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Ondjaki: a reinvenção da linguagem

01.09.2008
 
Pages: 123
Ondjaki: a reinvenção da linguagem

Nascido em Luanda em 1977, Ondjaki, licenciado em Sociologia, prosador, às vezes poeta e roteirista de documentários, já pouco tem a ver com a literatura de afirmação nacional nascida à época da independência de Angola em que se destacaram Agostinho Neto (1922-1979) António Jacinto (1924-1991), Uanhenga Xitu (1924), António Cardoso (1933), Luandino Vieira (1935), Arnaldo Santos (1935), Manuel Rui (1941), Jorge Macedo (1941), Pepetela (1941), Boaventura Cardoso (1944), David Mestre (1948), Kudijimbe (1955) e outros.

Adelto Gonçalves (*)

I

Nascido em Luanda em 1977, Ondjaki, licenciado em Sociologia, prosador, às vezes poeta e roteirista de documentários, já pouco tem a ver com a literatura de afirmação nacional nascida à época da independência de Angola em que se destacaram Agostinho Neto (1922-1979) António Jacinto (1924-1991), Uanhenga Xitu (1924), António Cardoso (1933), Luandino Vieira (1935), Arnaldo Santos (1935), Manuel Rui (1941), Jorge Macedo (1941), Pepetela (1941), Boaventura Cardoso (1944), David Mestre (1948), Kudijimbe (1955) e outros.

Àquela época, anos 60-70, quase todos os poetas e romancistas angolanos viveram dramas pessoais ligados ao compromisso político com a independência de Angola -- a maioria engajou-se no movimento de libertação nacional dentro e fora do país e muitos deles tiveram de cumprir pesadas penas de reclusão, cujas experiências se refletiram no que escreveram.

Com o fim do colonialismo, a maioria acabou por abdicar de sua liberdade pessoal para ajudar no que entendiam que seria a construção do país, tornando-se, assim, funcionários do Estado pretensamente socialista. Antes de escritores, comportaram-se como soldados de um regime que prometia o paraíso na terra. Muitos deles, valeram-se das boas relações do novo regime com os países do Leste Europeu -- que era o que lhes estava à mão -- para completar suas formações acadêmicas ou, simplesmente, participar de encontros internacionais de jovens escritores na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou em países asiáticos ou em outras nações africanas.

Como se sabe, uma boa forma de ressecar a capacidade criativa de escritores é atrelá-los às chamadas razões de Estado. Não que as causas, à época, fossem injustas ou sem méritos. Pelo contrário. Mas é que, passada a euforia da independência, toda revolução tende a cristalizar-se com a sedimentação dos interesses daqueles que chegaram primeiro ou mais longe na máquina burocrática do Estado.

E não há escritor, por mais imaginativo e inventivo que seja, que possa produzir literatura de alta qualidade se, em vez de engajar-se apenas com a sua própria consciência, passa a defender as idéias ou os interesses das lideranças de um partido ou de um segmento político. Foi o que ocorreu, por exemplo, com os romancistas Jorge Amado (1912-2001) e Graciliano Ramos (1892-1953) à época em que escreviam romances e outros textos sob a orientação implícita do Partido Comunista Brasileiro.

De qualquer maneira, as amarras ideológicas, se impedem o afloramento da consciência crítica, não são suficientemente tenazes a ponto de bloquear por completo a capacidade criativa, pois algo sempre escapa. Afinal, é possível encontrar-se períodos de alta qualidade até mesmo em panfletos de Jorge Amado, como O Cavaleiro da Esperança, biografia do líder comunista Luís Carlos Prestes (1898-1990), publicada em 1944, ou em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos (1892-1953), publicação póstuma de 1953 que, como se sabe agora, teve vários parágrafos cortados por familiares do escritor para atender à orientação do PCB à época “em nome da causa”.

Por essa razão, como observa Luis Kandjimbo, notável ensaísta e crítico literário de Angola, entre os escritores angolanos que surgiram no bojo do movimento de independência do país na década de 1970, “há uma descontinuidade observável na escrita de ficção e nos padrões estéticos, provocada pela excessiva valorização de temas literários marcados pela ideologia política e sua introdução nos manuais escolares”. Se isso hoje já soa como excessivamente datado e, muitas vezes, como uma forma ingênua de se fazer literatura, por outro lado, é de admitir que essa subserviência à “causa” tampouco foi capaz de impedir o afloramento de uma literatura de boa qualidade da qual os escritores mais recentes são tributários.

II

Nascido já em país independente, Ondjaki, naturalmente, não podia carregar dentro de si o sentimento anticolonialista, tendo sua infância sido embalada pelas invectivas pretensamente revolucionárias que permeavam a educação popular promovida pelo governo de seu tempo. No entanto, embora já nascido livre do colonialismo -- mas não do triste espetáculo da opressão das minorias ricas sobre as maiorias deserdadas --, pôde seguir outro rumo em sua atividade literária, ainda que não deixe de repetir experiências que, décadas antes, já haviam sido vividas por Luandino Vieira e outros romancistas inventivos da Angola da década de 1970, já que os musseques (favelas), os jogos de futebol nos terrenos baldios, as feiras populares e a vida dos pés-descalços continuavam a fazer parte do cotidiano da Luanda de sua infância e adolescência, como fazem ainda hoje.

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