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Cristino Cortes: conversa com poetas

02.01.2009
 
Pages: 12
Cristino Cortes: conversa com poetas

Adelto Gonçalves (*)

I

Todo homem é aquilo que viveu – e, no caso dos intelectuais, também o que leu (e releu). Este início de texto um tanto borgeano – talvez porque escrito por quem acaba de reler pela enésima vez o conto “El Otro”, de Jorge Luís Borges (1899-1986), que abre El Libro de Arena (Buenos Aires, Emecé, 1975) – vai aqui a propósito do novo livro do poeta Cristino Cortes (1953), Música de Viagem, o décimo de sua carreira, que reúne 77 poemas com amplo espectro temático e formal.

Apresentado publicamente em fevereiro de 2008 na Póvoa do Varzim, terra natal de Eça de Queirós (1845-1900), por ocasião do 9º Correntes d´Escritas, encontro anual de escritores de expressão ibérica, este livro tem, como seu título denuncia, uma implícita ligação com a música, que se deve naturalmente ao apurado gosto de quem o imaginou, mas é sobretudo uma homenagem que o autor decidiu prestar a poetas de sua predileção, como Guerra Junqueiro (1850-1923), António Nobre (1867-1900), Cesário Verde (1855-1886), Jorge de Sena (1919-1978), Vitorino Nemésio (1901-1978), Teixeira de Pascoaes (1877-1952), Florbela Espanca (1894-1930), Alberto Pimenta (1937), Fernando Pessoa (1888-1935) e, o maior de todos, Luís de Camões (c.1524-1580), com o qual o volume se encerra.

Se a idéia de que todo homem é também outro homem e, portanto, todos os homens, permeia a obra de Borges – o conto “El Otro”, por exemplo, narra o hipotético encontro de um Borges de 70 anos com ele mesmo aos 18 ou 19 anos de idade em Cambridge, em 1969 –, nada impede que se possa imaginar que todo poeta seja também outro poeta e, portanto, todos os poetas, ou ao menos os de sua predileção.

É o que faz Cortes, por exemplo, no poema “Um café com Pessoa, exatamente noventa anos depois”, que, escrito a 8 de março de 2004, tem 90 versos e comemora os 90 anos do aparecimento de Alberto Caeiro, heterônimo com que Fernando Pessoa assinou os poemas de O Guardador de Rebanhos, escritos, como ele mesmo disse, de “uma assentada” naquele dia de 1914. Nesse poema, o poeta se imagina num diálogo com Fernando Pessoa em que este é questionado a respeito do nome que lhe deram no cartório e que ele resumiu para assinar algumas de suas produções intelectuais, já que optou por assinar muitas delas com heterônimos:

“(...) O nome que comigo trago não é de minha responsabilidade

É certo, mas está certo como nenhum outro o estaria;

Pessoa somos todos, meu Caro, e todos e nenhum, o termo

Correspondente em francês, embora raro, permite-me aliás incógnito

Passear por entre a multidão de todos os tempos e lugares ... (...).

A semelhante artifício o poeta recorre em “Desencantada conversa com Jorge de Sena, na beira do tempo”:

“(...) Mudou muito o mundo, meu caro Jorge de Sena, por aqui

Nos interrogamos sobre a razão da música e de algum modo

Teu fácil e claro tempo invejamos, fluir da percussão e do sopro

Procuramos um lugar para a poesia que nos leve a ti

Seja, pois, esta ode à música singela homenagem, lembrança

Conversa com um amigo que já lá está e recordação

Vagamente melancólica dum tempo em que dizias não

Oh desejo de marciais tambores marcando a ritmo à esperança! (....)”

II

Na mesma linha é a reminiscência que faz de suas leituras de Teixeira de Pascoaes, com quem igualmente confessa “conversar” em determinados horas do dia, ou seja, conhece tão bem os seus poemas e seu modo de fazer poético que consegue se exprimir da mesma maneira, ao repetir o seu tom declamatório que vem de Guerra Junqueiro, como se vê em “À porta de Pascoaes”:

“(...) A família vai-se escolhendo, poética ligação

Intuitiva nas linhas naturais nos parecendo;

Vêm os filhos em outra geração conhecendo

Por um milagre da força certa antecipação....

Não falo de genética nem de senso comum mas de poesia

-- Com Pascoaes converso e ele me acompanha nesta hora do dia”.

Essa “conversa” com poetas inclui também António Nobre, autor de (1892), volume único que reúne poemas escritos em Paris sob a inspiração do Simbolismo francês, sobretudo de Verlaine (1844-1896). Em “Poema para António Nobre”, Cortes procura sintetizar a vida breve do poeta:

“(...) Abriste caminhos e posições, o lugar do exílio

Deu-te particular visão do povo e do país, charneira

Diálogo que em Paris com o tempo travaste... Europeia

Integração, oh se como tu fosse hoje todo o Virgílio!” (...)

Ao final, saúda o “reencontro” como se fossem velhos amigos, que se cruzam muitos anos depois em que tanto um como outro já não são aqueles de outros tempos, apesar das expressões familiares no rosto, dos gestos conhecidos, da entonação de voz, das lembranças compartilhadas. Até porque “o homem de ontem não é o homem de hoje”, para repetir aqui ainda o que Borges escreveu em “El otro”, atribuindo a observação a “algún griego”.

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