Pravda.ru

Sociedade » Cultura

“Elite branca” no Brasil

01.11.2006
 
Pages: 12

Apesar do preconceito racial que sempre grassou por toda a sociedade brasileira, lembra a historiadora que alguns homens de origens africanas chegaram a ocupar a cadeira da presidência da República. Isabel Lustosa observa que Campos Sales, fazendeiro paulista que governou o País do final de 1898 ao final de 1902, era chamado de “branco de segunda” e “sepulcro caiado de raças tidas por inferiores” por José do Patrocínio, um dos patronos da abolição dos escravos em 1888.

Segundo Patrocínio, seria fácil, a um simples olhar, descobrir em Campos Sales “a testa do moçambique” e os “quadris do cabinda” e no “chorado de sua voz o algarvio que serviu de veículo às outras raças”. Patrocínio, filho de padre e de escrava lavadeira, dizia isso a propósito de uma velada intenção do governo de excluir marinheiros negros e mulatos da escolta que acompanharia Campos Sales em visita à Argentina em 1900. Para ele, se fosse para fazer essa discriminação, seria preciso começar pelo presidente da República.

Isabel Lustosa lembra ainda que o presidente Nilo Peçanha, que governou o País de junho de 1909 a novembro de 1910, era homem de traços marcadamente negros, o que motivou à época caricaturas e anedotas na imprensa que ligavam seu nome ao continente africano e, conseqüentemente, às suas origens.

Embora nunca tenha sido branca, a verdade é que a elite brasileira, até hoje, sempre procurou se passar por tal, como a recente intervenção do governador Lembo mostra. Isso se refletiu na imprensa e na produção cultural em que o negro sempre apareceu inferiorizado, o que só começou a mudar com a valorização de sua imagem social a partir da década de 1950, com a vitória da seleção brasileira de futebol no Mundial da Suécia em 1958 e algumas manifestações culturais, notadamente pela música.

Negros e mulatos combativos e contestadores, como Patrocínio e Lima Barreto, sempre foram tidos como fenômenos isolados, quase aberrações da natureza. Outros, como Castro Alves e Machado de Assis — que nunca levou a questão da cor para os seus romances e contos — conseguiram se tornar quase invisíveis, a ponto de se passarem por brancos como Campos Sales e Nilo Peçanha.

___________________

AS TRAPAÇAS DA SORTE: ENSAIOS DE HISTÓRIA POLÍTICA E DE HISTÓRIA CULTURAL, de Isabel Lustosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 314 págs., 2004. E-mail: editora@ufmg.br

______________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

Pages: 12

Fotos popular