Pravda.ru

Sociedade » Cultura

Minas no Setecentos

01.04.2008
 
Pages: 12
Minas no Setecentos

Adelto Gonçalves (*)

I

A idéia de que D. João V (1689-1750), que reinou de 1706 a 1750, teria sido o mais rico dos monarcas europeus, durante muito tempo, ocupou o imaginário do velho continente. Que não foi bem assim já o historiador inglês Charles Ralph Boxer (1904-2000) mostrou no livro A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial, de 1960 (Rio de Janeiro, 3ª ed., Nova Fronteira, 2000), afirmando que, sob certos aspectos, a idade de ouro do Brasil talvez tenha sido tudo, “menos de ouro”. Até porque as plantações de cana-de-açúcar e tabaco, a criação de gado e o povoamento do litoral tiveram igualmente importância na formação da riqueza do Brasil colônia.

Foi a partir dessa perspectiva -- a de que nem Minas nem o Brasil se resumiram ao ouro -- que os historiadores Maria Efigênia Lage de Resende, doutora e professora titular de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Luiz Carlos Villalta, doutor em Ciências e História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor adjunto da UFMG, organizaram História de Minas Gerais: As Minas Setecentistas, dois grossos volumes em que reuniram ensaios de vários autores sobre múltiplos aspectos da história mineira do período, que, afinal, constitui ponto fundamental para quem quiser compreender o século XVIII na América portuguesa e no Reino de Portugal e seu Ultramar.

No estudo “A Guerra dos Emboabas: novas abordagens e interpretações”, Adriana Romeiro, doutora em História pela Universidade Estadual de Campínas (Unicamp) e professora do Departamento de História da UFMG, mostra, por exemplo, ao contrário do que se lê numa historiografia mais tradicional, que o que estava em jogo no conflito entre paulistas e reinóis, para além das diferenças culturais e políticas, era uma acirrada disputa pelo poder local. Ou seja: desde que o mundo é mundo, o que move o homem é sempre o interesse mais mesquinho, pessoal. E o historiador, que assume a assertiva dostoievskiana ou a visão schopenhaueriana de que nada de grandioso se pode esperar do homem, nunca erra.

Portanto, por trás da guerra dos emboabas, o que havia mesmo eram questões mesquinhas, como a concessão de cargos, a divisão dos achados minerais, a distribuição das sesmarias, os privilégios junto à Coroa, brigas de grupos etc. Tal como se deu na história da Inconfidência Mineira, que também passa por interesses contrariados, tendo sido articulada por ex-arrematantes dos contratos de entradas, que haviam recolhido muitos impostos, sem repassá-los para a Coroa, obviamente comprando a custo elevado a conivência de governadores, ouvidores e outras autoridades.

Quando a Corte de Lisboa, pressionada pelas circunstâncias e cofres vazios, fez questão de cobrar os atrasados, o “brio” patriótico daquela gente subiu às nuvens, levando de roldão alguns protagonistas de bons propósitos -- que sempre os há. Como quase sempre acontece, os homens de muito dinheiro, à custa de muita corrupção, livraram-se das malhas da devassa. E o rigor da lei caiu mesmo sobre aqueles que estavam por baixo.

Nada disso, é claro, depõe contra aqueles que participaram e deram a vida ou comprometeram seu futuro pelo movimento. Quem estudar a fundo a história dos movimentos sociais vai descobrir que interesses contrariados e o grande capital ou a riqueza são sempre os combustíveis que rompem (ou procuram romper) a ordem vigente. É assim na história de toda nação do mundo.

II

Ainda que o primeiro volume de As Minas Setecentistas tenha estudos extremamente importantes, o melhor mesmo está no segundo que reúne ensaios sobre temas como igreja, clero e irmandades, artes, educação, letras, trabalho, ciência, técnica, cotidiano e vida privada e a Inconfidência Mineira propriamente dita.

Em textos diferentes, por exemplo, os historiadores Luciano Figueiredo, doutor em História Social pela USP e professor da Universidade Federal Fluminense, e Paulo Gomes Leite, graduado em Letras Clássicas pela UFMG, com estudos de aperfeiçoamento nas universidades de Lisboa e Coimbra, desvendam a teia da pedagogia do medo desenvolvida pela Igreja católica que, como assinala Villalta na introdução, teve na Inquisição, nos tribunais eclesiásticos e nas visitações episcopais seus elementos fundamentais.

“Revelam como, na ação desse aparato, misturavam-se a intimidação de consciências, os estímulos à delação e à confissão de heresias e de delitos morais, a exemplaridade das punições e as difusões dos preceitos cristãos”, diz.

Em “A Igreja, a sociedade e o clero”, Villalta lembra que a escravidão facilitava as ilicitudes sexuais: os abusos das escravas (e, muitas vezes, dos escravos, como assinala Ronaldo Vainfas em “Sodomia, amor e violência nas Minas Setecentistas”), com muitos senhores levando suas cativas à prostituição, além de criar obstáculos à constituição de famílias legítimas pelos escravos.

“Pululavam os casos de concubinato, de prostituição e de padres amancebados”, diz o historiador, lembrando que a moralidade coletiva, por sua vez, admitia implicitamente algumas relações sexuais “ilícitas”, em particular as travadas por homens de estratos superiores com mulheres de nível mais baixo. “Requeria-se, porém, que tais relações fossem minimanente dissimuladas”, acrescenta.

Ou seja, nada muito diferente do que ocorreu recentemente com o ex-governador de Nova York, Eliot Sptizer, flagrado em um escuta telefônica marcando encontro com uma prostituta de luxo num hotel de Washington.

Pages: 12

Loading. Please wait...

Fotos popular