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Estratégia de EUA contra Rússia: É guerra, mas sem declarar guerra

22.06.2016
 
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Estratégia de EUA contra Rússia: É guerra, mas sem declarar guerra 


Entre 9 e 12 de agosto de 1941, em respectivos navios de guerra, o presidente dos EUA Franklin Roosevelt (balão ao centro da imagem, à esquerda) e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill (idem, à direita) tomaram o rumo de uma baía no Canadá, para reunirem-se e discutir o que fazer dos adversários daquele momento, Alemanha e Japão. Roosevelt sussurrou (Churchill depois noticiou que ele dissera em voz alta): "Vou fazer guerra, mas sem declarar guerra." 

Até 21 de fevereiro de 2014, ouviam-se bem os sussurros do presidente Barack Obama (à direita). O presidente Vladimir Putin (à esquerda) não acreditou no que ouviu. Agora, há guerra armada dos EUA contra a Rússia nos fronts da Ucrânia e da Síria-Turquia; troca de sinais armados no Mar Negro e no Mar Báltico; e guerra total em todos os fronts contra o capital russo. Dos EUA, nenhuma declaração; e a Rússia não tem via para retroceder.

Putin disse praticamente isso semana passada nos encontros em S.Petersburgo:


"As pessoas não veem aí qualquer perigo, o que para mim é alarmante. Por que ninguém vê que estamos arrastando o mundo para dimensão completamente nova? Aí está o problema." (...) "Agora, não estou interessado em distribuir culpas. Simplesmente, quero dizer que, se prosseguir essa política de ações unilaterais, e se não se coordenarem passos na arena internacional, que são muito sensíveis para a comunidade internacional, nesse caso as consequências são inevitáveis."


"Consequências", na fala de Putin, significava guerra, não declarada pelos EUA, contra a Rússia, compelindo a Rússia a agir em legítima defesa: "Se continuamos a agir por essa lógica, escalando [tensões] e redobrando esforços para assustar um o outro, mais dia menos dia estaremos numa guerra fria."

Mas Putin não tem em mente qualquer tipo frio de guerra. "Não sei até onde [a instalação na Europa do sistema de mísseis de defesa dos EUA] pode nos levar. O que sei com certeza é que teremos de responder."

Para conhecer os antecedentes desse tipo de guerra não declarada dos EUA, provocando o ataque japonês a Pearl Harbour, o que criou como uma porta dos fundos para os EUA, na guerra dos EUA contra a Alemanha, é preciso ler The Challenge of Grand Strategy [O Desafio de Grande Estratégia]. É coleção pouco conhecida de ensaios de historiadores norte-americanos do período entre as duas guerras mundiais. Podem ler aqui(ing.). 

Os nove estudiosos norte-americanos e um japonês não apresentam resultados de pesquisa para demonstrar pontos pró-soviéticos ou pró-russos. Reconhecem que as políticas russa e alemã no período entre as guerras são ideológicas; o excepcionalismo norte-americano, isso sim, escrevem eles, é coisa muito diferente! E para eles Stálin é paranoico e delirante. 

Os resultados de pesquisa são apresentados, não para demonstrar o quanto relutantes, assustadiços, mal informados, fanáticos ou obsessivos eram norte-americanos, britânicos, alemães e japoneses; mas, sim, para demonstrar o quanto cada grupo daqueles foi deliberado, ponderado, sensível e razoável no que pensavam que fossem os seus próprios mais altos interesses, diante das únicas escolhas que acreditavam que houvesse e do que lhes permitiam as capacidades e intenções dos adversários. 

Vistos os eventos retrospectivamente, há provas de que Roosevelt planejou as sanções econômicas contra o Japão, primeiro contra o comércio de minérios estratégicos, depois contra o dinheiro e os capitais japoneses que estavam fora do Japão; e finalmente contra a venda de petróleo, para provocar a guerra no Pacífico. Como há registros de Roosevelt, dizendo ao seu secretário de Guerra em outubro de 1941, sete semanas antes do ataque contra Pearl Harbour: "estamos diante da delicada questão da esgrima diplomática a ser feita para garantir que o Japão esteve errado e fez o primeiro movimento mau - e movimento visível."

"MAGIC" -, conclui Jeffrey Tagliaferro sobre os EUA quebrarem as mais importantes comunicações em código que partiam de Tóquio e de Berlim -, "confirmou os pressupostos subjacentes da estratégia de Roosevelt desde meados de 1940, a saber, fazer guerra naval não declarada contra a Alemanha no Atlântico norte, na expectativa de que Hitler logo provocasse um casus belli. Se falhasse [e falhou, acrescenta Tagliaferro] - Roosevelt usaria sanções econômicas para provocar o Japão a atacar territórios dos EUA no Pacífico, sobre o pressuposto de que Hitler entraria numa guerra EUA-Japão."

Hoje, segundo fontes russas, a conclusão do Kremlin e do alto comando do estado-maior russo é que Obama e sua sucessora presuntiva Hillary Clinton estão seguindo a linha Roosevelt. Foi o que Putin disse na sexta-feira passada, ao ser perguntado sobre que diferenças vê entre os candidatos à presidência dos EUA, Donald Trump e Clinton. 

Trump, disse Putin:


"É personalidade interessante, não é? Sem dúvida é. Não sei de outras características dele, mas o que sei com certeza, e me parece certamente bem-vindo - e nada vejo aí de errado, muito pelo contrário - é que Mr. Trump disse que está pronto para a plena restauração das relações russo-norte-americanas. O que haveria de errado aí? Todos nós acolhemos entusiasmados essa ideia, não é mesmo?"


IMAGEM: Clinton com Putin em Moscou, março 2010. Segundo Clinton, "ele mal ouvia". Fonte: http://www.thetimes.co.uk/tto/life/article4114685.ece


Sobre Clinton, Putin disse:


"Não trabalhei com ela. Quem trabalhou com ela foi [ministro das Relações Exteriores Sergei] Lavrov. Está sentado aqui. Podem perguntar a ele. Trabalhei com Bill Clinton, embora por pouco tempo, e tivemos relação muito boa. Posso até dizer que lhe sou grato por alguns momentos, porque eu era recém-chegado ao grande palco da política. Em várias ocasiões, teve gestos de atenção, de respeito pela Rússia, e respeito de pessoal, por mim. Lembro-me disso e sou-lhe grato. Quanto à Mrs. Clinton... Talvez tenha ideias próprias sobre o desenvolvimento de relações Rússia-EUA."


O objetivo do Fórum Econômico Internacional de S.Petersburgo [ing.International Economic Forum (SPIEF)] semana passada era prevenir os europeus para não superestimarem as próprias capacidades ou as capacidades dos EUA para a guerra em curso contra a Rússia; e para não subestimarem as capacidades e intenções da Rússia, para reagir e responder. Planejaram-se anúncios de importantes recordes, pela secretaria do SPIEF, para substanciar a reação e resposta no front dos negócios. Segundo a Agência Tass, "332 contratos formais, de cerca de 1 trilhão de rublos ($15,44 bilhões) foram assinados", disse Anton Kobyakov, Conselheiro da Presidência da Rússia, vice-presidente do Comitê Organizador e secretário executivo, na 6ª-feira, em conferência com a imprensa sobre os resultados do fórum. 

Os resultados divulgados do SPIEF em 2015 foram inferiores a esses - 205 contratos de negócios que totalizaram Rb293,4 bi ($4,52 bi); e também foram inferiores os de 2014: 175 contratos de negócios e Rb401,4 bi ($11,5 bi). Em 2013, o último SPIEF pré-guerra, registraram-se 102 contratosfirmados de negócios, num total estimado de Rb9,6 tri ($294 bi). 

Financeiramente, os números de 2013 foram o auge, mas naquele ano, houve número recorde de participantes, 12 mil pessoas; e número recorde de 130 países representados. 

A Rússia, disse Putin na mesma sessão com líderes empresariais estrangeiros, tem a vantagem de conhecer a medida das capacidades de seus inimigos; Europa e EUA não têm como medir as intenções russas. Os EUA têm capacidades, especialmente para guerra econômica - Putin concedeu. Mas quem está pagando o preço é a Europa, que não tem meios para suportar as perdas, porque não tem a mesma capacidade de resistência que têm os russos; nem tem as opções militares que os russos temos. "O mundo precisa daquela superpotência. Nós também precisamos dos EUA" - Putin disse à mesa de debatedores, na 6ª-feira.


IMAGEM: http://en.kremlin.ru/events/president/news/52182/photos/44718


"Mas não precisamos deles para continuadamente intervir em nossos assuntos, a nos dizerem como viver; e impedindo a Europa de construir um relacionamento conosco. Em que as sanções de que os senhores falaram afetam os EUA? Em nada. Não afetam em nada, de modo algum. Absolutamente não estão preocupados com sanções, porque as nossas reações contra as sanções não têm impacto sobre os EUA. Têm impacto sobre a Europa, sim, mas não sobre os EUA. Impacto zero. E os EUA dizem aos parceiros deles 'Tenham paciência'. Por que teriam de ter paciência? Eu simplesmente não entendo. Mas se querem ser pacientes, que sejam pacientes."


Alguns empresários europeus em S.Petersburgo falam com ceticismo sobre as capacidades dos empresários russos para sustentar uma guerra. Uns poucos foram sarcásticos. Nas palavras de um banqueiro internacional,


"os bem conhecidos oligarcas de primeira linha - sabemos o quanto querem ser como nós, viver nos nossos palácios. Gostam muito mais da nossa vida, que da vida na terra deles. Para eles, essa guerra os está convertendo, de modelos de sucesso, em párias. Eles não gostam disso. Porque não gostam, deixam-se arrastar em sonhos de delírio autoindulgente. Mas politicamente são impotentes. [Gennady] Timchenko, [Yury] Kovalchuk e os Rotenbergs [Boris e Arkady], que os norte-americanos atacaram com sanções duríssimas, nunca terão sucesso no ocidente. Significa que as sanções contra eles não terão tampouco qualquer efeito político. [Ex-ministro das Finanças Alexei] Kudrin é a favor da capitulação. É o único. Não há lobby em Moscou a favor da paz nos termos que os EUA desejam."


Banqueiros da City de Londres acrescentam que não creem que os diretores dos bancos estatais e das empresas estatais russa sejam mais capazes de sustentar uma guerra que as empresas dirigidas pelos oligarcas e conhecidas no mercado. Como prova, as fontes apontam o fracasso do Ministério de Finanças da Rússia e dos bancos estatais na questão dos eurobônus do Estado, na última semana de maio. 

Uma primeira tentativa para lançar aqueles papéis em fevereiro foi adiada, depois que o governo dos EUA persuadiu bancos dos EUA a não comprar nem avalizar o negócio. Então, o ministro das Finanças Anton Siluanov (foto, à esquerda), anunciou que a "Rússia levantará $3 bi numa parcela [orig. in single tranche], seja qual for a posição dos bancos norte-americanos." 

A tentativa encabeçada pelo [Banco] VTB, presidido por Andrei Kostin (acima, à direita), teria atraído, segundo o noticiário, ofertas entre $5,5 bi e $7 bi, no fechamento da licitação, dia 23 de maio. Mas no dia seguinte, segundo anunciou o Ministério das Finanças, o banco e o ministério só tinham ofertas de $1,75 bi. "Mais de 70% da oferta foi comprada por investidores estrangeiros" - Siluanov anunciou à imprensa. "É o grupo no qual nos focamos. Estamos satisfeitos." (...) 

Mas o Wall Street Journal chamou o caso de "a questão dos supostos eurobônus", acrescentando que o mercado comentava que os corretores "não sabiam de nenhum grande investidor estrangeiro que tenha participado do leilão,  por causa da dúvida quanto à liquidez dos papeis." 

Uma antiga fonte no mercado de ações em Londres diz que Euroclear e Clearstream não se recusaram a aceitar os papéis. "Essas corretoras apenas adiaram a resposta à licitação do Banco VTB. Com isso, não houve nenhum valor atribuído à ação, confirmando que poderia ser negociada entre os próprios membros. Se você não pode negociar, não pode comprar. Assim, a maioria dos que haviam encaminhado ofertas para comprar as ações, retiraram-se do leilão, quando se deram conta do que as corretoras Euroclear e Clearstream estavam fazendo. O grande sucesso no momento do leilão foi grande fracasso no momento de fechar os negócios."

A corretora Euroclear pertence a J.P. Morgan; a corretora Clearstream pertence e é operada pelo Deutsche Borse, dirigido por um norte-americano, Jeffrey Tessler (à direita). Nenhuma dessas organizações responde perguntas sobre a questão das ações russas. A fonte acrescenta: "Houve grave negligência no Ministério das Finanças e no [banco] VTB em Moscou. Teriam de ter checado e obtido garantias prévias. Em vez disso, tiveram de declarar no prospecto que continuavam negociando, mas não receberam nenhuma 'garantia de compra' nem de Euroclear e Clearstream. Além disso, é óbvio, examinando as coisas do ponto de vista de hoje, que os conselheiros londrinos do Ministério das Finanças sobre os bônus falharam ao não prever a questão da licença para negociar. A quem toda essa história enganou? Putin, talvez." 

Fontes do mercado dizem que Siluanov e Kostin foram forçados a arranjar compradores offshore para disfarçar que não haviam previsto o que poderia acontecer e aconteceu.


"Nada ilustra melhor que esse caso, o modo como os EUA estão conduzindo a guerra e o modo como os russos, no campo civil, dos negócios, não têm competências para responder e resistir. Os russos dizem que estão trabalhando pelas regras do mercado. Só falam. Dão a impressão de que não sabem avaliar o quão amplamente os EUA estão fazendo uma guerra de guerrilhas, no campo econômico, muito bem coordenada."


"Sabemos como tudo começou" - disse Putin semana passada no SPIEF. "A Rússia não começou as rupturas, problemas e sanções atuais. Todas nossas ações foram exclusivamente retaliatórias. "Não guardamos rancor, como se diz. Estamos prontos a conversar com nossos parceiros europeus num ponto qualquer, no meio do caminho. Mas de modo algum a questão pode ser vista como via de mão única." *****


ATUALIZAÇÃO 21/6/2016, 11h05: "O jornal britânico The Guardianpublicou que os torcedores russos envolvidos em tumultos em jogos de futebol na França podem ser agentes autorizados pelo governo russo. The Telegraph escreveu, em "Rússia recolhe seus hooligansno último momento":


"Na verdade, é a velha tática russa de atacar e recuar, e sapatear sobre a verdade. 

Num minuto não há programa estatal de doping para os atletas do estado russo. No minuto seguinte, os russos prometem uma 'faxina', para evitar a expulsão dos Jogos Olímpicos do Rio. Num minuto Vitaly Mutko, ministro dos esportes, não entende o que se passa em Marseille. No minuto seguinte, admite a culpa."


Segundo a agência Interfax, no domingo, 19/6, o secretário de imprensa do presidente russo, Dmitry Peskov, disse que "não passa de histeria russofóbica. Nem exige resposta. É apenas mais um exemplo de até onde vai a histeria russofóbica" - disse Peskov." (http://newss.mirtesen.ru/ ).

19/6/2016, John Helmer, Dance with Bears
http://johnhelmer.net/?p=15877#more-15877

 


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