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Quando os jornalistas só olham para seus umbigos

01.06.2017
 
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Quando os jornalistas só olham para seus umbigos

Numa parceria do Sul21 com o Instituto Goethe, começou terça-feira um ciclo de debates sob o título de Conversas Cidadãs, reunindo o cineasta Jorge Furtado e os jornalistas Cristina Charão da TVE e Thomas Fischermann, correspondente da imprensa internacional no BrasiL para discutir o tema Mídia e Poder.

Segundo publicou o Sul 21 (o restante da nossa imprensa fez de conta que o evento não existiu) os debates poderiam ser sintetizado a partir de uma frase de Hannah Arendt, segundo a qual a sobrevivência da raça humana só é possível se dissermos a verdade.

Verdade, para a filósofa alemã tem um conteúdo ontológico muito mais complexo do que os jornalistas e debatedores do encontro parecem supor. Hanna Arendt, que deu um salto para a fama, quando se dispôs a fazer a cobertura jornalística do julgamento de Adolf Eichamann em Jerusalém, estava preocupada, não em repetir os fatos conhecidos sobre as atrocidades nazistas, mas em entender a transformação de um ser humano, com sentimentos e valores morais, numa fria máquina de matar.

Ao cunhar a sua famosa frase sobre a banalidade do mal, ela não estava dizendo uma simples verdade, mas propondo uma discussão filosófica sobre o comportamento humano. Em suma, ela não estava fazendo jornalismo, mas filosofia.

Embora o empenho dos participantes em dar à atividade jornalística um caráter fundamental em nossa sociedade, ela é apenas um instrumento usado pela classe dominante para manter sob controle a grande maioria das pessoas.

Nesse aspecto, Cristina Charão foi mais precisa na sua avaliação da realidade do que os outros dois debatedores, quando disse: "Toda vez que a gente pergunta o que vai acontecer com o jornalismo, a gente nunca pergunta se aquele discurso produzido por ele continua valendo. A gente esquece que ele só existe, porque existe como indústria"

Jorge Furtado, a julgar pela síntese publicada no Sul21, foi quem mais falou e por isso mesmo mais se expõe a contestações. 

No que parece ser uma defesa corporativa dos meios de comunicação oficiais, ((jornais, revistas, rádio e televisão) ele faz uma óbvia crítica às redes sociais, ao dizer que,  "se por um lado a internet ajudou a acelerar a circulação e a produção de informações, em escalas nunca imaginadas antes, por outro, o mar de notícias também ajuda a confundir e esconder aquilo que realmente importa"

Aí se coloca uma nova questão: o que realmente importa?  

Jorge Furtado lembrou, por exemplo, de como na semana em que o Brasil ouviu em áudio o Presidente da República corroborando relatos de corrupção de um empresário, a notícia mais lida do portal UOL era o fato de que a atriz Taís Araújo havia se negado a comer abóbora em um programa matinal.

Ficamos tentados, então a lembrar aquela máxima de Bertold Brecht de que "o pior ignorante é o ignorante político", mas não podemos esquecer que essa ignorância é planejada e executada pela mídia.

Ela faz isso porque é parte da superestrutura de um sistema que defende a dominação de uma classe sobre as outras e os jornalistas que a contestam (Furtado citou Janio de Freitas, o mais importante de todos no Brasil) são usados para comprovar uma falsa imparcialidade que ilude o público.

Furtado compara os jornais brasileiros com os americanos - "Talvez só no Brasil a gente tenha uma grande imprensa tão unificada. A impressão que dá, muitas vezes, é que a mesma pessoa escreve as manchetes de todos os jornais. Então, temos todos os jornais dizendo a mesma coisa. Isso não acontece nos Estados Unidos, não acontece na Inglaterra, não acontece na França. Tu chegas em uma banca e tem jornais de várias tendências diferentes. Há uma diversidade, que aqui não há" - esquecendo de lembrar que esses países vivem estágios diferentes do capitalismo.

Em alguns, o capitalismo é ainda quase patriarcal como no caso do Brasil e a imprensa reflete esse momento, enquanto que em outros, ele vive com graus de contradição mais avançados. como ocorre nos Estados Unidos.

O que ele diria dos jornais chineses onde o capitalismo (muitos duvidam que seja esse o sistema chinês) adquiriu uma característica totalmente diferenciada?

Diz Furtado:

 "O futuro do jornalismo depende dos jornalistas. Porque tem jornalistas bons em qualquer lugar, eles podem escrever até sozinhos."

Onde?

Na internet, onde as pessoas querem mais saber da abóbora que Taís Araújo come no café da manhã?

Parece ingenuidade pensar que, saindo fora do sistema, você pode atacá-lo com algum grau de eficiência.

Essa é a grande contradição que os jornalistas de esquerda não querem entender: dentro do sistema você é usado; fora, você desaparece.

Estranho que os debatedores, já que estavam tão preocupados com a verdade, não tenham (pelo menos na síntese publicada no Sul21) saudado três grandes figuras que se destacaram na sua busca e que pagam com a prisão e o exílio essas suas buscas: Julian Assange, Edward Snowden e Bradley Manning (hoje se transformou numa mulher e se chama Chelsea).

Assange era apenas um hacker; Snowden, um funcionário de uma agência de informações americana e Bradley(Chelsea) um militar servindo no Iraque.

Nenhum era jornalista.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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