que o repórter era correspondente da revista Veja em Buenos Aires. Por ocasião da passagem dos 20 anos da morte do escritor, Meirelles fez uma rápida evocação desses encontros em texto que publicou no caderno “Prosa&Verso” de O Globo, de 18/6/2006, e que também pode ser encontrado na Internet.

Por pouco – e por mala suerte -- este articulista não participou de um desses encontros em 1984, a uma época em que descansava alguns dias na casa de Meirelles, no elegante bairro de Palermo, depois de ter feito a cobertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles para o jornal A Tribuna, de Santos, e passado uma temporada de férias na Colúmbia Britânica na residência dos amigos canadenses Linda e Douglas Brown, à beira do Shuswap Lake, em Salmon Arm.

(A nossa amizade com Meirelles teve início já lá vão quase 40 anos, pois foi no começo de 1970 que fizemos o vestibular para o curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia da Fundação São Leopoldo, hoje transformado na Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Santos (Unisantos). O mais arguto e estudioso de todos nós, Meirelles passou em primeiro lugar, enquanto este articulista ficou na 15ª colocação).

Feitos estes parênteses, lembro-me que, em Buenos Aires, chegamos até a telefonar para o apartamento da Calle Maipú, mas, por aqueles dias, o mestre deveria estar atendendo a um dos muitos convites que recebia para dar palestras em universidades norte-americanas. Ou, quem sabe, andasse a descansar na fria Genebra de sua adolescência.

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